Crítica | “The Life Of Pablo” – Kanye West

estrelas 4

“This is not album of the year. This is album of the life.”

Kanye West

Kanye West anda, nos dias de hoje, muito mais popular por suas polêmicas do que por sua música. O ódio de muita gente ao ver suas atitudes impede que muitos a conheçam, falo isso pois já vi muitos o criticarem sem nunca ouvir sequer um de seus álbuns. Mas, quanto a sua música, vamos aos fatos: ele não sabe cantar, é um rapper razoável e tem letras que variam bastante, de fracas a fantásticas. Mas se há algo que Kanye é brilhante, falhando pouquíssimas vezes, isso é como produtor. Sua capacidade criativa abre espaço para os maiores elogios possíveis. Poucos fazem samples e batidas tão inteligentes quanto Kanye atualmente.

The Life Of Pablo é um novo passo na discografia do produtor que sempre tentou trazer trabalhos diferentes. O novo disco é, provavelmente, seu disco mais introspectivo, cheio de batidas mais leves. Está cheio de referências religiosas que nunca se imaginavam um dia encontrar em um trabalho do produtor, a começar pelo título (Pablo é uma referência, segundo ele, ao discípulo Paulo, perseguido pelos romanos como Kanye é “perseguido” pela mídia). Mas mais do que tudo, esse álbum é sobre o próprio Kanye, evidenciando desde seu lado egocêntrico até suas fraquezas e seu passado.

Temos logo de abertura um grande impacto. Ultralight Beams é um épico gospel fantástico, uma oração pelas vítimas do atentado de Paris, repleto de fortes vocais da música negra com um destaque espetacular para a performance de Kelly Price. Chance The Rapper – o Kanye West da nova geração – faz sua participação de maneira pontual, sabendo proclamar seu rap no tom adequado ditado na música. Esse tom gospel introdutório vem a ser importante para já determinar um certo aspecto religioso no disco, algo que não é constante, mas que prevalece por meio de referências em diversas faixas.

Um ponto importante que traz méritos a Kanye é que ele SABE como fazer um disco. Ele não simplesmente joga canções de maneira aleatória, ele sabe contornar um tema por trás de sua obra, sabe colocar a ordem certa das canções e suas abordagens, tudo com uma ideia central. E, no caso em questão, mergulhamos na insanidade da mente do polêmico artista, seu egocentrismo exagerado e louco, mas principalmente em sua história de vida. Os momentos de interlude aqui são essenciais pra entender a ideia por trás do conceito, seja mais para o lado espiritual (Low Lights), quanto para satirizar seu louco ego e a insistência que a mídia tem em falar sobre ele (como em I Love Kanye). Ele troca de samples de maneira tão dinâmica que soa quase como um  DJ no Brooklyn nos primórdios do hip-hop, isso sem falar em seus inteligentes beats, algo que impressiona.

Há quase nada do que reclamar do álbum em relação a sua produção e criatividade para bases instrumentais e beats. Os problemas aparecem em relação a alguns versos que transbordam a vergonha alheia, algo que faz de Yeezus – seu disco anterior – ser seu trabalho mais fraco. Freestyle 4 entra nessa categoria, Kanye faz um rap que parece típico de adolescente (Sometimes I’m wishing that my dick had GoPro – WTF???). Acredite, sua polêmica menção a Taylor Swift o dever sexo, em Famous, é só uma delas. Esses piores versos geralmente estão associados a seu ego inflado, onde Kanye vive um surrealismo de que ele é um deus, se gabando em versos imaturos. O engraçado é que o próprio parece ter consciência disso, quando em meio a sua notória melhor execução, em No More Parties in LA, solta: “Eu sei de fãs que diriam que eu nunca voltaria a fazer rap assim de novo”. Mas não se engane, quando ele decide contar histórias de seu passado – ao invés de se gabar – ele sabe ofuscar qualquer erro. Escutamos, através de uma batida lenta e minunciosa, ele falar sobre seus amigos e quando um deles roubou seu laptop (Real Friends) ou falar de maneira emocionante sobre seu pai, ou sobre um acidente que sofreu (Father Streched My Hands Part 1 e 2) através de uma base pop bem criativa.

A melhor sequência do disco está em sua última parte. É quando o cantor tem suas melhores performances como rapper. 30 Hours tem um dos melhores samples – retirada de Answer Me do Arthur Russel – que nos leva calmamente pelos versos bem colocados de Kanye sobre um antigo relacionamento. No More Parties in LA é a melhor performance do rapper em anos. Usando de samples que evidenciam as raízes do hip-hop, ele cria versos geniais intercalados com a participação de Kendrick Lamar e lembrando sua excelente trilogia inicial de discos. Facts tem batidas agressivas e trechos extremamente criativos, como a genial inserção de golpes de Street Fighter quase que disfarçados na canção. Fade fecha o disco de maneira despretensiosa, é uma bela canção calcada quase que apenas nos sintetizadores, um house típico de Daft Punk em Homework, fazendo o ouvinte acabar a audição com uma boa dança.

The Life Of Pablo – que em universos paralelos deve ser chamado de Swish, So Help Me God e Waves – é mais um grande acerto na discografia desse produtor egocêntrico que é Kanye, apesar de longe da criatividade de seu Late Registration, por exemplo. Se seu egocentrismo paranóico buscando ser o “Pablo Picasso da era moderna” (como ele realmente já disse achar que é) pode servir pra algo, isso é pra incentivar ele mesmo a criar trabalhos de qualidade. E pode ter certeza, The Life Of Pablo merece, sim, elogios.

Aumenta!: No More Parties in LA
Diminui!: Freestyle 4
Minha canção preferida: Ultralight Beams

The Life Of Pablo
Artista: Kanye West
País: Estados Unidos
Lançamento: 14 de fevereiro de 2016
Gravadora: GOOD Music, Def Jam
Estilo: Hip-Hop, R&B

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.