Crítica | The Lobster

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estrelas 5,0

Pare comigo, por favor, por um instante e imaginemos uma sociedade onde ser solteiro é proibido por lei. Agora abra ainda mais sua imaginação e considere que esses solteiros – viúvos inclusos – são mandados para um estranho resort, onde, por um tempo limitado, devem encontrar um parceiro compatível ou serão transformados em um animal de sua escolha. Esse é o argumento de The Lobster, saído da mente de Yorgos Lanthimos, diretor de preciosidades como Dente Canino. Uma obra verdadeiramente surpreendente que traz uma abordagem distância completamente inédita.

Nesse excêntrico cenário se insere David (Colin Farrel), um arquiteto de meia idade que recentemente perdera sua esposa. Ele é mandado para o hotel, onde, junto de outros solteiros, se encontra em uma corrida contra o tempo. Apesar de estarmos falando de uma sociedade que preza o casamento acima de tudo é notável como a frieza preenche cada lacuna, um calculismo extremo toma conta desse mundo e isso se traduz desde a forma como cada personagem fala ou age. No resort recebem instruções de como é vantajoso para uma pessoa ter um companheiro e Lanthimos o faz com uma deliciosa ironia, que, além de trazer risadas certeiras do espectador, realiza críticas evidentes a nossa sociedade, golpeando de forma sarcástica o machismo e a estrutura da família tradicional, o american way of life.

Esse tom irônico se faz presente desde os primeiros momentos da projeção através de uma divertida voz em off, que apenas amplia o teor analítico desse universo. Rachel Weisz, de quem a voz pertence, descreve sentimentos e ações de David, algumas as quais já, inclusive vimos na tela, mas essa repetição, de forma alguma, atua contra a narrativa da obra, apenas garante seu humor ácido de forma pungente. O cuidado do diretor/ roteirista, em conjunto com Efthymis Filippou, é a maneira como essa narração se insere dentro da trama, se justificando, portanto, e dando indícios do que estaria por vir, sendo uma das principais causadoras da tensão na audiência.

Naturalmente são as situações inusitadas que compõem esse quadro distópico de Lanthimos, mas ele não estaria completo não fosse Colin Farrel. Embora seu papel seja basicamente o de uma pessoa (aparentemente) devota de sentimentos – como todos os outros sociopatas personagens – o ator emprega um tom certeiro em sua voz, que faz dele não só um protagonista aproximável, como a porta de entrada do espectador nessa sociedade. Dentro de toda essa frieza é seu olhar que garante sua humanidade, como se David estivesse completamente desconfortável durante todo o tempo e, é claro, essa sensação passa imediatamente para nós, transformando-se, aos poucos, em angústia – por mais que o riso não nos abandone em qualquer momento da projeção.

O desconforto e a angústia são, então, capitalizados por uma trilha sonora pontual, que emprega tons graves e vibrantes que muito bem representam nossa incredulidade diante do que vemos em tela. Além disso, anunciam a chegada de algo muito ruim para o protagonista, algo que não sabemos exatamente o que, fazendo com que o medo tome conta sutilmente de nossa disposição. Dessa forma, curiosamente, embora estejamos diante desse matchmaking resort, enxergamos uma grande esterilidade em todas as situações, amplificado pelo céu acinzentado que reflete perfeitamente o teor de obrigação do “amor” nesse mundo.

Yorgos Lanthimos, portanto, mais uma vez nos surpreende, nos entregando uma obra que facilmente se categoriza como um dos melhores filmes do ano. Um potente humor negro pautado no absurdo que cativa o espectador o faz temer inúmeros pontos que enxergamos em nossa própria sociedade, nos fazendo sair da sala de cinema verdadeiramente desolados, impactados não somente pelo desfecho do longa-metragem, como por todo o seu distorcido universo.

The Lobster (idem – Irlanda/ Reino Unido/ Grécia/ França/ Holanda, 2015)
Direção:
 Yorgos Lanthimos
Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthymis Filippou
Elenco: Colin Farrell, Olivia Colman, Rachel Weisz, John C. Reilly, Ben Whishaw, Léa Seydoux
Duração: 118 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.