Crítica | The Loveless

estrelas 4

Tendo em mente a ascensão da diretora Kathryn Bigelow pós-Guerra ao Terror após uma constante de filmografia com trabalhos de gêneros ambiciosos, mas de certa forma impopulares após a explosão do nome da diretora, é deveras curioso olhar para trás e retroceder mais de trinta anos para analisar e atestar as predominâncias que já tomavam conta do cinema de Bigelow. Ao contrário de nomes femininos solidificados na indústria como os de Sofia Coppola e Jane Campion, adeptas do apego à figura feminina em seus filmes e sua desmistificação, Bigelow conserva sua abordagem de um universo masculino marginalizado, em constante ebulição, algo que apenas fora quebrado pelo protagonismo de Jessica Chastain em A Hora Mais Escura.

Mas é notável como, de certa forma, os filmes de Bigelow se potencializam em visceralidade e fascínio graças à essa união do olhar sensível e absurdamente humano de uma mulher sobre uma rotina regada por músculos, testosterona e olhares ameaçadores, trazendo aí um balanceamento ímpar entre a virilidade tão típica do masculino com o “deslocamento” de um olhar feminino que analisa a situação por fora diante da já mencionada marginalização.

Marginalização essa que, em The Loveless, ganha a figura de Willem Dafoe (em seu papel de estreia no cinema, quatro anos antes de sua primeira indicação ao Oscar por Platoon), trajando calças e jaqueta de couro e pilotando uma moto ao melhor estilo bad boy misterioso, quase uma mistura de James Dean com o Mel Gibson de Mad Max. E na simplicidade de sua história (roteirizada ao lado de Monty Montgomery, que também dirige ao lado de Bigelow), ambientada na interação entre motoqueiros que chegam a uma pequena cidade do Sul e começam a causar problemas, a diretora extrai a sua experiência de gênero rigidamente dirigida.

Pois a mise-en-scène de Bigelow esbanja uma surpreendente rigidez, um tato impressionante nos enquadramentos e explanação dos longos diálogos que intensificam a imersão naquele ambiente escuro, regado por olhares mortíferos entre os personagens (masculinos, em sua grande maioria), fadados a permanecerem à mercê da sociedade, porém constantemente humanizados com uma sutileza de alguém que sabe o que está comandando, como Bigelow deixa claro em seu fatídico, mas poético desfecho.

The Loveless certamente poderia ter se beneficiado de uma metragem maior (são meros 80 minutos para personagens que claramente teriam mais a render), mas já se firmava como um atestado do talento singular de uma cineasta e seu olhar tão compreensível para os conflitos humanos.

The Loveless — EUA, 1981
Direção:
 Kathryn Bigelow, Monty Montgomery
Roteiro: Kathryn Bigelow, Monty Montgomery
Elenco: Willem Dafoe, J. Don Ferguson, Robert Gordon, J. Don Ferguson, Tina L’Hotsky, Lawrence Matarese, Danny Rosen
Duração: 82 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.