Crítica | The Mire

estrelas 4,5

“Dedicado a aqueles entre vocês que possuem uma queda por seus personagens.”

Becky Cloonan

É impressionante o dom de contar histórias. Definitivamente se trata de um talento para poucos, algo que você encontra ao observar as sutilezas e destrezas de artistas ou mesmo pessoas de seu convívio. A sensação que se tem ao terminar de ler The Mire é de que Becky Cloonan – a quadrinista e criadora da revista – é uma tremenda contadora de história. Através de apenas cerca de 20 páginas a autora nos leva a um conto medieval fantástico de narrativa simples, abusando do mistério e do suspense.

A HQ é de clima épico, se passa em um tempo aparentemente medieval, onde um jovem cavaleiro chamado Aidenmire-capa recebe uma missão de seu superior: entregar uma carta em um certo castelo. Dizer mais do que isso seria revelar demais, principalmente levando em consideração a curta duração da obra, algo que pode ser lido em menos de 15 minutos. Mas, acima de tudo, é essencial mergulhar em The Mire sem saber o que irá encontrar.

The Mire é a segunda edição de uma trilogia de contos de Becky Cloonan chamado By Chance or Providence (Por Chance ou Providência) onde a artista desenvolve um conto diferente para cada uma delas, mantendo o clima misterioso. As três HQs foram desenvolvidas de maneira independente, totalmente controlada por Becky que conseguiu uma repercussão enorme e chegou a ganhar o prêmio Eisner de Best Single Issue (Melhor lançamento individual) por The Mire em 2013, além de levar outros prêmios pelas outras duas partes da trilogia.

O roteiro é breve, direto e extremamente certeiro, sabendo construir e entregar apenas o essencial ao leitor, para que possibilite o mistério, o questionamento, a imaginação. Se trata de algo que sabe se aproveitar do privilégio de ser curto e faz com que suas consequências permaneçam no âmago que quem termina a obra, que o consumidor carregue aquele simples conto para sempre na memória. E grande parte disso Becky deposita em sua deslumbrante arte, leve e bela, que se aproveita da rusticidade do preto e branco para uma exímia clareza nos sombreamentos.

Por fim, ler The Mire é como escutar uma boa história ao redor de uma fogueira. Chega a ser possível imaginar o plot sendo desenvolvido em um episódio no estilo Black Mirror, apesar da total diferença de tema (mais fantasioso e épico), mas igualmente criativo, sucinto e bem desenvolvido. A simplicidade, sutileza e cuidado como é contada merece méritos gigantescos e sabe colocar um belo sorriso no rosto do leitor ao final da (rápida) leitura. Deixa inúmeras dúvidas e mistérios em sua cabeça sem soar incômodo, mas muito pelo contrário, deixando uma grande sensação de satisfação. Afinal, não é qualquer um que sabe contar uma ótima história.

The Mire (EUA, 2013)
Roteiro: Becky Cloonan
Arte: Becky Cloonan
Letras: Becky Cloonan
Capas: Becky Cloonan
Editora: Independente
Editora no Brasil: Não publicado
Data original da publicação:01 de março de 2013
Páginas: 27

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.