Crítica | The Mist – 1X01: Pilot

estrelas 4
– Contém spoilers do episódio.

Quando descobri que seria feita uma série baseada em O Nevoeiro, de Stephen King, minha primeira reação foi bastante positiva. A versão cinematográfica do conto, dirigida por Frank Darabont é um excepcional filme de terror, uma pegada “mais séria” que nos lembra os filmes de George A. Romero, tendo um grupo de sobreviventes presos em um ambiente fechado, com monstros no exterior. A segunda reação, contudo, foi a de verdadeiro terror, pois poderíamos acabar ganhando um seriado aos moldes de Under the Dome, no qual a estupidez dos personagens é o que a define como série de fantasia. Felizmente, ao terminar de assistir o piloto, parte desses temores foram embora, ainda que eles possam voltar dependendo do caminho escolhido por Christian Thorpe, showrunner e criador de The Mist.

O episódio tem início, no meio da floresta, com o personagem de Romaine Waite, um soldado do exército que perdera sua memória. De imediato ele se depara com o nevoeiro e corre para a cidadezinha mais próxima para avisá-los e, claro, buscar ajuda. Em seguida somos apresentados a cada um dos personagens centrais, com a introdução de subtramas que dialogam com problemas atuais enfrentados na sociedade, desde o controle rígido sobre o que o professor pode ensinar na sala de aula (no caso educação sexual), preconceito baseado em gênero ou orientação sexual, até o estupro. Fica bastante claro que a intenção de Thorpe era configurar esse cenário inicial a fim de criar os posteriores conflitos, com esses mesmos personagens já confinados em razão da névoa que toma conta da cidade.

Aqueles que esperavam uma maior fidelidade da série em relação ao conto de King, podem desistir, já foi dito que a abordagem será similar ao seriado Fargo, que utiliza pontos em comum com o filme para compor uma história diferente. De imediato temi que o roteiro fosse pender demais para o drama clichê, especialmente levando em conta que inúmeros dos personagens são claramente estereotipados, o que gera certo cansaço durante parte dos quarenta e sete minutos da exibição.

Thorpe, porém, consegue diversificar sua série, mantendo indivíduos com diferentes mentalidades e pontos de vista, o que pode ser a receita para que a série se sustente a longo prazo – afinal, quanto tempo esse nevoeiro pode se manter como ameaça? Com um argumento tão específico se faz necessária a ênfase em dramas pessoais que dialogam com a atual situação de cada um desses personagens, portanto, The Mist já começa com o pé direito. É importante notar, também, como, desde já, passamos a nos importar com alguns dos personagens: ao introduzir diferentes personalidades, o showrunner possibilita que diferentes audiências se identifiquem, alcançando, portanto, um público maior, fator essencial para o sucesso da empreitada.

Há de ser dito que o texto seguiu por uma linha bastante corajosa ao envolver a cidadezinha nessa sobrenaturalidade logo no primeiro capítulo, quando facilmente, para nossa tragédia, o nevoeiro poderia ter chegado muito depois. Considerando que teremos dez episódios, o roteirista sabiamente divide seu elenco em três grupos distintos, possibilitando que diferenciadas interações sejam trabalhadas ao longo da temporada – temos alguns na delegacia, na igreja e outros no shopping, esse último dialogando, evidentemente, com o conto original, que se passa em um supermercado, algo deixado bem claro pelas portas de vidro, potente elemento visual que compõe a atmosfera da narrativa.

Na direção, o piloto também não decepciona, utilizando movimentos de câmera circulares, além das aproximações e planos mais curtos a fim de confundir o espectador. À partir do momento que a névoa se estabelece, não sabemos ao certo a configuração do local, nos vemos tão perdidos quanto os personagens e, rapidamente, a expectativa de que algo irá surgir. Além disso, fica incerto o quanto esse nevoeiro afeta cada um dos personagens e se ele, de forma sobrenatural, chega a alterar o espaço físico à volta. Isso tudo permite que o clima de mistério, suspense e terror se estabeleça, nos imergindo na trama de tal forma que ansiamos para descobrir o que virá a seguir.

The Mist, portanto, apesar de certos estereótipos e clichês, consegue nos oferecer um ótimo começo de temporada, que nos afasta, nem que seja temporariamente, de nossos temores iniciais acerca do caminho a ser trilhado. Tendo trabalhado sua vida inteira com o cinema e televisão dinamarquesa, Christian Thorpe tem o potencial de nos entregar algo que difere do que estamos acostumados quando falamos de produções americanas e os produtores parecem ter dado a ele a necessária liberdade para que isso aconteça, algo deixado claro pelo gore que se faz presente pontualmente no episódio. Resta torcer para que o seriado consiga se manter por mais nove episódios, nos deixando tão imersos em sua narrativa quanto ficamos nesse piloto.

The Mist – 1X01: Pilot — EUA, 2017
Showrunner: Christian Thorpe
Direção: Adam Bernstein, Christian Torpe
Roteiro: Christian Torpe (baseado no conto de Stephen King)
Elenco: Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Darren Pettie,  Russell Posner, Frances Conroy
Duração: 47 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.