Crítica | The Mist – 1X02: Withdrawal

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estrelas 3

The Mist, série baseada no conto de Stephen King, nos entregou um bom episódio piloto, dando início à temporada através da típica apresentação dos personagens, sendo o próprio nevoeiro que recai sobre a cidade como um deles. Apesar de ter mostrado uma saudável agilidade no première, já colocando os moradores em seus respectivos locais de confinamento em razão do terror desconhecido presente na névoa, era apenas natural que esse ritmo desaceleraria – afinal, estamos falando de uma temporada com dez capítulos, sem contar os potenciais anos seguintes. Um dos melhores aspectos dessa história de King, porém, é a forma como todo o cenário afeta os personagens envolvidos, o que possibilitaria, no seriado, a exploração maior da formação de cultos ou paranoias dentro dos grupos, em razão do tempo de duração.

Continuando de onde fomos deixados na semana anterior, Withdrawal inicia com três focos distintos: um na delegacia, outro na igreja e, por fim, o terceiro no shopping. No fim, dois desses são unidos, mostrando, desde já, que o showrunner, Christian Thorpe, provavelmente, não pretende fugir muito da linha narrativa principal, não criando grandes devaneios em razão de um número gigantesco de personagens. É interessante notar como cada um desses grupos já começa a apresentar seus respectivos líderes, algo que, claro, poderá se alterar com o decorrer da temporada, já que alguns conflitos começam a se formar, em especial o de Kevin e Connor, que os abandonara na delegacia, já inventando uma desculpa para esconder sua covardia.

De fato, essa calma maior apresentada nesse segundo episódio dialoga bem com o propósito de The Mist, permitindo que o suspense seja construído de maneira mais enfática e envolvente. O grande problema se encontra em alguns elementos forçados, como o carro que capota, chegando a passar por cima da traseira de outro, ao invés de simplesmente bater. Evidente que isso apenas aconteceu para que Kevin, Bryan e Mia chegassem até a igreja, mas isso poderia ser feito se eles simplesmente entregassem o carro aos assaltantes.

Por outro lado, o roteiro de Peter Macmanus utiliza essa escapada a fim de elaborar a abstinência de Mia, que dá título ao capítulo e que dialoga com o próprio caráter do nevoeiro, que pode ou não causar alucinações (mesmo com a revelação de Bryan ao final, não temos como ter certeza) e que parece estar relacionado a um medo específico da pessoa afetada – primeiro as baratas e agora uma senhora que chama a mulher de “baby doll”, podendo ser uma familiar sua e/ou, teorizo eu, alguém que tenha abusado sexualmente dela quando menina, o que dialogaria com seu vício em drogas, que serviriam como válvula de escape para essa dor do passado.

Já no shopping as coisas seguem por uma via instigante, com o gerente do local instaurando uma velada ditadura, baseada no “façam o que eu quero ou tentem a sorte nas ruas”. Eis uma das características mais marcantes do conto de King começa a se apresentar, enfatizando até que ponto as pessoas podem chegar em situações de crise e desespero. Além disso, o simples fato de terem utilizado o drone da loja de eletrônicos já abre espaço para que tais estabelecimentos sejam mais amplamente explorados – o que antes constituiria roubo, se torna uma medida necessária para a sobrevivência, denotando que a velha sociedade, aos poucos, vai deixando de existir, o que cria um direto paralelo com o que vemos na igreja, com o padre relutante em liberar o vinho e o policial impedindo Adrian de beber, por ser menor de idade.

Esse foco, contudo, também não está livre de seus problemas. Primeiro pelo conveniente resultado do sorteio, que torna Eve a responsável pelo rádio na seção invadida pelo nevoeiro. Segundo pelo conflito entre ela e o sujeito da Arrowhead, que escala simplesmente do nada, culminando na morte do homem, sem trazer qualquer explicação. Por fim, o caráter superexpositivo em relação à arma escondida no final do capítulo, que só faltava Alyssa Sutherland levantar o objeto para a câmera e dizer “olha, aqui está a arma que peguei do cara que acabei de matar”.

Tais aspectos, felizmente, não estragam a experiência como um todo, ainda que faça desse um capítulo bem mais irregular que o de estreia. Withdrawal claramente buscou trabalhar os microcosmos formados em cada um de seus cenários, ao invés de se aprofundar nos personagens em si (à exceção de Mia e Bryan), o que já abre espaço para posteriores conflitos em razão da discordância em relação às atitudes de cada “líder”. Com um ritmo mais compassado The Mist mantém seu mistério e permite que envolventes linhas narrativas sejam exploradas daqui em diante.

The Mist – 1X02: Withdrawal — EUA, 29 de junho de 2017
Showrunner: 
Christian Thorpe
Direção:
David Boyd
Roteiro:
Peter Macmanus (baseado no conto de Stephen King)
Elenco: 
Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Darren Pettie,  Russell Posner, Frances Conroy
Duração: 
39 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.