Crítica | The Mist – 1X03: Show and Tell

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estrelas 3

– Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Ao longo desses três primeiros episódios, a série The Mist tem apresentado um viés que segue bem mais pelo suspense do que terror efetivamente, construindo pouco a pouco seus personagens, enquanto nos oferece poucas respostas em relação ao misterioso nevoeiro que tomara conta da cidadezinha na qual a história se passa. Em Show and Tell, enfim, um dos lados mais interessantes do conto de Stephen King começa a aparecer: o radicalismo religioso, fomentado, claro, pela situação de crise pela qual todos estão passando. Christian Thorpe, portanto, respeita o material original, sem poupar algumas necessárias mudanças para que o seriado se mantenha por uma ou mais temporadas. Mas será que temos material o suficiente para isso?

A narrativa ainda permanece dividida em três focos distintos: dois na igreja e um no shopping. Primeiro temos o grupo de Kevin, que busca uma forma de sair do local, tendo de convencer o policial, Connor, a libertar os prisioneiros. No mesmo lugar, acompanhamos Nathalie, com a sempre excelente Frances Conroy roubando a cena. Por fim, no shopping, vemos Eve e Alex tendo de lidar com o fato de estarem presos no mesmo lugar que o estuprador, Jay. Ambos os cenários, porém, ficam cada vez mais instáveis, ao passo que, de um lado vemos o surgimento de estranhas crenças e abusos de poder, enquanto que do outro uma micro-sociedade totalitária poe estar se formando.

Antes que me apedrejem, sim, as regras sendo criadas no shopping estão sendo elaboradas por via de uma votação, mas vale lembrar da posição do gerente do local e até mesmo o que ele diz enquanto sugerem tais regras: “sim, essa é boa, anote aí”, podendo denotar que ele ainda se considera na posição de poder. Além disso, ele é o responsável pela segurança, sendo um dos poucos com poder de fogo ali (através dos seguranças, claro), o que pode muito bem significar que toda essa democracia irá por água abaixo mais cedo do que todos imaginam. The Mist, portanto, aproveita esse foco para trabalhar o seu lado mais político, garantindo uma boa pluralidade à série.

No mesmo local, um dos aspectos mais interessantes apresentados nessa temporada é a forma como Jay é trabalhado. É criada a dúvida acerca do fato do garoto ser ou não estuprador, o que, naturalmente, dialoga com nossa realidade, na qual a maioria prefere não acreitar, taxando a vítima de mentirosa ou ainda pior, esquecendo totalmente da dor pela qual passam. O que prejudica essa questão é o roteiro de Peter Biegen, que faz de Alex um equivalente humano a um peso de papel. Claro que seu silêncio reflete seu trauma, mas um pouco mais de exposição seria bem vindo aqui.

Já na igreja o lado religioso segue por duas vias, uma com Adrian fingindo querer ser batizado, convencendo até nós próprios no processo, o que pode significar a revelação de um lado mais insólito do personagem, enquanto que, do outro lado, temos Nathalie acreditando na existência de um deus, abandonando seu ateísmo a favor de algo claramente distorcido. É curioso enxergar como a trama cria constantes paralelos entre esses dois cenários, como os dois jovens da loja de games buscando enxergar o que há no nevoeiro, enquanto que, na igreja, um homem é atacado de imediato. Mais uma vez vemos que a neblina reflete algo relacionado à pessoa – Nathalie falara das mariposas e agora o homem ao seu lado fora atacado por um grupo delas (sem falar em sua tatuagem, claro).

O que prejudica e muito toda essa construção é o ritmo estabelecido do seriado. Fica bastante óbvio que o showrunner, Christian Thorpe, está conduzindo a série da forma mais cadenciada possível, mas essa obviedade nos cansa, ao passo que poucos eventos realmente significativos ocorrem a cada capítulo. Elogiamos a construção de personagens e situações realizadas aqui, mas não podemos deixar de nos perguntar se isso poderia acontecer de forma mais acelerada, a fim de garantir um maior engajamento do espectador.

Em razão disso, The Mist ainda demonstra dificuldade em nos prender da maneira como deveria, soando como uma grand eenrolação pontuada por elementos relevantes. No geral, os pontos positivos se sobressaem, mas não consigo enxergar como a série irá se sustentar se tal ritmo for mantido. Há sempre a esperança, porém, de que aquilo que faz o conto de King (e sua adaptação cinematográfica) ser tão bom irá, eventualmente, dar as caras com todas as forças no seriado.

The Mist – 1X03: Show and Tell — EUA, 06 de julho de 2017
Showrunner: 
Christian Thorpe
Direção:
Nick Murphy
Roteiro:
Peter Biegen (baseado no conto de Stephen King)
Elenco: 
Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Darren Pettie,  Russell Posner, Frances Conroy
Duração: 
39 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.