Crítica | The New York Review of Books: Uma Reflexão de 50 Anos

estrelas 4

Qualquer filme dirigido por Martin Scorsese tem que ser pelo menos visto. Ninguém precisa gostar só porque é dele, mas, no mínimo, há que se conferir o trabalho.

Foi  com esse espírito minimalista que elegi The New York Review of Books: Uma Reflexão de 50 Anos para assistir no Festival do Rio de 2014. O objeto desse documentário é, literalmente, comemorar o aniversário de 50 anos da famosa revista The New York Review of Books, surgida em 1963, em meio a uma greve de jornalistas que assolava os EUA. Não é, como o próprio nome deixa entrever, uma revista só de críticas de obras literárias. Aliás, muito ao contrário, na verdade, pois ela se tornou verdadeiramente conhecida por seus diversos artigos opinativos – encomendados por seus incansáveis editores Robert B. Silvers, ainda em plena atuação e Barbara Epstein, falecida em 2006. Já tive a oportunidade de folhear alguns exemplares dessa publicação e, apesar de uma apresentação que considero feia (puramente gosto pessoal), confesso que o conteúdo é, normalmente, de grande relevância, identidade e densidade.

E Martin Scorsese, juntamente com seu co-diretor David Tedeschi, montador de dois outros documentários de Scorsese, George Harrison: Living in the Material World e Shine a Light, mergulharam nesse mundo de auto-proclamados “intelectuais”, palavra essa que ao mesmo tempo que desgosto, não consigo achar outra melhor para descrever tanto os editores da revista, as várias pessoas que contribuíram com textos e, também, a própria revista em si.

O resultado é um documentário sem dúvida hermético, que não tem nem de longe o apelo dos outros feitos por Scorsese (tanto os dois que mencionei acima, como até de outros de menos envergadura como Uma Carta para Elia, sobre Elia Kazan e Lady by the Sea: The Statue of Liberty, cujo título é auto-explicativo). No entanto, The New York Review of Books: Uma Reflexão de 50 Anos não deixa de ser um retrato fascinante feito por um diretor claramente enamorado da obra que pretende homenagear. Assim, quer quiser uma análise crítica sobre a publicação, não a encontrará no documentário. Trata-se de uma carta de amor de Martin Scorsese, que abraçou o projeto e tratou de ilustrá-lo com acontecimentos importantes na ordem mundial.

E esses acontecimentos – de todo o tipo, desde o 11 de Setembro até o caso de jovens acusados de estupro no Central Park, em Nova Iorque – nos são trazidos fora de ordem, realmente de maneira ilustrativa e sempre abordados a partir dos artigos escritos sobre os eventos e as consequências desse trabalho tanto para a publicação em si, como para a percepção geral do público ou de seu autor. Há, também, grande e merecido foco em Robert Silvers, com entrevistas com ele e sobre ele, sempre pintando-o como alguém ponderado, que nunca impingiu sua opinião pessoal sobre determinada matéria, permitindo ampla liberdade a quem escrevesse na revista.

Talvez por isso seja difícil classificar a posição política da The New York Review of Books. Não há uma linha editorial assim ou assado. Há, apenas, pensamentos, sejam eles contra ou a favor determinada situação ou obra, tudo pronto para o debate, algo que Silvers muito quer, com a publicação de visões opostas – desde que embasadas – para a maior quantidade de questões possível.

Normalmente, defendo que documentários precisam tomar uma posição crítica sobre o objeto da obra, mas isso somente se aplica a questões polêmicas em que a opinião do diretor seja realmente importante. No caso concreto, Scorsese recebeu a missão de falar sobre aquilo que gosta e o documentário, digamos, unilateral, que só tem elogios para a revista, faz todo sentido aqui.

O diretor, claro, tomou o cuidado de intercalar trechos lidos de artigos (a maioria por seus próprios autores) com cenas dramáticas, como o levante egípcio em 2013. A fita não esmorece em momento algum e, com uma duração de apenas 90 minutos, prende a atenção – de sua maneira, claro! – do começo ao fim.

Scorsese, aparentemente, tem o dom de Midas e transforma o mais árido dos assuntos em algo perfeitamente palatável para aqueles que souberem no mínimo o que esperar de um documentário desse naipe.

The New York Review of Books: Uma Reflexão de 50 Anos (The 50 Year Argument, EUA – 2014)
Direção: Martin Scorsese, David Tedeschi
Com: Robert Silvers, Timothy Garton Ash, James Baldwin, Mary Beard, Michael Chabon, Noam Chomsky, Joan Didion, Rae Hederman, Norman Mailer, Susan Sontag
Duração: 90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.