Crítica | The Night Manager (minissérie)

estrelas 4,5

Elegância, sofisticação e uma enervante calma. Essas são as características que despontam mais obviamente da minissérie em seis episódios The Night Manager, co-produzida pela BBC e AMC, com base em romance homônimo de John le Carré e estrelando Tom Hiddleston (o Loki, de Os Vingadores) como o gerente noturno de hotel que se torna agente infiltrado de uma divisão do MI-6 na organização comandada pelo traficante de armas vivido por Hugh Laurie (o Dr. House, da série House).

O tipo de drama de espionagem que marca a bibliografia do autor britânico John le Carré não é, normalmente, para todos os gostos. Sua pegada realista exige paciência do leitor, pois a ação que tipicamente passou a marcar o gênero a partir dos filmes de James Bond é uma preocupação menor para ele, que se esmera em abordar de forma mais terrena a profissão do espião e os conflitos entre países em diversos momentos da história mundial. E é curioso notar que, na grande maioria das vezes, seu estilo foi mantido e respeitado nas mais diversas adaptações cinematográficas e televisivas de suas obras, como é o caso em A Casa da Rússia (1990), O Alfaiate do Panamá (2001), O Jardineiro Fiel (2005), O Espião Que Sabia Demais (adaptado para TV em 1979 e para o cinema em 2011) e O Homem Mais Procurado (2014). As perseguições e pancadarias são reduzidas ao mínimo, quando existem, e o lado humano se sobressai, sem que ele deixe de criar tensão no processo de desenvolvimento de seus personagens.

E o mesmo acontece com The Night Manager, baseado em sua obra homônima de 1993 (que ganhou publicação no Brasil com a tradução literal do título, O Gerente Noturno) que coloca um “homem comum” que, por diversas razões, acaba envolvendo-se em uma trama para desbaratar a quadrilha de um sofisticado mercador da morte. A série, que se passa nos dias atuais, teve roteiro de David Farr, que procurou atualizar a narrativa, tornando-a mais urgente, emprestando, até certo ponto, o que de melhor os filmes de 007 têm: a beleza plástica e o estilo trotamundos, com sequências belíssimas no Cairo (filmadas no Egito e em Marrocos), Zermatt, Madri, Maiorca, Devon e Londres. No entanto, ainda que sejam inescapáveis as comparações com a franquia do espião que todos nós amamos, The Night Manager tem sua própria cadência, seu próprio e detalhado mergulho nesse mundo tenso e perigoso da espionagem.

É provável que muitos espectadores concluam que os seis episódios da minissérie, cada um de aproximadamente uma hora de duração, poderiam ser cortados pela metade ou até mesmo convertidos em um longa-metragem de duas horas ou um pouco mais. A grande verdade, porém, é que o ritmo conta muito aqui, e a correria de um roteiro mais espartano e ágil quebraria a mágica do desenvolvimento dos personagens, dificultado a imersão necessária e o cultivo de uma tensão palpável, mas que cresce muito paulatinamente até encontrar seu ápice entre os penúltimo e último episódios.

O objetivo, em primeiro lugar, é fazer o espectador encantar-se por Tom Hiddleston, que realmente está muito bem no papel de Jonathan Pine, o gerente noturno de um hotel no Cairo. Esse encanto vem do foco quase único nele durante todo o primeiro episódio que poderia muito bem ser classificado como um longo prólogo da minissérie. Novamente, ele poderia ser resumido, se fosse um filme de 007, à famosa cena pré-créditos bondiana, mas onde estaria o charme nisso? Onde The Night Manager poderia ser diferenciado das várias outras ofertas na mesma linha que existem por aí? O ritmo lento, mas cadenciado da série é um trunfo que precisa ser apreciado com calma como um bom conhaque em sua poltrona favorita e não de uma golada só como uma cerveja no bar da esquina.

Uma vez envolvidos com Jonathan, o espectador, então, é servido de doses generosas de Richard “Dickie” Roper, o personagem de Hugh Laurie e de sua entourage composta de Jed (Elizabeth Debicki, etérea e angelical), sua namorada atual, Sandy (Alistair Petrie, fleumático até o fio do cabelo) e Corky (Tom Hollander, sinistro e desconfiado), seus dois homens de confiança. Os dois lados dessa moeda são costurados pela obsessiva – e muito grávida – agente Angela Burr (Olivia Colman, simpática e focada) de uma divisão semi-independente do MI-6, que trabalha em conjunto com o entusiasmado Rex Mayhew (Douglas Hodge, sério e super-heroico) da C.I.A. que têm como único objetivo tirar Roper da equação.

Se existe uma fraqueza maior na minissérie é aceitarmos de maneira tranquila a transformação de Pine – mesmo com um passado militar – em um espião profundamente infiltrado na equipe de Roper. A motivação está lá, não se enganem, mas um espião do naipe que ele parece ser não nasce da noite para o dia e exige treinamento. Portanto, se houver algum tipo de estranhamento, mesmo com o esforço do roteiro em mostrar-nos em detalhes todo o processo de infiltração, ele está neste ponto em particular, mas só aí. Se o espectador suspender sua descrença por tempo o suficiente, será fácil aceitar o sangue frio de Pine mesmo diante da pressão causada pela mera presença de Roper no mesmo recinto.

Aliás, falando em Roper, mesmo considerando que Tom Hiddleston talvez viva seu melhor papel completamente sério até agora (pois seu Loki é excelente, mas carrega um tom de comédia), é Hugh Laurie quem rouba as cenas com sua presença periférica, mas muito marcante e ameaçadora mesmo quando parece estar relaxado. Muito longe de um vilão bondiano, maior que a vida, invencível, seu Dickie Roper é discreto, sempre comendo pelas beiradas e sempre no controle, como um mestre de marionetes manipulando seu mundo. Mesmo dividindo a tela com Hiddleston, Laurie é inegavelmente o destaque e consegue transformar-se naquele tipo de vilão que adoramos odiar (ou que odiamos adorar, depende…) e que serve de elemento antitético crível para o bom mocismo de Hiddleston que faz um personagem calado, mas de presença constante em tela.

É muito interessante como a minissérie é iluminada. A direção de fotografia de Michael Snyman trabalha praticamente em plano gerais e americanos inundados de luz, às vez até saturando os tons mais claros e mantendo uma paleta de cores clara, transitando entre o branco e os tons pasteis, com pontos de cores mais fortes – mas não escuras – aqui e ali, para marcar os personagens e aquela falsa sensação idílica cercada da podridão da gangue de alto nível de Roper. Assim, a obra foge do óbvio, pervertendo a lógica e tornando o núcleo vilanesco cheio de luz e vida e deixando Burr e Mayhew na penumbra. Ajuda muito também a direção de arte que mostra grande cuidado em não só diferenciar cada ambientação, como trabalhar figurinos marcantes sem exageros, especialmente para a misteriosa e melancólica Jed.

The Night Manager exala classe e categoria, cozinhando lenta e profundamente uma trama que traz incrementos pequenos, mas constantes de construção de personagens e tensão. É uma série old school de espionagem com a indefectível assinatura de John le Carré, um mestre do gênero. Ou seja, imperdível.

The Night Manager (EUA/Reino Unido, 2016)
Direção: Susanne Bier
Roteiro: David Farr (baseado em romance de John le Carré)
Elenco: Tom Hiddleston, Hugh Laurie, Olivia Colman, Tom Hollander, Tobias Menzies, Elizabeth Debicki, Douglas Hodge, Antonio de la Torre, Alistair Petrie, Natasha Little, Adeel Akhtar, Michael Nardone
Duração: 360 min. (aprox. – 6 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.