Crítica | The Orville – 1X01: Old Wounds

Quando os primeiros materiais promocionais de The Orville começaram a sair, qualquer um pôde perceber a extrema similaridade com Star Trek – desde os uniformes até o design da ponte da nave, tudo é praticamente idêntico à criação de Gene Roddenberry e o nome de Seth MacFarlane, que trabalha tanto como showrunner, quanto como ator principal, invariavelmente nos fez esperar que essa fosse uma série de comédia, uma espécie de Galaxy Quest para a televisão. A realidade, contudo, não é bem essa. The Orville não é bem uma homenagem ou sátira da famosa franquia de ficção científica – esse seriado é Star Trek, mas não o que a franquia tornou-se hoje em dia e sim o que ela representava lá atrás, nos anos 1960, em sua série original.

Old Woundsseason première dessa nova empreitada do showrunner, conhecido por obras como Family GuyTed, nos apresenta ao capitão Ed Mercer (o próprio Seth MacFarlane), que, após pegar sua esposa na cama com outro, tem sua carreira abalada por não conseguir centrar no trabalho. Um ano se passa e ele, enfim, ganha o comando de sua primeira nave exploratória, prontamente recebendo sua missão de estreia. Depois de sermos apresentados a cada um dos membros da tripulação, descobrimos (junto do protagonista), que sua primeira oficial é ninguém menos que sua ex-esposa, a comandante Kelly Grayson (Adrianne Palicki), que, naturalmente, é recebida com aversão por parte de Mercer. Eles, contudo, devem deixar as desavenças de lado para resolverem uma situação de crise em um planeta famoso por seus avanços científicos.

Qualquer um que tenha assistido o primeiro longa-metragem de Jornada nas Estrelas reconhecerá imediatamente de onde MacFarlane tira sua inspiração para os primeiros minutos de sua série. A estrutura narrativa é, visivelmente, a mesma, com direito a reencontro de velhos amigos e apresentação da nave sob ponto de vista do protagonista dentro de uma outra pequena espaçonave de transporte. Mesmo MacFarlane, extremamente limitado como ator, tenta espelhar-se em William Shatner, sem, contudo, conseguir captar a canastrice do eterno capitão Kirk, que o fazia ser tão carismático.

Dito isso, a ideia de um Star Trek que não é Star Trek, no mesmo ano que uma série de Star Trek será lançada pode soar como um tanto estranha e até dispensável. Mas, como dito antes, a ideia é recapturar a atmosfera da série original da década de 1960, trazendo uma visão mais otimista sobre a exploração espacial, com todo o episódio finalizando de forma a colocar um sorriso no rosto do espectador, diferenciando-se, portanto, da pegada mais filme de ação, que tomara conta da icônica franquia desde o reboot cinematográfico de J.J. Abrams. Vale ressaltar, também, que mesmo as mais recentes versões em série da franquia haviam perdido esse otimismo e não deixa de ser um belo sopro de ar para o gênero, contrapondo-se com o pessimismo que tomara conta da ficção científica nos últimos anos. Tudo isso é refletido pela direção de Jon Favreau, que capta bem o espírito de Jornada nas Estrelas com enquadramentos que imediatamente nos remetem à série sessentista.

A tentativa de nos tentar levar para esses tempos de outrora, contudo, gera visíveis problemas para esse première. O mais notável deles é  a forma como o combate espacial é apresentado. Vemos apenas duas naves, uma de frente para a outra, atirando raios sobre a outra, sem se moverem, fator que exala artificialidade, questão, que, ironicamente, apenas é ampliada quando a Orville começa a se mover, tornando visível demais a computação gráfica. Outro ponto é a total falta de carisma de MacFarlane, que deveria ter permanecido nos bastidores, escolhendo um ator de verdade para desempenhar o papel de Mercer.

A presença do humor, felizmente, contrabalanceia esses pontos negativos. E não estamos falando da comédia mais exagerada, pautada no absurdo, das outras produções do showrunner e sim algo mais pé no chão, que transforma em mais causal o ambiente interno da nave, como se a tripulação pudesse, efetivamente, falar o que pensa, sem qualquer protocolo restrito. Isso é utilizado a fim de fortalecer os laços entre cada um ali, além, é claro, de nos proporcionar boas risadas graças às constantes quebras de expectativa, que, surpreendentemente, não soam como pontos fora da realidade. É importante notar, porém, como esse humor não faz dessa uma paródia e sim uma ficção científica com atmosfera mais descontraída.

Dito isso, The Orville claramente é uma nova versão de Star Trek, sendo uma série que facilmente poderia fazer parte do universo criado por Gene Roddenberry. MacFarlane certamente não foi a escolha ideal para interpretar o protagonista do seriado, mas, como showrunner, ele consegue captar muito bem o espírito da série original de 1966, introduzindo boas pitadas de humor que tornam toda a narrativa mais descontraída. Está longe de ser o seriado perfeito para os trekkers órfãos da velha atmosfera da franquia, e, mesmo com seus nítidos problemas, é um bom e necessário sopro de otimismo dentro de um gênero tão marcado pela péssima visão do que o futuro nos espera.

The Orville – 1X01: Old Wounds — EUA, 10 de setembro de 2017
Showrunner:
 Seth MacFarlane
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Seth MacFarlane
Elenco:  Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, Halston Sage, J. Lee, Mark Jackson, Victor Garber, Brian George
Duração: 44 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.