Crítica | The Orville – 1X02: Command Performance

– Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Seth MacFarlane, logo na season première de The Orville, já nos entregou a maior piada, que jamais será superada por qualquer outra dessa sua nova série: fazer uma cópia descarada de Jornada nas Estrelas sem ser processado. Surpreendentemente, quando digo cópia, não o faço como uma crítica a esse seriado – como disse na crítica do primeiro capítulo, essa obra recaptura o otimismo presente na série original de Star Trek, algo necessário nos dias atuais, preenchidos por ficções científicas mais pessimistas (distopias, estou olhando para vocês). É, portanto, com grande prazer que, após assistir Command Performance, segundo episódio dessa primeira temporada, percebo que minha opinião inicial sobre a série não mudou.

Assim como a série original de Jornada nas Estrelas (irei abreviar para TOS daqui para a frente, por motivos óbvios), essa nova empreitada de MacFarlane assume o formato procedural, com cada capítulo focando em um problema específico, entregando-nos histórias com início, meio e fim, perfeitamente autocontidas (contanto que o espectador tenha conhecimento da premissa básica da série e um pouco do histórico de seus personagens). Dessa vez, o foco divide-se em dois: o primeiro no capitão Ed Mercer (MacFarlane) e sua primeira oficial/ ex-esposa, a comandante Kelly Grayson (Adrianne Palicki), e o segundo na tenente Alara Kitan (Halston Sage), que é forçada a assumir comando da nave, visto que seu superior imediato, o tenente-comandante Bortus (Peter Macon) está chocando seu ovo e o capitão e a primeira oficial desapareceram após investigar um pedido de socorro. Cabe a ela encontrar Mercer e Grayson, enquanto mantém a Orville e seus tripulantes em segurança.

Logo nesse segundo episódio, MacFarlane já dá indícios de qual rumo sua série poderá seguir, com cada capítulo entregando-nos histórias que possibilitem a construção de personagens específicos, aos moldes do que já foi feito não só em TOS, como em dezenas de outras séries, inclusive a excepcional Battlestar Galactica (2004). Essa escolha, claro, permite que nos aproximemos mais desses tripulantes e que, com o tempo, passemos a enxergá-los como algo mais do que simples elenco de apoio. Evidente que isso dialoga com a estrutura procedural do seriado, que permite tais “divagações” sem criar rupturas narrativas. Em geral, essas tramas contidas sempre, aos poucos, constroem uma história mais geral, a ser concluída nos episódios finais, mas ainda não percebemos algo nessa linha.

Além disso, por se tratar de uma série sobre exploração espacial, esse modelo possibilita que vejamos estranhos novos mundos, como é o caso do zoológico apresentado aqui em Command Performance, ideia que, aliás, é muito bem inserida e utilizada pelo roteiro de MacFarlane, sempre mantendo a tensão e o mistério na ativa, enquanto que a problemática central dialoga diretamente com os tripulantes da nave. A utilização de Alara no episódio é certeira, com Halston Sage sabendo demonstrar bem sua insegurança, ainda que o texto não ajude em certos momentos, como sua óbvia e súbita mudança de opinião próximo ao fim do capítulo, além dos outros vai e vem da personagem, aspecto que mostra, sim, indecisão, mas é mostrado de forma simples e um tanto artificial.

Além disso, a relação de Ed e Kelly continua a ser bem trabalhada, com o passado vindo a tona sem que o roteiro force demais a barra, não fazendo soar como um elemento extra no episódio. Esses momentos, aliás, contribuem para as pinceladas de humor que MacFarlane dá ao longo desses quarenta e quatro minutos, sem grandes exageros. Mesmo a presença de Caco (esse mesmo, dos Muppets) soa como uma inclusão orgânica dentro da proposta mais descontraída do seriado, assim como o genial twist final, no qual o showrunner aproveita para dar uma criticada na cultura dos reality shows, que cada vez mais dominam a televisão.

Dessa forma, com a problemática central do capítulo sendo dividida em dois focos, um na ponte da nave e o outro no zoológico da raça alienígena, The Orville continua mostrando como tenta ser uma nova versão, mais descontraída, da série original de Jornada nas Estrelas e, por incrível que pareça, mesmo com seus nítidos deslizes, ela chega bem próximo à atmosfera das aventuras de Kirk, Spock e o restante da Enterprise. Como um suspiro de otimismo em um gênero tão tomado por histórias com uma visão menos positiva do futuro, essa nova empreitada de Seth MacFarlane novamente segura nossa atenção.

The Orville – 1X02: Command Performance — EUA, 17 de setembro de 2017
Showrunner:
 Seth MacFarlane
Direção: Robert Duncan McNeill
Roteiro: Seth MacFarlane
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, Halston Sage, J. Lee, Mark Jackson,  Jeffrey Tambor, Holland Taylor
Duração: 44 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.