Crítica | The Orville – 1X10: Firestorm, 1X11: New Dimensions e 1X12: Mad Idolatry

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Após um breve hiato nas críticas, voltamos com os três episódios finais da 1ª temporada de The Orville. Nesta sequência, acompanhamos o cauteloso desenvolvimento de personagens da série nessa temporada-piloto, que se manteve sabendo utilizar bem o tempo de tela para desenvolver um formato episódico bastante eficiente. Ainda que não sem suas falhas, a série permanece como uma boa surpresa, ajudando, ao lado de Star Trek: Discovery, a trazer novo fôlego ao subgênero.

1X10: Firestorm

Não obstante a premissa de ser um sci-fi com traços comédicos sobre uma tripulação absolutamente mediana, The Orville deposita confiança suficiente em seu elenco a ponto de rotacionar o foco entre os personagens – escolha que, ao longo desta primeira temporada, provou ser acertada. Em Firestorm quem assume destaque é a Chefe de Segurança Alara Kitan (Halston Sage), em um enredo que revisita as questões apresentadas em Command Performance a respeito dos problemas de auto-confiança da jovem oficial no lidar com sua posição de responsabilidade. Neste sentido é interessante notar como, poucos episódios depois, a série teve sucesso em incutir um sentimento de familiaridade com os personagens, astutamente revelando aos poucos e de forma sutil informações-chave a respeito dos tripulantes da Orville. Quando somos reapresentados às inseguranças de Alara aqui, não sentimos o que poderia facilmente ser a retomada abrupta de uma característica secundária, mas sim um contraste orgânico entre esse enfoque mais pessoal da personagem e sua participação nos episódios onde ela não ocupa lugar central.

Um dos bastiões dos seriais de ficção científica/viagem espacial para a televisão são os episódios onde a tripulação, isolada em sua nave, é assolada por algum tipo de anomalia que altera radicalmente a mente e o comportamento das pessoas, resultando em um caos que varia do cômico ao terror. Os exemplos mais antigos das duas grandes séries do gênero se encontram bem no início de suas exibições: The Edge of Destruction é o terceiro arco de Doctor Who, enquanto que The Naked Time foi o quarto episódio da série original de Star Trek! Muito provavelmente as origens dessa trope remontam, em primeiro lugar, ao interesse orçamentário em se rodar um episódio inteiro utilizando-se apenas dos sets já construídos da nave espacial. Por outro lado, este tipo de roteiro historicamente já proporcionou, ainda que incidentalmente ou na base do que parece o mais puro improviso, bons momentos de exploração das personalidades do elenco. Assim, não é de se espantar que The Orville, que parece buscar justamente trazer o que pode haver de mais inusitado dentro do gênero, se arrisque em sua versão do conto já em sua primeira temporada.

Sentido-se culpada pela morte de um tripulante, após congelar por medo das chamas em meio a um acidente no setor de engenharia da nave, Alara entra em uma espiral de insegurança que a leva a querer resignar de seu posto. Não ajuda que seus pais (um deles interpretado pela figura conhecida do universo de Star Trek, Robert Picardo) dêem um show de incompreensão, recriminando a escolha de carreira da filha. Mesmo com o apoio sincero do Capitão Ed Mercer (Seth MacFarlane) e das tentativas de ajuda do restante da equipe, a oficial se vê totalmente desacreditada. É aí que uma série de eventos bizarros se inicia, começando com a perseguição de um palhaço macabro nos corredores da nave.

A direção de Brannon Braga tem sucesso em vender bem um roteiro que, sob um olhar mais incisivo, não se arrisca tanto quanto poderia. Com boas sequências de ação e ótimos efeitos de computação gráfica, a força do episódio reside no balanceamento entre humor e horror, ambos ancorados em boas linhas de diálogo. Bortus (Peter Macon) e Malloy (Scott Grimes) entregam ótimos momentos de comédia, apostando no timing propositalmente alongado das piadas. No entanto, o maior destaque fica para Penny Johnson Jerald como a multifacetada Dra. Claire Finn, que entrega mais um lado inesperado da personagem com seus delírios e comportamentos absolutamente apavorantes.

Ao longo da trama, vamos recebendo pistas o suficiente para se deduzir que se trata de algum tipo de sonho ou simulação. A revelação antecipada de que Alara se encontra no Simulador (o Holodeck/Sala de Perigo da Orville) sugere que o interesse do roteiro era mais o do desenvolvimento da personagem do que propriamente surpreender com um twist final, já que a irrealidade de tudo que acontece vai se revelando aos poucos. Embora utilize-se de uma dose um tanto exagerada de diálogo expositivo para dar senso à coisa toda no final, isso praticamente não tira mérito do ótimo trabalho de caracterização efetuado pelo capítulo, que de quebra consolida o estilo do Capitão Mercer em lidar com esse tipo de crise, sem que o desenvolvimento de suas relações soe forçado. Horror, humor e desenvolvimento sólido de personagem em mais um bom episódio desta primeira temporada.

1X11: New Dimensions

Desta vez quem finalmente recebe um lugar sob os holofotes é uma das figuras mais apagadas da tripulação até então, o Tenente John LaMarr (J Lee). Em meio a uma crise envolvendo uma anomalia cósmica que se mostra capaz de inexplicavelmente aniquilar tudo que é vivo, a Comandante Kelly Grayson (Adrianne Palicki) se depara por acaso com uma informação insuspeita nos arquivos da nave: LaMarr, o relaxado navegador, na verdade possui praticamente os maiores escores de inteligência de toda a tripulação, perdendo apenas para o alienígena sintético Isaac (Mark Jackson). Grayson toma como meta não apenas saber mais sobre o oficial, mas efetivamente influenciá-lo para que ponha em uso suas plenas habilidades. O Capitão Mercer mal tem tempo de se inteirar sobre o assunto, pois em conversa com sua imediata ela deixa escapar que, na verdade, ele só conseguira a vaga de comando através de sua influência, algo que nós no entanto já sabíamos desde Old Wounds.

Como peça de desenvolvimento de personagem o episódio acaba por repetir algumas das batidas do anterior, o que pode levar a uma impressão de repetitividade. Por outro lado, é preciso levar em conta que, dada a premissa da série, é de se esperar que a tripulação da Orville frequentemente se depare com suas próprias inseguranças – afinal de contas, tratam-se de oficiais comuns lançados em situações extraordinárias, sem a coragem de um Capitão Kirk ou a genialidade de um Sr. Spock para guiá-los frente aos inúmeros desafios que encontram. Não se trata também, como já ficou claro, de um bando de incompetentes, que poderia redundar em uma sátira barata ao formato de Star Trek, coisa que The Orville felizmente já provou não ser. As inseguranças de LaMarr em assumir um posto de maior responsabilidade e a busca de Mercer em dar sentido ao posto de comando que finalmente conseguiu têm em comum apenas a necessidade de ambos de provarem seu valor. A crise da dobra espacial surge em um momento oportuno, já que o que está em risco parece ser a sobrevivência de, no mínimo, todos os tripulantes da Orville, algo que lança os oficiais seguramente para além de suas zonas de conforto.

O episódio consegue trabalhar bem o ângulo da ficção científica, lançando mão de um enredo sobre uma dobra espacial dentro da qual toda matéria existe apenas em duas dimensões. Aqui a série se beneficia de sua atitude definitivamente mais descomprometida, tanto em termos narrativos quanto visuais. As explicações pseudo-científicas são genéricas e recheadas de tecnobaboseira o suficiente para passarem a dose certa de plausibilidade e risco, no melhor estilo das inúmeras ameaças cósmicas que pentelharam a USS Enterprise na série original de Star Trek. A representação do bolso dimensional como uma espécie de circuitaria multicolorida pode causar algum estranhamento, mas serve bem ao propósito da história ao mesmo tempo em que acena confiantemente para a psicodelia sessentista de uma forma que uma série contemporânea mais sisuda hesitaria em fazer.

As dificuldades de LaMarr em assumir a liderança da equipe técnica, alimentadas em parte pela fúria invejosa de Yaphit (Norm MacDonald), mostram um lado até então não imaginado para o personagem, que lança luz sobre sua atitude despreocupada e brincalhona, de forma semelhante como a revelação a respeito dos filhos mostrou uma face até então insuspeita da Dra. Finn em Into The Fold. Vemos aqui os produtores fazendo uma espécie de engenharia reversa sobre a caracterização em Star Trek, em especial da série original cujo eixo organizador eram os roteiros mais do que os personagens propriamente ditos – o que não impediu que, ao longo do tempo, eles fossem se tornando verdadeiros arquétipos do gênero.

A solução para a crise é bastante interessante, tanto em termos de história, com Mercer e LaMarr conseguindo sucesso em uma arriscada fuga do bolso bidimensional, quanto pelo aspecto visual com que a fuga se dá, que lembra algum tipo de cria entre Pac-Man e Tron. Mercer tenta fazer as pazes com o fato de que fora ajudado pela ex-mulher, e reconhecer que isso não tira seu mértio como capitão da Orville, em mais um bom momento para o personagem, que consegue provar uma elasticidade maior aqui do que em suas aparições iniciais. Com LaMarr galgando um novo posto, ficamos na expectativa de ver como ele se sairá e quais as repercussões para o Tenente Malloy, que perde seu companheiro de ponte.

1X12: Mad Idolatry

Pode-se dizer que, em meio a tantos arcos interessantes de personagem, o divórcio entre Ed e Kelly, ponto de partida da série, serviu mais como pano de fundo para piadas rápidas do que como efetivamente algo a ser explorado ao longo das tramas. Mesmo quando adquire centralidade no absurdo Cupid’s Dagger, a tensão romântica entre o par conseguiu ser elegantemente trabalhada, felizmente evitando os clichês insuportáveis que as comédias televisivas costumeiramente destinam ao tema. É compreensível, no entanto, que o final de temporada retome o assunto, que configura importância visível para os dois primeiros oficiais da linha de comando da Orville.

Mad Idolatry bebe de várias fontes no que diz respeito à ficção especulativa que busca trabalhar os possíveis desfechos de um breve contato entre culturas absolutamente diferentes. Abordando a primeira e mais violada diretriz da história da Frota Estelar trekkiana, temos aqui um conto a respeito dos desastres em ignorar a não-interferência em uma sociedade primitiva. A referência mais direta aqui é provavelmente o episódio Who Watches the Watchers, da terceira temporada de Star Trek: A Nova Geração. Após violar o princípio da não-interferência para ajudar uma criança, a Comandante Grayson acaba inspirando um culto religioso em torno de seu nome e imagem. A trama utiliza-se habilmente de uma interessante anomalia temporal para alçar o enredo a uma grande escala, atravessando séculos da história do planeta (à maneira do episódio Blink of An Eye, da sexta temporada de Star Trek: Voyager).

Em torno de uma estrela com leituras energéticas bizarras, a tripulação descobre um planeta cuja órbita atravessa dois universos, sendo que a anomalia espacial faz com que, nos trechos de órbita alternantes, o tempo passe de forma exponencialmente acelerada. Com isso, em um intervalo de 11 dias fora da dimensão da Orville, passam-se cerca de 700 anos na dimensão própria do misterioso planeta. Após curar uma criança com seu apetrecho de primeiros socorros e se apresentar como Kelly, a comandante se vê fruto de adoração de uma religião tirânica quando o planeta reemerge da fenda dimensional. A forma como a figura messiânica surge em torno de elementos banais e o efeito dominó gerado pelo breve contato acabam por ter um efeito humorístico, remetendo um pouco ao filme Os Deuses Devem Estar Loucos (ou ainda a Paraíso Perdido/Tralla La, história seminal do Tio Patinhas de Carl Barks). Porém, para além disso, o episódio se arrisca ainda a se utilizar da situação para tratar do papel da crença religiosa no desenvolvimento de uma civilização, ainda que abordando o tema sobretudo sob a perspectiva de culpa que Grayson sente pela violência promulgada em seu nome.

Não se pode nem falar em dilema para o Capitão Mercer, já que ele não parece ter dúvidas entre arriscar sua carreira e ajudar a ex-mulher (com quem busca atualmente reatar) a lidar com o sofrimento que a absurda situação traz. Neste sentido o episódio equilibra bem as veias dramática e cômica da série, levando a sério o suficiente a situação atual sem nunca deixar de escancarar seu absurdo em situações mais divertidas. Porém, no que diz respeito ao desenvolvimento da trama, vemos um erro que, compreensivelmente, é bastante comum em alguns dos episódios de Star Trek, em especial da Série Original, no que cabe a debater temas tão complexos. A maior limitação do desenvolvimento da trama é justamente a forma linear que ela assume e, somado a isso, a falta de protagonismo por parte de nossos heróis, cujas tentativas de lutar contra o efeito em cadeia nos aparecem como incrivelmente ingênuas.

É certo que a série não se propõe ao gravitas dos episódios mais sisudos do Trek posterior, remetendo intencionalmente ao ar mais despreocupado e otimisticamente ingênuo que predomina na Série Original (os emissários espaciais do planeta, na sequência final, são um tributo mais do que descarado ao seriado sessentista – com suas vestes brancas angelicais, auréolas, muito lápis no olho e fala pausadamente recitada). Porém isso não vem sem um custo no que cabe à mensagem que o desfecho da trama traz, em especial no que diz respeito à inevitabilidade da religião como parte descartável de um processo linear de desenvolvimento em direção à razão. É puro Gene Rodenberry, mas o problema aqui é que a forma relativamente apressada com que a resolução é apresentada faz com que a produção recaia, nos últimos minutos desta temporada, em um erro anunciado que conseguiu evitar por todo o restante de seu tempo de tela: o de se tornar um mero pastiche de Trek. Talvez com mais tempo para lidar com a trama (ficamos sem acompanhar praticamente nada da jornada de 700 anos de Isaac, o que acaba sendo outra oportunidade perdida)  a coisa toda pudesse ter um desfecho semelhante e mais convincente.

Mad Idolatry não deixa de ser uma bela hora de televisão que, como é usual, reedita lugares-comuns do gênero, porém com um entusiasmo raramente visto em produções derivativas. Como final de temporada, trata-se de uma escolha estranha – especialmente levando-se em conta a falta de agência por parte dos protagonistas, ainda que o enfoque em Kelly faça sentido. Como episódio avulso, funciona bem tanto na frente da exploração espacial, com conceitos interessantes bem desenvolvidos, quanto na comédia, com uma sátira social moderada e diálogos sempre divertidos. Apesar de um desfecho anti-climático, o episódio não deixa de entreter e encerra de forma satisfatória uma boa primeira temporada para a série.

The Orville – 1X10: Firestorm, 1X11: New Dimensions e 1X12: Mad Idolatry — EUA, 16 de novembro de 2017 (1X10), 30 de novembro de 2017 (1X11) e 07 de dezembro de 2017 (1X12)
Showrunner: Seth MacFarlane
Direção: Brannon Braga (1X10 e 1X12), Kelly Cronin (1X11)
Roteiro: Cherry Chevapravatdumrong (1X10), Seth MacFarlane (1X11, 1X12)
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, Halston Sage, J. Lee, Mark Jackson, Gavin Lee
Duração: 44 min. (cada)

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.