Crítica | The Pacific

“Your soul may belong to Jesus, but your ass belongs to the marines.”

Eugene Sledge, em ‘With the Old Breed: At Peleliu and Okinawa’

Contém spoilers!

Quando Robert Leckie volta para casa após a rendição dos japoneses, que decretara o fim da Segunda Guerra Mundial, o taxista recusa o pagamento da corrida. Anuncia-se como veterano do Dia D e declara para o integrante da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais: “Posso ter desembarcado na Normandia, mas tive algumas licenças em Paris e Londres. Vocês fuzileiros só tiveram a podridão da selva e a malária”. O relato anedótico ilustra bem o que foram os anos de combate nas longínquas ilhas banhadas pelo Pacífico. A guerra naquele oceano foi um capítulo bastante particular da Segunda Grande Guerra, mas dificilmente recebe a mesma atenção que os acontecimentos envolvendo o palco europeu. Após produzirem Band of Brothers em 2001, Steven Spielberg e Tom Hanks decidiram iniciar um novo projeto – uma nova minissérie de guerra, seguindo os moldes da anterior, mas centrando-se em relatos sobre a Guerra do Pacífico.

Nascia The Pacific, minissérie de 2010, também em 10 capítulos, que desenvolve em paralelo as narrativas de três fuzileiros navais americanos: os soldados Robert Leckie e Eugene Sledge e o sargento John Basilone. Eles tornaram-se célebres por suas participações nas principais batalhas do Pacífico – de Guadalcanal a Okinawa. A minissérie americana baseia-se nas auto-biografias de Sledge e Leckie e, exatamente por isso, sente-se a mudança de tom em relação a Band of Brothers. The Pacific não tenta emular o que deu certo na minissérie de 2001. Esse é um de seus principais trunfos. Não se trata mais de uma única companhia, vivendo coletivamente a guerra. Mesmo atuando muitas vezes na mesma batalha, só há um momento em que dois deles se encontram de fato. O resultado disso é que a minissérie desloca a experiência do conflito para o indivíduo. A guerra tem cores diferentes para Basilone, Leckie e Sledge. Se algo os conecta é meramente o seu horror – amplificado em The Pacific de modo assombroso.

Orçada em 200 milhões de dólares, ela é considerada até hoje uma das minisséries mais caras da história. Mas para tirar proveito de tudo o que ela pode oferecer, é preciso ter em mente que as comparações com Band of Brothers precisam se restringir mesmo à forma. Há quem critique The Pacific por entremear relacionamentos amorosos em meio às tonitruantes batalhas. Não acho que os roteiristas tenham optado por um mero alívio à experiência dantesca que se mostra no campo de batalha. Cada um dos relacionamentos cumpre um papel na construção e transformação dos personagens. O caso mais importante, envolvendo John Basilone e Lena Riggi, é o início da ruptura do sargento com o status de pop star que ganhara após retornar de Guadalcanal. É a aproximação dos dois que faz Basilone abandonar a vida medíocre e banal que levava para retornar ao front, reencontrar-se consigo mesmo e morrer dignamente. Há algo maior que a medalha de honra que recebera. Algo que ele só encontra ao tombar em Iwo Jima. A minissérie expõe as memórias dos homens. Não só a dos combatentes.

The Pacific tem vida própria. Se ela não tem todo o frescor de sua forma original, ao menos compensa com uma cinematografia ainda mais perfeita tecnicamente. O planos gerais nas praias de Guadalcanal, revelando o impressionante massacre de japoneses, colocam potência máxima desde o primeiro episódio. Mais à frente, na batalha de Peleliu, o momento mais glorioso da direção – uma incrível sequência em que os soldados correm a céu aberto, sob pesado bombardeio japonês, sendo mortos ou dilacerados em grande número. Robert Leckie corre sob o fogo inimigo em um travelling de acompanhamento que impressiona pela beleza da execução, mesmo não sendo uma novidade no gênero (Kubrick já fizera isso em Glória Feita de Sangue). Também os efeitos especiais e visuais criam um espetáculo de destruição e de morte, tingido pelas cores quentes e saturadas de uma fotografia que retrata uma natureza que castiga, por suas abundâncias e suas faltas, tanto quanto o fogo inimigo. The Pacific é brutal.
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Combatendo um novo inimigo

“No círculo terceiro estou; maldita
eterna chuva, gélida e pesada
em monótono ritmo precipita.”

Canto VI, Inferno – A Divina Comédia, de Dante Alighieri

Os que lutaram na Europa, por mais rigorosos que fossem seus invernos, provocando doenças (como os “pés-de-trincheira”) e inúmeras baixas, encontraram condições naturais semelhantes às suas. Quando os fuzileiros americanos desembarcaram nas praias do Pacífico, encontraram como inimigo não só a determinação do soldado japonês, mas uma natureza em tudo diferente da que conhecia. The Pacific faz um belo trabalho de ambientação de seus combatentes, que tiveram de suportar os vapores e os fluidos de uma natureza tão paradisíaca quanto hostil. Em Guadalcanal, encontraram uma floresta bela e densa. Sedutora e venenosa. Em Cabo Gloucester, a lama e a chuva ininterrupta, que perturbava o humor dos homens e enlouquecia suas mentes. Um dos momentos mais assustadores de toda a minissérie é o suicídio do tenente Lebec, exclamando suas últimas palavras como as de um condenado: “Tudo está molhado!”.

Já em Pavuvu, a doença é trazida pela mata. A malária leva febre e dor para o soldado Wildbur “Runner”, dentre outros. A disenteria também se alastra. Em Peleliu, são as altas temperaturas, a seca e a ausência completa de água potável que desafiam os corpos dos homens. Em Okinawa, a pestilência de terrenos lodacentos e a escuridão só interrompida pelo fogo da batalha. Quanto mais difíceis são as condições naturais impostas ao combate, mais empedernidos, desesperados e doentes se tornam os soldados. Bob Leckie desenvolve enurese após Cabo Gloucester. Em Peleliu, um soldado grita na noite e é morto pelos companheiros. O experiente sargento Elmo Haney entra em colapso emocional.  As crises de choro se tornam generalizadas. Em Okinawa, o soldado Tony Peck atira contra a escuridão e provoca a morte de um amigo. Os fuzileiros de The Pacific enfrentam suas batalhas como círculos de um inferno semelhante ao de Dante Alighieri, onde a chuva, o fogo, o frio e a escuridão são as danações eternas de seus condenados.
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O racismo como combustível da guerra

Recentemente, o jornalista Seymour Hersh, que denunciou o massacre de civis em My Lai durante a Guerra Vietnã, reafirmou a existência de uma relação tão íntima como destrutiva – o racismo e a guerra. Tal como Hersh em relação ao Vietnã, The Pacific faz uma denúncia bastante ousada ao racismo dos americanos contra os japoneses. Tratados como “yellow monkeys” desde o primeiro episódio, fica claro que os soldados estadunidenses aprenderam mais do que combatê-los e matá-los. Aprenderam também a odiá-los como seres quase inumanos – feras a serem abatidas e eliminadas. O embrutecimento geral pelo combate acabara por acirrar ainda mais os ânimos e, embora não fique explícito, é bastante possível imaginar que os japoneses nutrissem o mesmo ódio pelos americanos. Ao menos, a ferocidade de seus ataques nos permite presumir isso. É uma tolice, é claro, achar que o ódio escolha lados para agir.

São vários os momentos em que o tratamento dispensado aos japoneses revela o vilipêndio à sua própria humanidade. Os americanos brincam de alvejar um último japonês vivo em Guadalcanal. Snafu rouba ouro dos dentes dos cadáveres inimigos. Em uma excelente cena, um fuzileiro americano cospe em um soldado japonês rendido e sob a proteção da convenção de Genebra. Outro mata um jovem japonês desarmado apenas pelo prazer de matar. Surgem assim os sentimentos mais primitivos do homem, regidos por aquele que os lidera por excelência – o ódio. Isso não sinaliza, contudo, que os mesmos personagens que matam como animais não terão também suas oportunidades de redenção, nem que os japoneses deixarão de demonstrar igualmente a sua covardia. Uma mãe desesperada é utilizada como “homem-bomba” por eles, em um dos momentos mais cruéis de The Pacific. Sledge viverá a experiência contrária em Okinawa, ao tomar em seus braços outra mãe japonesa, gravemente ferida e em franca agonia. Vale para os dois lados – é tratando o outro como uma fera que se torna outra igual.
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A guerra entre culturas e o desmanche da Idade da Razão

A Guerra no Pacífico tem um significante próprio, que não se encontra em nenhum dos combates que aconteceram na Europa. Os entreveros entre os combatentes Aliados e os italianos e alemães foram embates entre culturas similares, isto é, entre homens que conseguiam reconhecer-se uns nos outros, mesmo que assumindo a missão de se matarem. As batalhas nas ilhas do Pacífico, impregnadas pelo racismo de lado a lado, revelaram o fracasso último da chamada Idade da Razão, para usar um termo sartriano. Todo o avanço da técnica, da ciência e, portanto, da razão, não só não eliminou a miséria, o ódio e a guerra do mundo, como acabou por aprofundar a mais antiga das separações – aquela entre o Oriente e o Ocidente, que nutriram naqueles anos e naquelas ilhas infernais uma ojeriza mútua que há muito não se via. O mundo se partia novamente ao meio e o progresso nos restituía o nosso pior enquanto humanidade.

As bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki foram o último e mais triste capítulo dessa cisão. Muitos reclamam que The Pacific as ignorou. Nunca é demais chamar a atenção para o fato de que se trata de uma minissérie e não de um documentário. Portanto, não há qualquer obrigação de se cobrir todos os fatos históricos, especialmente porque todos os acontecimentos estão situados pelo olhar dos fuzileiros, que puderam comemorar o fim da guerra em Okinawa. A minissérie produzida por Hanks e Spielberg é constituída de relatos pessoais. De experiências individuais, portanto. É preciso saber valorizar essa riqueza, afinal, uma calamidade com a que se abateu sobre Hiroshima e Nagasaki encontra eco também nos menores horrores praticados por ambos os lados no dia-a-dia do combate.

Alguns homens da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais em Okinawa. Eugene Sledge, ao centro da primeira fila e Romus Burgin, o segundo da esquerda para a direita na terceira fila.

The Pacific segue como um dos mais importantes retratos cinematográficos da Guerra do Pacífico. Talvez o mais emocionante e pessoal deles. O número de personagens principais é menor que o de Band of Brothers, mas seu relato de coragem e de horror combatendo nos recônditos da guerra, onde tantos outros não precisaram ir, contém a dignidade das melhores histórias de combatentes.

The Pacific – EUA, 2010
Direção: Carl Franklin, David Nutter, Graham Yost, Jeremy Podeswa, Timothy Van Patten.
Roteiro: Bruce C. Mckenna, Chuck Tatum, Eugene Sledge, Robert Leckie, Laurence Andries, Michelle Ashford, Robert Shenkkan.
Elenco: Ashton Holmes, James Badge Dale, Jon Seda, Joseph Mazzello, Josh Helman, Keith Nobbs, Martin McCann, Rami Malek, Toby Leonard Moore, Adelaide Clemens, Andrew Lees, Annie Parisse, Brendan Fletcher, Caroline Dhavernas, Claire van der Boom, Connor O’Farrell, Gry Sweet, Jacob Pitts, Scott Gibson.
Duração: 600 minutos.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.