Crítica | The Post: A Guerra Secreta

Após estes mais de 40 anos de estrada no cinema, Steven Spielberg se tornou o tipo de realizador cujos filmes se tornaram claros como a água, ao menos no que concerne sobre o que os mesmos defendem. Há cerca de dez anos, o responsável pela lapidação do termo blockbuster com Tubarão têm se dividido entre os gêneros que lhe são característicos: as narrativas aventurescas e fantasiosas (Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, As Aventuras de Tintim), os dramas biográficos (Lincoln) e outros de identidade mais clássica (Cavalo de Guerra, Ponte dos Espiões). Houve também o malfadado resgate do espírito infantil de O Bom Gigante Amigo.

De qualquer forma, é fato que Spielberg costumeiramente consegue ser um grande revisionista e simbologista do seu tempo, e filmes como The Post: A Guerra Secreta não chegam em plena turbulência política e ideológica (seja nos Eua ou no Brasil) à toa. Há muito que já pode ser desvendado sobre Spielberg á partir daí, em especial as ideias formalizadas que o ufanista cineasta irá botar em mesa. Mas após 40 anos, podemos sim olhar para Spielberg para além de suas ideias pessoais impregnadas e analisar o quanto isto lhe abre oportunidades para seguir aprimorando seus exercícios de estilo e construção imagética, se é que ainda é possível aprimorar algo do tipo para alguém como Spielberg.

Aqui, o cineasta entrega sua ode ao questionamento e ao papel vital da imprensa neste ato político que é a liberdade de expressão. Ambientado nos anos 60, acompanhamos a publisher Kay Graham (Meryl Streep) e o editor do jornal The Washington Post Ben Bradlee (Tom Hanks), que no período mais crítico do veículo, se vêem no embate entre defender a autonomia e o bem-estar econômico quando diversos arquivos expondo as inúmeras deficiências e mentiras dos EUA na Guerra do Vietnã ameaçam vir à tona, enquanto que Kay, que herdou o Post de seu falecido marido, também se vê diante de conflitos com a aristocracia masculina que a certa.

Spielberg retoma uma gama de características que lhe são caras, mas essenciais. O papel da mídia e suas diversas facetas (não que o roteiro as diversifique tanto aqui, é verdade) reservam semelhanças com o Spielberg havia feito em Munique; a elaboração crescente de uma tensão palpável através da formação de um thriller jornalístico encontram ecos no trabalho sensorial de Ponte dos Espiões (ainda o melhor do diretor em muito tempo); e a constituição familiar permanece como o pilar de Spielberg para qualquer que seja o seu reflexo temporal. Temos aqui um veículo genuinamente spielberguiano, com um toque de dualidade que muitos poderiam não esperar de alguém tão idealista.

E dualidade sim, uma vez que os personagens de The Post falham, duvidam, escondem, e quando chegamos ao ponto de alguém perguntar “isso não é ilegal?”, temos a resposta mais clara possível, “e como acha que sobrevivemos aqui?”. E neste jogo onde todas as decisões podem ser tomadas, chama a atenção a opção de Spielberg em filmar o presidente Richard Nixon sempre à distância e de costas, permitindo que a imagem cartunesca sobre o ex-presidente que tomou conta do imaginário popular se mantenha como a sugestão do que The Post, de fato, representa para o público americano. E em contraponto a este maniqueísmo ideológico, o roteiro de Liz Hannah e Josh Singer é competente nesta construção da conscientização sobre o questionamento.

E ao contrário do recente e inconcebivelmente premiado Spotlight – Segredos Revelados (que o próprio John Singer também roteirizou ao lado de Tom McCarthy, e cuja vitória tornou a obra referência, para o bem ou para o mal), Spielberg é ainda mais consciente na junção entre a linguagem jornalística de fato e a identidade de seu filme como cinema, o que lhe abre alas para encher os olhos com seus virtuosismos que, felizmente, admitem sua própria responsabilidade no levantar da tensão e da dualidade da história. Aliás, é louvável o quanto a câmera de Spielberg respeita a ação verbal que inunda as quase duas horas de projeção (verbalização esta que afastará muitos), que se divide entre tomadas panorâmicas, planos-sequência que passeiam pelos ambientes físicos do jornal, que rodeiam os personagens como forma de suscitar suas escolhas, que se aproximam e se afastam de seus rostos, tudo é um trabalho elegante de alguém consciente sobre os efeitos de cada acontecimento, discurso, evento, dúvidas e decisões.

E para que tanto funcione, Spielberg conta um elenco que se tornam imprescindível no que concerne a manter a imagem de carne e osso dos personagens em relação às movimentações da trama, e se não há grandes arroubos de interpretações aqui, é muito devido a também consciência do elenco sobre sua interiorização dramática em prol do gritar da narrativa. Apesar de surpreendentemente ser vítima de seu próprio plot que a posiciona como uma quebra num sistema regido por homens e cujo finalizar para acontecer apenas para alguma catarse satisfatória para o público, Streep se faz de sua naturalidade sempre constante para tornar Kay a mulher inicialmente vulnerável, mas em necessidade de mutação diante dos posicionamentos masculinos que lhe inviabilizam e questionam suas decisões, e a atriz é competente na pontualidade com que desnuda as mudanças gradativas de Kay. Para Hanks, não lhe é dado muito o que fazer, mas o veterano ator se faz de sua forte presença e carisma característicos para tornar Bradlee a maior representação da defesa midiática e da preservação dos direitos da imprensa. É contestável, entretanto, a subserviência que outros personagens e seus intérpretes são obrigados a encarnar neste jogo de tabuleiro político, e nomes como Bob Odenkirk, Sarah Paulson e Michael Stulhbarg infelizmente entregam pouco o que comentar, com exceção da caracterização propositalmente caricatural de um Bruce Greenwood com o cabelinho partido ao meio.

Igualmente amparado por um trabalho técnico que vai da fotografia de tons acinzentados de Janusz Kamiński para aproximar a narrativa do thriller e a trilha sonora de John Williams que se desfaz de sua sutileza nos minutos finais (e havia como esperar algo diferente também?), The Post é um retrato jornalístico e político consciente sobre o que fala e como se falam, jamais deixando de lado sua própria linguagem cinematográfica para exemplificar seus discursos e todo o retrato histórico que lhe ronda. Mais um ponto para Spielberg.

The Post: A Guerra Secreta (The Post) – EUA, 2017
Diretor: Steven Spielberg
Roteiro: Liz Hannah, John Singer
Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Bruce Greenwood, Michael Stuhlbarg, Bradley Whitford, Jesse Plemons, Tracy Letts, Alison Brie
Duração: 115 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.