Crítica | The Resident – 1ª Temporada

Enquanto uma equipe médica realiza uma cirurgia, alguns membros produzem selfies para postagem em suas redes sociais. Você consegue imaginar tamanho absurdo? No mesmo espaço onde tal uso mirabolante da tecnologia se desenvolve, os familiares são enganados por médicos para que seus entes queridos, já desenganados, continuem internados no hospital, tendo em vista os lucros com obtidos por meio dos planos de saúde. Um abuso, não é mesmo? E o que dizer de gestores que tratam seus funcionários, isto é, indivíduos que estão o tempo inteiro cuidando da vida de tanta gente, como máquinas de um sistema que visa apenas o capital? É por esta via que trafegam os temas da primeira temporada da série The Resident, criada por Amy Holden Jones, Roshan Sethi e Hayley Schore.

Com episódios que giram em torno dos 45 minutos de duração, os conflitos são estabelecidos num breve preâmbulo, seguido da abertura com tema musical de Jon Ehrlich, composição que também está presente em alguns desfechos, ao longo dos créditos finais. Situada no fictício Chastain Park Memorial, em Atlanta, a série nos apresenta os “bastidores” de um hospital, com enfermeiros, médicos, pacientes, acionistas, seguradoras, dentre outros, representantes do lado burocrático de um suntuoso centro médico, envolvidos em tramas que versam sobre corrupção, avanço tecnológico, convivência humana, mecanização da medicina e relacionamentos interpessoais.

Na esteira de Plantão Médico, Grey’s Anatomy, Chicago Med e as demais séries sobre o cotidiano dos profissionais de saúde, The Resident tem como ponto nevrálgico as ressonâncias do capitalismo na dinâmica de um hospital arquetípico, com pacientes “no limite”, interesses amorosos entre os personagens principais e a velha fórmula maniqueísta dos mocinhos e vilões. A fórmula convencional, entretanto, não atrapalha a crítica social, tampouco o entretenimento, pois ambas andam juntos e bem dosados.

Ao tratar da mercantilização da saúde, os episódios da primeira temporada retratam o cartelizado ambiente dos médicos estadunidenses, profissionais que só podem atuar se aprovados pelo conselho profissional da categoria, “amontoado” de pessoas que tem o interesse de manter o quadro baixo para que seus salários sejam supervalorizados. Uma prática, inclusive, que ressoa ao redor do planeta, como apontou Cláudio Luiz Viegas, médico brasileiro de renome, ao dizer em entrevista que “a medicina deixou de ser humanista, pois a educação do médico está americanizada, ou seja, visando o lucro mais que o paciente”. As afirmações do especialista coadunam com as propostas apresentadas pela série, material ficcional que espelha bem o caos que está a saúde na contemporaneidade, com pessoas que “dormem tarde demais e acordam mais cedo, as cidades barulhentas, o alto uso de psicotrópicos”, além da total falta de respeito em relação aos seus próprios limites, com gestores (o estado) que desconhecem a situação e não planejam o futuro.

Há um amplo feixe de personagens, mas as presenças regulares e que impactam no desenvolvimento e resolução dos conflitos de cada episódio são poucos: Conrad Hawkins (Matt Czuchry) é um dos residentes mais competentes do hospital, um cara com pinta de bad boy, problemático e cheio de truques na manga quando o assunto é “improvisar”. Fisicamente atraente, é interesse romântico da enfermeira Nicolette Nevin (Emily VanCamp), uma dedicada profissional que mescla o trabalho com o doutorado e entende bastante do que faz, além de compreender a dinâmica do hospital e estudar detidamente as ações para cada caso. Ela é o contraste do grosseiro e às vezes “infantil” Conrad, um rapaz de boas intenções e atencioso com seus pacientes, mas arauto do clichê mais batido da dramaturgia: um cara aparentemente durão por fora, mas amável por dentro. Nic, como é apelidada a enfermeira, adentrou o campo da saúde depois de perder a mãe e representa o lado humanista do hospital.

Devon Pravesh (Manish Dayal) é o residente que vai ser supervisionado/massacrado/detonado por Conrad nos primeiros episódios, numa parceria e amizade que se cristaliza mais adiante, quando os conflitos no hospital pedem que eles se unam. Pravesh é jovem, idealista, humanista e ciente da sua condição de aprendiz, tendo sempre que seguir à risca as regras para não perder a oportunidade aparentemente única de trabalhar no ambiente médico mais caro e poderoso de Atlanta. Em contraponto ao comportamento “subserviente” de Pravesh temos Mika Okafor (Shaunette Reneé), uma exímia cirurgiã que sabe do seu potencial e sustenta-se nisso para manter-se relevante diante da realidade cotidiana do hospital, afinal, é uma das poucas negras no ambiente. Mulher de poucas palavras, Okafor é prática e dinâmica nos atendimentos, além de ser boa em gerenciar situações conflituosas. Junto com essa equipe do “bem” temos Irving (Tasso Feldman), personagem propositalmente mais raso do conjunto, dono de poucos diálogos e mantenedor do cargo de alívio cômico da série.

Há várias celeumas que tornam a prática profissional dessa galera um exercício de paciência e constante adoção de medidas cautelares, em especial, as batalhas diárias contra as forças do mal: Dr. Soloman Bell (Bruce Greenwood) e Dra. Lane Hunter (Melina Kanakaredes). Ele é um cirurgião de renome que atualmente vive uma situação delicada, haja vista a tremedeira nas mãos que indicam Parkinson e provavelmente o impedirá de agir dentro de pouco tempo. Ela é a oncologista com passado sombrio que também visa apenas o lucro. Uma das suas práticas irresponsáveis é aplicar doses generosas aos pacientes em tratamento, tendo em vista ganhar mais dinheiro com os procedimentos. Juntos eles formam o outro eixo maniqueísta da série, uma produção com limite bem delineado entre os mocinhos e vilões.

Os quatorze episódios foram dirigidos por Phillip Noyce (Pilot e Independence Day, episódios 01 e 02), Rob Corn (Conrades in Arms, The Elopement e Total Eclispse of the Heart, episódios 03, 07 e 14, respectivamente), Bill D’Elia (Identity Crisis, episódio 04), James Roday (None The Wiser, Rude Awakenings and The Raptor e Run, Doctor, Run, episódios 05, 12 e 13, respectivamente), David Rodriguez (No Matter The Cost, episódio 06), Thomas Carter (Family Affair, episódio 08), Bronwen Hughes (Lost Love, episódio 09), David Crabtree (Haunted, episódio 10), Liz Allen (And The Nurses Get Screwed, episódio 11). Ao longo do episódio piloto, os personagens são apresentados e a ambientação se estabelece ao público, precedentes que nos preparam para a saga pela imagem por parte do Dr. Bell no segundo episódio, além das discussões sobre o que é “certo” e o que é “errado” quando é preciso salvar uma vida. O terceiro episódio tem como conflito central o paciente como produto, com uma discussão sobre ética e aumento dos custos de determinados procedimentos. Será que é possível solicitar exames desnecessários para que o hospital possa aumentar os seus rendimentos? Essa é uma pergunta realizada por uma analista que é contratada para supervisionar o funcionamento das consultas e atendimentos emergenciais pelos diversos corredores do amplo hospital.

O quarto episódio continua a sua crítica ao sistema, preâmbulo de tensões que culminam na relação abusiva do Dr. Bell em relação à permanência de Mika no hospital, pois ciente da sua derrocada enquanto cirurgião, o oportunista pretende usar a nigeriana como seu suporte, ameaçando-a constantemente de não assinar documentos que viabilizam a sua permanência nos Estados Unidos, tudo isso, conflito que fermenta o quinto episódio, algo que desagua no clima do sexto, dedicado ao maior delineamento das práticas antiprofissionais da Dra. Hunter. O que vem à seguir é uma montanha-russa de emoções envolvendo as investigações dos jovens médicos, atentos aos procedimentos da dupla de “vilões”, um fofo episódio que retrata a terapia com animais, o alto preço pago por Nic ao enfrentar a oncologista antiética e a entrada e saída de pacientes que representam a diversidade cultural de um país repleto de contradições.

Em meio aos conflitos dos personagens, os méritos da série também trafegam pelo contextual e estético. O design de produção da dupla formada por Geoffrey S. Grimsman e Laurence Bennet captam bem a atmosfera clean, com uso constante das cores verde, azul e branca para dar o tom ideal para os episódios, setor beneficiado pela cenografia competente de outra dupla, desta vez, formada por Summer Eubanks e Jennifer M. Gentile.  O trabalho de construção da identidade visual da série não apresenta falhas evidentes, pois tudo é muito nem delineado, graças ao eficiente trabalho de John Brawley e Elliot Davis na direção de fotografia, ambos responsáveis por enquadrar adequadamente cada cena, tendo em vista transmitir as propostas dramáticas tecidas pelo roteiro da temporada. A condução musical de Jason Derlatka e John Ehrlich funciona bem, ao evitar a intrusão e o aborrecimento narrativo com excessos, numa comprovação da qualidade visual da equipe que compõe The Resident, série que apresenta algumas falhas apenas no campo da dramaturgia, haja vista os problemas na condução do roteiro.

No que tange aos aspectos contextuais, há os problemas citados anteriormente, em especial, a mercantilização da saúde, além de discussões sobre relações interpessoais, respeito ao próximo, necessidade do bom trabalho em equipe, a paciência e a observação analítica como virtudes para o bom exercício profissional e as ressonâncias da situação política estadunidense em meio ao trânsito de personagens que adentram o hospital a cada episódio: os estereótipos em relação aos grupos étnicos; o ódio aos imigrantes; a carga horária de trabalho abusiva para as pessoas que estão na base da pirâmide contemporânea, dentre tantas outras discussões. Sem o tom “barato” da primeira temporada de Grey’s Anatomy, mas trechos emulados para provável identificação do público, The Resident nos envolve pelo ritmo mais direto e incisivo, crítica social corajosa e temática mais realista. Isso não impede, no entanto, que a série não erre a mão no roteiro entre um episódio e outro, principalmente nos momentos finais, indo do drama médico ao gênero investigativo policial, numa mudança brusca que causa um pouco de estranhamento.

Renovada para uma segunda temporada, The Resident tem o desafio de continuar relevante em meio à grande oferta de séries com a temática médica.  Ao iluminar outros profissionais do ambiente hospitalar, como a enfermeira Nic, por exemplo, a produção sai da hierarquia de sempre e oferece um olhar para outros pontos, entretanto, aproveita dos clichês e de algumas situações absurdas demais para manter-se relevante. Agora é aguardar para saber o que a série nos reserva em seu segundo ano.

The Resident – EUA, 21 de janeiro a 14 de maio de 2018.
Showrunners:  Amy Holden Jones, Roshan Sethi, Hayley Schore.
Direção: Phillip Noyce, Rob Corn, Bill D’Elia, James Roday, David Rodriguez, Thomas Carter, Bronwen Hughes, David Crabtree, Liz Allen
Roteiro: Amy Holden Jones, Roshan Sethi, Hayley Schore
Elenco: Manish Dayal, Emily VanCamp, Matt Czuchry Bruce Greenwood, Melina Kanakaredes, Tasso Feldman, Shaunette Reneé
Duração: 45 min (cada episódio – 14 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.