Crítica | The Rocky Horror Picture Show (1975)

estrelas 4

Baseado no muitíssimo bem-sucedido musical The Rocky Horror Show (1973), de Richard O’Brien, The Rocky Horror Picture Show é considerado o filme mais bem sucedido em termos de longevidade de exibição, tendo passado anos em cartaz em algumas cidades e permanecendo até hoje em um cinema de Nova York (em sessões à meia-noite e à caráter), Munique e Milão. Sátira dos filmes [B] de ficção científica, o musical é também pontuado por muitas referências a obras clássicas do terror, como destaque para O Gabinete do Dr. Caligari (1920) e A Noite do Demônio (1957), e conta a história de um casal que vai visitar seu antigo professor, Dr. Everett Scott, e acaba ficando sem carro, tendo que abrigar-se em um castelo onde muitas coisas estranhas estão acontecendo.

O espectador deve abandonar a coerência e a rigidez do enredo, das músicas, do encadeamento das coisas quando começa a ver The Rocky Horror Picture Show. A proposta do filme é deturpar esses elementos cinematográficos e trabalhá-los à maneira mais clássica e de baixo orçamento possível, homenageando uma era inteira do cinema e satirizando a forma como esses elementos foram executados em filmes de ficção científica e terror ao longo dos anos, uma proposta que temos desde a canção de abertura, na canção Science Fiction/Double Feature, que nos traz indicações diretas de Drácula (1931), Frankenstein (1931), O Homem Invisível (1933), King Kong (1933), Flash Gordon no Planeta Mongo (1936), O Dia em Que a Terra Parou (1951), Planeta Proibido (1956), dentre muitos outros. E o mais interessante é que todas essas citações não estão apenas para tornar a letra apenas uma homenagem válida. Ao longo da fita, percebemos que muitas cenas, nomes, espaços e elementos desses filmes citados são retrabalhados aqui, revestidos de uma aura cômica irresistível.

O longa começa de uma forma que nada indica o flerte metalinguístico que viria a seguir. Temos uma cena de casamento, onde os “monstros do castelo” já estavam e cuja função é apresentar o estranho casal formado por Janet (Susan Sarandon, que até então só tinha A Primeira Página, de Billy Wilder, como filme de destaque no currículo) e Brad (Barry Bostwick). Após a pouco inspirada mas engraçada canção Dammit Janet, o filme dá uma guinada rítmica, estilística e narrativa completa. De uma história de amor improvável e insossa, partimos para uma estranha viagem de carro, que como já dissemos, obriga os recém-noivos a procurarem abrigo e telefone no castelo do cientista Dr. Frank-N-Furter (Tim Curry, em sua estreia no cinema e em excelente interpretação), um travesti-cientista de Transsexual, planeta da Galáxia Transylvania, cuja missão na Terra parece ter-lhe escapado completamente. Ele vive dando festas e fazendo convenções anuais até o dia em que anuncia a criação de Rocky Horror (Peter Hinwood), um jovem musculoso feito para o deleite sexual do próprio doutor.

Desafiando convenções sociais e da sétima arte, The Rocky Horror Picture Show não teme em falar de sexo — na mais livre visão que se possa ter–; de ridicularizar os casamentos feitos como obrigação de uma etapa para a vida e não como um projeto pessoal, vide a estranha relação entre Janet e Brad; de mostrar que o terror, o musical e a ficção científica podem misturar-se e resultar em uma criação divertida, com canções de rock, baladas e brincadeiras históricas (os noivos ouvem o discurso de renúncia do presidente Nixon enquanto dirigem até a casa do Dr. Scott) que fazem o público dançar, torcer e temer pelo que vem a seguir.

A maioria das músicas da obra recebem boas performances vocais e boas coreografias, além de terem precisa colocação entre as sequências, o que mostra o bom trabalho de roteiro de Sharman e O’Brien na adaptação da peça. É evidente que esse roteiro não está livre de problemas, mas estes são bem menores diante da proposta da obra e só aparecem de fato quando há extensão demasiada de cenas que não precisavam de tanto tempo em tela ou no desaparecimento de personagens sem maiores explicações.

A colocação de um criminologista como ícone metalinguístico foi uma excelente escolha, porque ele — apesar de também dançar Time Warp, portanto, não ser completamente isento de marcas dramáticas — representa o espectador, dialoga com o público, olha para a câmera, quebra a quarta parede em meio à sua investigação. Esse diálogo ajuda-nos a ver o filme com outra camada e talvez tenha influenciado ainda mais a nossa visão plural em relação à fita, que merece todos os louros de entretenimento e aplausos pela excelente direção de arte (o laboratório de Frank-N-Furter em branco e vermelho e toda a sua decoração pastiche/kitsch merece destaque aqui), figurinos e fotografia bem adequada a esses ambientes, embora não tenha nenhum momento de brilhantismo.

Com uma sequência final que traz à tona musicais dos anos 1930 e mais uma vez dá uma guinada temática no enredo do filme, The Rocky Horror Picture Show termina com uma estranha procura, exatamente como começou. A consciência do ambiente diegético aparece mais uma vez e o público se sente órfão dos personagens que acompanhou até aquele momento. Um triunfo que nem todo musical (multi-gênero) tem a sorte de obter.

The Rocky Horror Picture Show (Reino Unido, EUA, 1975)
Direção: Jim Sharman
Roteiro: Jim Sharman, Richard O’Brien (baseado em seu musical teatral)
Elenco: Tim Curry, Susan Sarandon, Barry Bostwick, Richard O’Brien, Patricia Quinn, Nell Campbell, Jonathan Adams, Peter Hinwood, Meat Loaf, Charles Gray, Jeremy Newson
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.