Crítica | The Romanoffs – 1X01 e 1X02: The Violet Hour e The Royal We

Pouco mais de três anos após o fim da sensacional Mad Men, o celebrado Matthew Weiner volta à televisão com a ambiciosa série The Romanoffs que ele produziu, escreveu e dirigiu com exclusividade para a Amazon Prime Video. Em formato de antologia, a proposta é contar, em oito longas-metragens, histórias independentes e auto-contidas filmadas em sete países e três continentes e contando com um elenco estelar, que compartilham uma temática de fundo: pessoas que são – ou acham que são – descendentes da Dinastia Romanov (o uso de Romanoff, no título, é uma escolha fonética) que estava no poder quando a Revolução Russa eclodiu, tendo todos os membros do núcleo direto da família real executados e todos os demais exilados.

É um reflexo impossível de controlar esperar de Weiner o mesmo nível de qualidade de sua obra-prima televisiva, ao mesmo tempo que isso é absolutamente injusto, pelo que tentarei ao máximo me afastar de qualquer tipo de comparação, sem prometer que não sucumbirei à tentação aqui e ali. Aliás, esperar menos do que excelência é realmente complicado considerando o aguerrido leilão de que várias produtoras participaram para comprar os direitos pela série e o orçamento total de 70 milhões de dólares que a vitoriosa, Amazon, investiu nos oitos episódios, um valor impressionante sob qualquer ponto-de-vista.

Vale menção, aqui neste prólogo, ao que os episódios têm de comum: sua abertura. Em poucos segundos e ao som anacrônico, mas perfeitamente encaixado de Refugee, de Tom Petty & the Heartbreakers, vemos a família Romanov ser executada pelos Bolcheviques em uma dramático e sanguinolento reencenamento do que efetivamente aconteceu em 1918. A isso é acrescentado um genial momento em que notamos uma suposta sobrevivente escapar da morte pela floresta e repentinamente emergir em pleno metrô de uma cidade grande moderna, uma excelente forma de abordar o mito de que Anastásia, quarta filha do czar Nicolau II da Rússia e da czarina Alexandra Feodorovna, teria realmente conseguido fugir, o que criaria uma conexão direta do núcleo da família real com eventuais descendentes ainda hoje em dia, o que efetivamente aconteceu ao longo das décadas, com diversos impostores alegando a ascendência real.

Como os dois primeiros filmes foram lançados simultaneamente e, de acordo com a proposta, são bem diferentes entre si, optei por fazer críticas separadas, cada uma com sua própria avaliação em estrelas. Vamos a elas.

1X01: The Violet Hour

Vivendo em um enorme apartamento em Paris que é o perfeito encapsulamento visual da decadência da aristocracia, Anastasia (Marthe Keller) – ou Anushka para os íntimos – vive o crepúsculo de sua vida com seu único parente vivo, seu sobrinho americano Greg (Aaron Eckhart), ao lado de sua namorada Sophie (Louise Bourgoin), circulando sua riqueza imobiliária como abutres sobrevoam a carniça. Hajar (Inès Melab), uma estudante de enfermaria muçulmana completa esse quadro como a empregada e faz-tudo em quem Anushka destila todo o seu pesado preconceito.

A grande estrela dessa configuração é mesmo o apartamento, sem nenhum demérito do elenco. O design de produção é meticuloso ao combinar opulência com vazio, imediatamente passando ao espectador quem exatamente é Anushka: uma relíquia de tempos passados que se vale de uma suposta realeza para manter seu espaço em uma sociedade que não liga nada para isso. Até mesmo seu preconceito contra Hajar, obviamente horrível e inaceitável, ganha um tom alegórico, claramente exagerado para servir de crítica social de veia cômica, o que, de certa forma é exatamente o que o apartamento – com vista parcial para a Torre Eiffel – passa quando a câmera passei por seus diversos cômodos: pé direito alto, candelabros de cristal, closets que são verdadeiros quartos, mas tudo sem vida, exalando mofo, com papel de parede desgastado, com pisos sem brilho. Uma verdadeira tumba de um faraó.

Claro que The Violet Hour é mais do que sua locação, mas por vezes não parece ser. Weiner parece enamorado com Paris de uma maneira incomparavelmente mais óbvia e truculenta do que Woody Allen em seu Meia-Noite em Paris, por exemplo. Diversas sequências do longa não são muito mais do que cartões postais da Cidade Luz que, por mais belos que possam ser, carregam redundância e chamam atenção artificial à cidade, como se faltasse história para ser encaixada naturalmente nas belas ruazinhas e becos por onde Weiner nos faz passear ao longo dos quase 90 minutos de projeção. Em outras palavras, quando o episódio olha “para fora” do apartamento, ele empobrece, torna-se lugar-comum, perde o élan, só para usar uma palavra francesa tão forçada e desnecessária quanto os devaneios cinematográficos do diretor e roteirista.

Mas, quando voltamos para o (des)conforto do descomunal apartamento de Anushka, a coisa melhora substancialmente, ainda que fique longe do tipo de texto sutil e bem construído que nos acostumamos a receber de qualquer coisa que tenha a assinatura de Matthew Weiner. Claro, ele só tem 84 minutos para desenvolver seus personagens e contar sua história, mas ele os faz correr uma maratona nos primeiros 10, situando todos os quatro protagonistas como recortes de cartolina rasos como o proverbial pires, o que telegrafa cada minuto seguinte que vemos desenrolar diante de nossos olhos.

E olha que eu sou o primeiro a defender que “surpresas” são desnecessárias para fazer uma obra desse naipe funcionar. O problema é que The Violet Hour tem um texto repleto de clichês inábeis e banais, reunidos de forma supostamente satírica, mas que não funcionam de verdade, já que é um trabalho pontilhado de diálogos expositivos e de resoluções fáceis que trazem tudo muito mastigado para o espectador, tratando-nos como crianças que precisam atravessar a rua de mãos dadas com um adulto.

Mas que fique claro que o longa não é nem de longe intragável. Longe disso, na verdade, pois, além do apartamento-personagem, temos as ótimas atuações principalmente de Keller e Melab, que tornam seus personagens adoráveis, cada uma de seu jeito. Keller impregna a intolerância e o racismo de Anushka com um tom de nariz empinado que torna suas grosserias quase que um exemplar do Teatro do Absurdo. Melab, por sua vez, ganha o espectador com doses de doçura e com olhares de reprovação inteligente de sua Hajar para cada patada monstruosa de Anushka. A interação e a química entre as duas é imediata e Weiner, como de hábito, sabe extrair o melhor de suas atrizes. Eckhart quase que reprisa o Duas-Caras – ou uma versão dele – ao compor seu Greg de forma dúbia, um lado interesseiro e outro genuinamente preocupado, sem nos dar muitas chances de descobrir qual é realmente o que prevalece. Bourgoin, por sua vez, não usa máscara e vive sua Sophie de maneira horrorosamente franca, o que de certa forma a coloca como a grande vilã, se é que podemos caracterizá-la assim.

Opulento e ambicioso, The Violet Hour é um começo claudicante para The Romanoffs que subestima demais o espectador e traveste de pompa e circunstância uma narrativa que não sabe usar seus clichês de maneira eficiente. Ele deixa entrever seu potencial que, porém, nunca é realizado, deixando-nos com aquele sentimento de frustração quando os créditos finais começam a rolar.

1X02: The Royal We

Se The Violet Hour apenas tenta ser uma sátira, The Royal We efetivamente consegue. Não é, de forma alguma, o tipo de trabalho que esperamos sair da mente de Matthew Weiner, mas ele é um definitivo avanço em relação ao longa inaugural de sua ambiciosa série.

Exatamente como antes, são quatro os personagens principais que se dividem em dois núcleos. Corey Stoll vive Michael Romanoff, homem casado que, deparando-se com a estonteante femme fatale Michelle (Janet Montgomery) durante sua escalação como jurado em um caso criminal, decide fazer de tudo para encantá-la. Sua esposa e também chefe em um negócio familiar, Shelly (Kerry Bishé), tenta fazer o casamento funcionar comprando um cruzeiro de final de semana que sedia uma convenção de descendentes dos Romanov (isso deve existir de verdade, se duvidar!), mas a sabotagem de Michael ao atrapalhar a decisão do júri, evocando, claro, o excepcional 12 Homens e uma Sentença, o impede de ir e ela parte sozinha, lá conhecendo Ivan (Noah Wyle), coincidentemente o marido não-Romanov de uma esposa Romanov que também não pode ir ao cruzeiro.

Inaugura-se, assim, o “campeonato” para ver que cônjuge efetivamente trai o outro, se é que algum trai. Assim como no episódio anterior, o roteiro é inábil em seu uso de clichês e torna dolorosamente evidente o que acontecerá minuto a minuto. É como uma constante e repetitiva sensação de déjà vu. Mas o que funciona de verdade, como mencionei, é a pegada satírica. A convenção no navio é, na falta de uma expressão melhor, um completo show de horrores, com personagens competindo para ver qual é o mais insuportavelmente besta e espetáculos constrangedores no palco, com direito a anões vivendo a família real e um cavalo à bordo. O esplendor visual empregado por Weiner é o mais importante para fazer desmoronar completamente a situação diante do absoluto ridículo que ela é.

E, logicamente, não estamos falando dessa questão específica, já que ela é alegórica a tantas outras mais facilmente verificáveis no dia-a-dia. Shelly e Ivan somos nós, olhando horrorizados para uma sociedade da suposta mais alta casta que não tem a menor compreensão do quão patética ela é. Quando os dois saem do ambiente festivo por não aguentarem mais aquele ambiente de trevas que ninguém enxerga pelo que ele é, eles fazem a mímica de nossa reação, fugindo de um pesadelo labiríntico e surreal.

Do lado de Michael e Michelle, a sátira é bem menos eficiente, ainda que os exageros sejam bem-vindos, como a primeira vez em que vemos a mulher, literalmente fazendo um exagerado alongamento, com roupa justa, em plena sala de escolha de jurados. Nós abrimos um sorriso pelo ridículo na mesma proporção que Michael deixa seu queixo cair por Michelle. E tudo o que se desenrola a partir desse ponto neste lado da história é exatamente – sem tirar nem por – aquilo que esperamos. Sem dúvida divertido, mas também sem dúvida tendente a zero em termos de imaginação e originalidade.

Usando uma fotografia que só tem cores vivas nos shows farsescos no navio, Weiner emula a aridez do casamento de Michael e Shelly, algo que se reflete no epílogo, que torna a ganhar mais cores e uma “solução” estranha, mas que funciona. No entanto, o primor técnico com que o roteiro é executado não cura os problemas visíveis do episódio, mesmo que ele possa facilmente ser classificado como bom. É como ver algo meramente burocrática, às vezes genuinamente interessante, mas não muito mais do que isso.

The Romanoffs – 1X01 e 1X02: The Violet Hour e The Royal We (EUA, 12 de outubro de 2012)
Criação: Matthew Weiner
Direção: Matthew Weiner
Roteiro (The Violet Hour): Matthew Weiner
Roteiro (The Royal We): Michael Goldbach, Matthew Weiner
Elenco (The Violet Hour): Marthe Keller, Aaron Eckhart, Inès Melab, Louise Bourgoin
Elenco (The Royal We): Corey Stoll, Kerry Bishé, Janet Montgomery, Noah Wyle
Duração (The Violet Hour): 84 min.
Duração (The Royal We): 86 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.