Crítica | The Romanoffs – 1X04: Expectation

  • Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Expectation, o mais curto episódio até agora de The Romanoffs, com pouco mais de uma hora, é um eficiente estudo sobre aqueles momentos definidores de uma vida. Todos nós os temos, reconhecendo-os de plano ou não, sejam eles positivos ou negativos. É um alerta e, ao mesmo tempo, a constatação de uma inevitabilidade, já que só os entendemos, normalmente, em retrospecto, olhando para trás de forma contemplativa ou vendo situações semelhante se repetirem.

Todo o episódio é centrado em Julia Wells (Amanda Peet) ao longo de um dia em Nova York. Ela é rica, muito bem casada, faz trabalho voluntário, e tem uma filha extremamente grávida e que nunca trabalhou ou sequer pretende trabalhar na vida, uma decisão consciente que Julia não conseguem conciliar e que abre a narrativa em um sofisticado café da manhã de mãe e filha que, claro, acaba em discussão e deflagra uma crise de ansiedade na protagonista. A filha, Ella (Emily Rudd parecendo uma boneca de porcelana) quer parto natural e não tem o menor problema com a vida de dondoca, mas, diferente das cabeças vazias por aí, ela sabe argumentar e mostrar para a mãe que a pose feminista e socialista dela é só isso mesmo, uma pose e bem menos legítima do que sua pegada mais realista sobre a altíssima condição social da família, em tese descendente dos Romanovs, como determina a premissa da série em formato de antologia de Matthew Weiner.

Mas muito além de dar uma estocada forte na postura do politicamente correto a qualquer custo, o roteiro de Semi Chellas (é o primeiro da série sem participação de Weiner) lida com a espiral desse dia de Julia, driblando a “pancada” da filha e a ansiedade causada pelo neto que não dá sinais de vir e que, com uma ligação de Daniel (John Slattery), autor de uma livro sobre a dinastia Romanov e antigo amigo da família, traz à tona seu passado remoto. Ela e Daniel, há mais de 20 anos, tiveram um caso e o resultado foi Ella, algo que permaneceu guardado a sete chaves, apesar de Daniel saber e sofrer com isso. Além da mentira que simplesmente define sua vida, a paternidade de Ella, que biologicamente não veio de um suposto Romanov, em tese significa – novamente! – o fim de uma linhagem aristocrática “clássica”, o que adiciona peso à questão, mesmo se considerarmos que o pai efetivo da jovem é Eric, o marido “ignorante” de Julia (Jon Tenney).

O desenrolar desse dia para a protagonista é frenético e literalmente non-stop, o que é também refletido na maquiagem e cabelo de Peet, que vai perdendo a vivacidade, o brilho e a arrumação impecável do começo, o que também serve para “desnudar” uma bela atriz diante de nossos olhos. Não é nada tão dramático como o que Jane Fonda fez na 4ª temporada de Grace and Frankie, até porque Peet é bem mais nova, mas, mesmo assim, é um ato corajoso e afirmativo que deveria ser adotado mais vezes, sempre organicamente, claro, como parte de um processo de desmistificação de atrizes e atores, aproximando-os mais da condição humana. Essa “queda” de Julia, portanto, funciona meta-narrativamente também e seu pecado do passado ganha ainda mais importância, especialmente por nos fazer também pensar em nossos próprios pecados, em nossas próprias indiscrições. Obviamente que o que o roteiro de Chellas usa é, talvez, um exagero dramático, mas é assim, ampliando e não reduzindo o impacto, que o episódio consegue chegar até os espectadores, tornando-se mais eficiente do que, por exemplo, a decadência da aristocracia que vimos em The Violet Hour.

Aliás, falando na série como um todo, vale notar que Expectation, ao lidar com infidelidade e gravidez, aproxima-se de The Violet Hour e, por ter John Slattery reprisando seu papel de especialista na família Romanov que vimos em uma ponta no cruzeiro de The Royal We e cujo livro vira a base para a minissérie sendo filmada em House of Special Purpose, cria uma “cola” narrativa levemente maior do que a conexão mais genérica com a alegada ascendência Romanov, mas sem criar uma conexão indelével que estabeleça a série como uma coleção de episódios soltos e completamente diferentes entre si. Afinal de contas, o Slattery de The Royal We é visto por segundos e sem qualquer desenvolvimento, ao passo que pouco importa o autor do livro em que a minissérie de House of Special Purpose foi baseada. O que Weiner fez, aqui, é muito mais um simpático easter-egg do que qualquer outra coisa.

Mesmo com um pouquinho mais de Slattery e com a ponta ilustre de Diane Lane, o grande destaque mesmo de Expectation é Amanda Peet. A atriz, apesar de começar forçando a teatralidade ao ponto de incomodar – a sequência do café da manhã é estranha, para usar um adjetivo simpático – não demora em capturar o espectador, especialmente depois que Weiner lida com a discussão entre Julia e Daniel na famosa livraria Strand (esqueçamos o teletransporte que eles fazem da rua 57 para a 12, claro…) em uma sequência inteligentemente filmada e posteriormente explorada. A atriz se entrega e literalmente se desmonta. Ainda muito bonita, Peet não tenta esconder o esforço que sua Julia faz para justamente parecer assim a todo custo e sua ebulição cerebral, que traz cenas constrangedoras como a do carregador de celular no canteiro de um bar e a volta de táxi do aeroporto com os sogros de sua filha, ganha um ar legítimo e doloroso, urgente. A mentira de sua vida, de algo lá no fundo de sua mente, vai, ao longo da progressão narrativa, ganhando mais espaço até ocupar a integralidade de seus momentos em uma espiral quase enlouquecedora.

Quando Expectation acaba, o espectador está cansado. E, provavelmente, pensando em sua vida e no quão diferente ela poderia ser se isso ou aquilo não tivesse sido feito ou tivesse sido feito de forma diferente. E, mais do que isso, pensando se essas mudanças hipotéticas teriam realmente sido bem-vindas. Afinal, há males que vêm para bem, não é mesmo?

The Romanoffs – 1X04: Expectation (EUA, 26 de outubro de 2018)
Criação: Matthew Weiner
Direção: Matthew Weiner
Roteiro: Semi Chellas
Elenco: Amanda Peet, Jon Tenney, Emily Rudd, Mary Kay Place, Michael O’Neill, John Slattery, Diane Lane, Janne Mortil, David Ferry
Duração: 62 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.