Crítica | The Romanoffs – 1X06: Panorama

  • Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

A abordagem de Matthew Weiner, em sua ambiciosa, série, em linhas gerais coloca em oposição os que têm e os que não têm, os que oprimem e os que são oprimidos. Essa é a conexão geral histórica que ele faz em relação à descendência dos Romanovs, a última família imperial russa. O problema é que o showrunner tem escolhido o caminho do didatismo, no lugar de sua usual sofisticação, quase que fazendo uma série for dummies, subestimando a inteligência do espectador.

Panorama é o episódio que mais contundentemente prova essa minha afirmação. Em determinado momento da trama, com ela já bem avançada, a milionária Victoria (Radha Mitchell), uma Romanov, claro, diz, no meio de uma conversa com Abel (Juan Pablo Castañeda), um repórter mexicano que investiga uma clínica para milionários que oferece tratamentos experimentais, que ele é um socialista. Ora, como você é perspicaz e inteligente, Sra. Victoria. Quer uma sardinha?

Afinal de contas, a clínica, que Abel apontara como sendo uma exploradora de pessoas ricas doentes, trata, em sua maioria, enfermos que conseguiram seu dinheiro de maneira escusa. São ditadores, assassinos, industriais inescrupulosos e assim por diante. É a velha história de que não há pessoas boas nessa equação. A única exceção é o jovem Nick (Paul Luke Bonenfant), filho de Victoria. Mas a narrativa continua com Abel mostrando-se um especialista em histórica mexicana, contando todo o sofrimento do povo para Nick, usando o famoso e belíssimo painel de Diego Rivera no Palácio Nacional, com direito a closes na foice e martelo, Karl Marx, O Capital e Abel, em off, explicando em detalhes as revoluções. Se, quando Victoria rotula – de maneira benigna, não beligerante, apenas uma constatação mesmo – que Abel é socialista, isso já não havia ficado claro, então não sei o que mais era necessário Weiner fazer.

Mas o ponto é: o que raios ser socialista tem relação com a compreensão histórica da luta entre opressores e oprimidos? Quer dizer então – já que estamos falando de rótulos – que um capitalista não pode compreender a mesma coisa e defender um maior equilíbrio no mundo? Quer dizer que o socialismo no mundo só criou santos e figuras angelicais que merecem ser canonizados e nenhum opressor?

O raciocínio de Weiner é maniqueísta, canhestro, bobalhão, simplista e banal. E Panorama, infelizmente, pode ser classificado da mesma forma, com uma história extremamente didática que, ainda por cima, parece por vezes ser um guia turístico da cidade do México que ficaria perfeito no Discovery Channel ou algo do gênero. Claro que a fotografia pode deslumbrar por vezes, mas isso se dá muito mais porque o episódio é repleto de tomadas em planos gerais de documentários de turismo do que pela técnica em si.

Há, porém, belos momentos. Seu encerramento, com a recriação surreal do painel de Rivera em plena praça central da capital mexicana é um deles, com o uso de um plano-sequência muito interessante, revelando aos poucos extras vestidos com os mais diversos figurinos da história do México, além de figuras históricas importantes caminhando ao lado de Abel em uma coreografia complexa por parecer natural. No entanto, isso me fez pensar que Weiner teve primeiro essa ideia e, depois, inventou uma história que lhe permitisse fazer isso de alguma forma, partindo do micro para o macro, mas se perdendo no meio do caminho com um roteiro pobre demais.

E o roteiro, claro, acaba afetando as performances de Mitchell e Castañeda, que parecem “duros”, desconfortáveis em seus respectivos papeis, como se estivessem lendo de um monitor como em um telejornal. Seus dramas particulares não convencem além do óbvio e, juntos, eles têm a mesma química do vinagre e do azeite.

Matthew Weiner parece querer contribuir para o tipo de mundo que estamos caminhando: o que rotula as pessoas de um jeito X ou Y, sem meio termo. Sua panfletagem é desnecessária e irritante muito menos pela panfletagem em si do que pela maneira como ele a explica, pegando o espectador pela mão e subestimando sua inteligência, evitando aquela coisa incômoda e cansativa que é o ato de pensar.

The Romanoffs – 1X06: Panorama (EUA, 09 de novembro de 2018)
Criação: Matthew Weiner
Direção: Matthew Weiner
Roteiro: Dan LeFranc, Matthew Weiner
Elenco: Radha Mitchell, Juan Pablo Castañeda, Griffin Dunne, Paul Luke Bonenfant, David Sutcliffe, Roberto Medina, Maria Evoli
Duração: 80 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.