Crítica | The Room (2003)

“I did not hit her. It’s not true. I did not hit her. I did *not*. Oh, hi Mark!”

Não se preocupem, esse texto não contém spoilers.

O cinema é, acima de tudo, uma arte. No entanto, no meio de tantos monumentos que se mantém em pé, estátuas e maravilhas construídas pelo homem em milênios de história, muitos outros se dissiparam pela atuação do senhor tempo, indestrutível e impiedoso. Na utopia de que a sétima arte continuará para sempre na memória do homem, filmes de menor calibre, obviamente, pouco ganham espaço ao lado de obras inesquecíveis guardadas a sete chaves em acervos históricos, ou então, sem toda essa pomposidade, nos nossos meros corações. Cidadão Kane foi selecionado para o National Film Registry. The Room possivelmente nunca será capaz de entrar em uma seleção dos filmes mais “visualmente, historicamente ou esteticamente significantes“. Contudo, muito provavelmente, há quem ame de forma honesta mais a obra produzida, dirigida, roteirizada e estrelada por Tommy Wiseau, do que o clássico de Orson Welles. O “Cidadão Kane dos filmes ruins”, como fora, carinhosamente, apelidado por Ross Morin, professor assistente do estúdio de filmes da Universidade Estadual de St. Cloud, não é apenas ovacionado por um, mas por milhares de amantes do cinema que, mesmo também clamando Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade como obras imortais, não perdem tempo para ligarem sua televisão ou irem ao cinema mais perto assistir a The Room, um dos melhores piores filmes da história.

A começar, não levem as estrelas, ou a falta deles, dispostas acima de todo o texto, como a verdade absoluta. Costumeiramente, as estrelas tendem a ser uma síntese cruel de um produto que não pode ser medido em números. No caso de The Room, com tantas vertentes nas quais esse longa-metragem de 2003 pode ser abordado, a condensação fica ainda mais problemática. Dentre estas, a primeira, mais superficial e não necessariamente injusta integralmente, é a que o qualifica como uma das maiores atrocidades produzidas pelo homem com uma câmera. É claro, levando em conta a disposição de um orçamento minimamente decente para a confecção de uma produção cinematográfica minimamente decente. Se tem algo que Tommy Wiseau, o homem por detrás de The Room, não faz, este algo é produzir um filme minimamente decente. Muito pelo contrário, todos os básicos da escola de cinema são jogados no lixo, pisoteados por uma manada de elefantes e reciclados no formato de uma produção hilariantemente podre – e inesquecível.

Dentre tudo que está errado com o seu filme, Wiseau “parece” não saber como conduzir uma narrativa (parece é educação, ele não sabe mesmo). Seu roteiro, de mais de 500 páginas, é desfocado. Na premissa, Johnny, interpretado pelo próprio diretor, roteirista e produtor, é o homem que tem tudo, ao mesmo tempo que não tem nada. Sua namorada sociopata, Lisa (Juliette Danielle), não mais o ama, o que dá margem para ela traí-lo com seu melhor amigo, Mark (Greg Sestero). Pensando nesta linha narrativa como a principal, outras aparentemente surgem, embora não transfigurem-se em nada além de caracterizações de personagens, extremamente inúteis para o cerne da questão. Dentre a mais indiferente de todas, a qual é pincelada como se fosse uma mera ruga na testa, é a revelação de que a mãe de Lisa, Claudette (Carolyn Minnott), tem câncer de mama. Completamente aleatória, assim como dezenas de outras falas que, ou se servem para verborragizar a grandiosidade de Johnny (aspecto comentado adiante no texto), ou não servem para nada. No mais, o coadjuvante Denny (Philip Haldiman), personagem ridiculamente memorável que ora está apaixonado por Lisa ora está apaixonado por uma outra mulher, isso durante um único diálogo, envolve-se em uma “sub-trama” com um traficante de drogas que nunca mais é abordada, a não ser numa única cena: a aparição do assombroso Chris-R (Dan Janjigian) e seu revólver, uma tenebrosa execução de tensão por parte dos realizadores do filme. Isso porque não foi comentado o tanto de outros personagens secundários que não trabalham a favor do funcionamento da veia condutora de The Room. Todos, claramente, tem a chave da casa de Johnny, pois é um vai e vem naquela porta monstruoso. E é claro, Johnny tem que cumprimentá-los com um “Oh, hi insira o nome da pessoa aqui.

“You are tearing me apart, Lisa!”

Entretanto, se o roteiro já é o assassinato de qualquer chance do filme ser o sucesso que Wiseau esperava, no restante da produção encontramos o ambiente ideal para o enterro definitivo de qualquer ínfima esperança. Primeiramente, o elenco parece estar lendo teleprompters, embora seja inadequado culpá-los completamente pelo resultado. Nem Meryl Streep, nem Daniel Day Lewis salvariam um texto dessa magnitude. Seguidamente, Tommy também decidiu estrelar a sua produção. O que mais poderia dar errado quando o mundo já está fervilhando em um mar de magma? Em seus próprios termos, a interpretação de Johnny é uma abstração que não existe. Johnny não é uma interpretação. É quem Wiseau é. Mais tarde saberíamos que a clássica sentença “You are tearing me apart!” não passou de uma tentativa do ator em chegar no grau de veracidade transmitido por James Dean, quando este proferiu a mesma frase em Juventude Transviada. Aqui, não sabemos nada disso. O que nos resta? Rir maravilhosamente. Isso porque não se foi comentado dos erros grotescos de continuidade na edição. Tommy está olhando para cima e depois de um corte usual, está olhando para um lugar completamente diferente, sendo que uma linha de diálogo continua na voz de um personagem qualquer. Ah, e você acha que já viu alguma cena de sexo ruim? Tommy Wiseau faz questão de exibir a sua bunda e mirar seu corpo no umbigo de Lisa, como se estivesse ocorrendo alguma penetração impossível de estar acontecendo naquele ângulo. O pior é que na edição, ele repete a mesma cena (percebam que são os mesmos planos e o mesmo clima cafona da primeira cena de sexo) como se fosse um outro evento. Não havia necessidade nem para uma cena, nem para outra. O que se cria é uma duplicata que reforça nossa gargalhada, enquanto uma música romântica fortemente clichê toca e os personagens gemem desesperadamente enquanto estão se beijando.

Mas não pensem que The Room seria a maior maravilha do mundo se os pensamentos de Tommy Wiseau tivessem sido passados para as telas da forma exata como imaginados por ele naquela noite chuvosa, debaixo do cobertor. A obra não possui “apenas” falta de senso no roteiro, nas atuações, na direção, na montagem e na edição. É extremamente perceptível a ideia antagônica que Wiseau imaginou para os seus personagens Johnny e Lisa, e essa é uma característica muito problemática para o filme. Em momento algum o cineasta decide que Johnny já foi edificado demasiadamente ou Lisa já ultrapassou em anos-luz o nível de vilania dos piores vilões da Disney. Tudo que envolve Johnny tem o objetivo de idealizar o protagonista como um herói americano, vivendo o sonho americano, mesmo que nem o seu intérprete seja americano. Uma mensagem de universalidade? Creio que Wiseau queria mesmo era se ver na pele de um homem incorruptível, que paga mensalidades escolares de jovens e compra vestidos lindos para suas namoradas, a troco de nada. Por outro lado, Lisa é uma mulher vil, não pelo simples fato dela querer abandonar o protagonista. Isso é algo normal, direito dela. Mas não apenas Lisa quer fazer isso, como inventa que Johnny bateu nela e tem uns comportamentos muito aleatórios, os quais confundem o espectador que não sabe se ela é boa ou má. Sem querer, Wiseau cria uma personagem incoerentemente confusa, que parece estar na mais perfeita tranquilidade com seu par, na primeira cena do filme, e depois, abruptamente, revela a sua mãe que não mais o ama. Não há qualquer tentativa de se expor a falta de amor de Lisa pela atuação de Juliette Danielle, mas sim pelo texto, que é, como já dito anteriormente, estratosfericamente horrendo.

“How’s your sex life?”

Depois de quase 100 minutos da arte cinematográfica em seu estado mais profissionalmente amador, não é inexato qualificarmos uma crítica pesada sobre The Room como fácil. Um crítico está com trabalho ganho frente a um filme como esse, no qual todos os aspectos questionáveis estão evidenciados drasticamente. Não há discussão: The Room é horrível, ponto. Todavia, se comparado com qualquer outra produção, dificilmente encontraremos uma que continua há mais de 10 anos sendo exibida regularmente pelo mundo todo. Milhares de fãs do espetáculo criado por Wiseau decoraram as falas, vestem como seus personagens favoritos e acompanham muitas exibições da obra, as quais contam com a presença do próprio Tommy em muitas ocasiões. É um fenômeno parecido com o de The Rocky Horror Picture Show. Só que Rocky Horror é um grande musical de esquisitices, enquanto The Room é um grande conjunto de esquisitices. Muitas esquisitices. É incompreensível como tantas falhas conseguiram ser amontoadas em um único filme. O longa-metragem consegue ser rivalizado apenas com Plano 9 do Espaço Sideral, do inesquecível diretor Ed Wood.

É incrível que, mesmo péssimo, The Room seja um dos filmes mais recomendáveis do mundo, um must-see de qualquer cinéfilo que se preze. Tommy Wiseau é uma caricatura em pessoa, e a sua atuação catastrófica acaba atuando a favor dele mesmo. Se colocássemos qualquer galã inexpressivo dos dias de hoje para interpretar Johnny, certamente a obra teria muito menos impacto. Muitos poucos filmes serão tão inesquecíveis quanto essa carta de amor de Wiseau à potência de um quarto de ser um local onde eventos bons e ruins podem acontecer (sim, é por isso que o título do filme é O Quarto, se traduzido para o português). É possível que o filme não gere a maior quantidade de gargalhadas autênticas durante toda a sua duração, mas, parando para pensar, é impossível não lembrarmos das bizarrices que assistimos durante quase duas horas de nossas vidas. Feche os olhos e você verá a risada aleatória de Johnny, o jogo de futebol mais errado de todos e até mesmo se lembrará, com carinho, das cenas de sexo que fazem de tudo com você, menos demonstrar que algo carnal e visceral esteja acontecendo de verdade ali.

No final das contas, este é o filme de comédia mais inusitado de todos, pois, primeiramente, não era nem para ser um filme de comédia. O grande Tommy Wiseau pode até “brincar” que sempre pensou na sua produção como uma peça de humor negro, mas sabemos que essa é a resposta conveniente para a situação que surgiu de seu fracasso dramático: um surpreendente sucesso nascido das cinzas de um trabalho que rendeu muitas horas de sua vida, mais de seis milhões de dólares, muitas reclamações por parte do elenco e, definitivamente, muitas risadas por parte dos espectadores. A obra máxima deste cidadão de Nova Orleans não é amada à toa; como muitos pensam, por espectadores que se contentam com pouco (uma explicação do sucesso que algumas produções de Hollywood bastante problemáticas fazem na bilheteria), e fizeram, consequentemente, um circo de horrores tornar-se seus lares por puro deboche ou completa esquizofrenia coletiva. The Room é a prova cabal que o cinema é uma caixinha de surpresas que não segue fórmulas concretas. Por algum motivo, o amor de Wiseau pelo cinema, mesmo que o cineasta nunca tenha entendido-o da forma como pensamos que ele deveria ter entendido, ficou evidenciado nas telas e nunca saberemos dizer o porquê disso ter acontecido certeiramente. Enfim, este cineasta de primeira viagem não poderia estar mais certo. Para que tanto ódio quando as coisas não seguem os padrões? Para encerrar o texto, nada melhor do que uma citação proveniente do texto imortal de Wiseau: “Se todas as pessoas se amassem, o mundo seria um lugar melhor.”

Como dei nenhuma estrela ao filme no início do texto, reitero que o céu de Tommy Wiseau poderia estar completamente estrelado, pois essa experiência, assistindo a The Room, foi incrível e, mesmo sendo eu levemente prolixo, indescritível.

The Room – EUA, 2003
Direção: Tommy Wiseau
Roteiro: Tommy Wiseau
Elenco: Tommy Wiseau, Greg Sestero, Juliette Danielle, Philip Haldiman, Carolyn Minnott, Robyn Paris, Scott Holmes, Dan Janjigian, Kyle Vogt, Greg Ellery
Duração: 99 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.