Crítica | The Saboteur

estrelas 3,5

Alguns jogos possuem potencial enorme. Há roteiro, personagens cativantes, boa jogabilidade, gráficos, inovação, trilha sonora. Mas falta alguma coisa, algo que transforme esse game em uma experiência a ser lembrada e o tire da mediocridade da maioria dos lançamentos. The Saboteur é, infelizmente, um desses casos.

Ambientado na bela Paris ocupada por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o game te coloca no papel do irlandês Sean Devlin, automobilista que, após a morte de seu amigo, seu muda de país e vira um espião da resistência francesa. Baseada em fatos reais nem tão conhecidos pelo grande público – o que é uma boa e ousada escolha – a história contada é intrigante e vira um dos pontos altos do jogo, mesmo se tratando de um sandbox que permite ao jogador se dispersar pelas diversas missões a serem feitas.

A Paris retratada pela Pandemic Studios (Star Wars: Battlefront e Mercenaries) é também bastante agradável. Não se compara com a de Assassin’s Creed: Unity, lançado cinco anos depois, mas o ar opressivo da época é retratado de forma criativa pela escolha dos desenvolvedores em deixar as áreas controladas por nazistas em preto e branco. A cada missão realizada e área liberada do domínio alemão, a cidade vai ganhando cor e ficando cada vez mais viva, deixando o próprio jogo cada vez melhor.

Carros e roupas da época, junto com uma maravilhosa trilha sonora que vai de Nina Simone à Madeleine Peyroux, trazem uma ambientação perfeita à proposta do jogo de controlar um espião furtivo que conhece uma nova cidade e faz seus contatos em bordéis, galpões abandonados e mercados negros de armas, tudo permeado de muito cigarro, jazz e um charme peculiar.

A jogabilidade, entretanto, é uma mistura de GTA e Assassin’s Creed. Isso não é ruim, é apenas mais do mesmo. O problema é que as missões não permitem a sutileza e o stealth que o jogo promete à primeira vista. Toda mecânica parece e é pouco polida, e explodir nazistas e sair correndo acaba sendo a saída para a maioria das missões. O que também não significa que é impossível se divertir fazendo isso.

No mesmo sentido, as cutscenes não são as melhores da época – em 2009 já éramos brindados com God Of War III, por exemplo – mas são passáveis. A questão é que esses pequenos detalhes se acumulam e a sensação que se tem é a de que se poderia estar jogando um produto muito melhor acabado. Há momentos em que The Saboteur parece uma experiência original, bem feita e com um tom próprio, e há outros em que parece um sandbox genérico, descartável e maçante.

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Muito disso se deve, evidentemente, à pressa com que o game foi finalizado pelo estúdio, fechado pouco tempo depois pela Electronic Arts. É uma pena para a indústria pois o potencial para uma sequência ou algo no mesmo sólido universo elaborado pela Pandemic era grande. No final, The Saboteur passou despercebido por muitos e caiu no esquecimento por causa de alguns deslizes. Hoje, mais barato do que na época de lançamento, pode ser uma oportunidade para conhecer seus méritos e passar um tempo se divertindo em um sandbox cheio de coisa a ser feita. Vale a pena, de qualquer maneira, dirigir pelo interior de Paris ouvindo as incríveis músicas selecionadas.

The Saboteur
Desenvolvedor: Pandemic Studios
Lançamento: 4 de dezembro de 2009
Gênero: Aventura
Disponível para: PC, PS3, Xbox 360

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.