Crítica | The Sailor’s Dream

estrelas 4

Classificar The Sailor’s Dream como um game não é fácil. Seguindo o padrão de Device 6 e Year Walk, a sueca Simogo criou outra experiência interativa focada em uma história que se desvela aos poucos e com muitas nuances. Tal desvelamento, sem dúvidas, é o ponto alto desse bom jogo para Iphone.

Exploração e mistério são colocados poeticamente por todos os cenários. Ruínas, faróis, barcos… decifrando mensagens e colecionando canções, o jogo encanta pela ambientação e pelo modo como a narrativa é levada. O jogador é completamente livre para visitar diferentes locações e relacioná-las umas com as outras, na ordem que preferir. É como montar um quebra-cabeça de como a história do marinheiro ocorreu.

A trilha sonora e os gráficos, evidentemente, são muito bem trabalhados e impõem um clima de calmaria em meio à busca pelo que se passou. Afinal, são o alicerce de um game desse tipo, junto com o enredo. As memórias e as notas encontradas são tão fascinantes quanto às músicas belamente compostas que nos mostram a vida do marinheiro e de como tudo aconteceu. Brincar com os lustres ou as cordas visitadas em determinadas casas abandonadas, pelo simples fato de saírem som delas, também é um deleite porque dá uma ótima sensação de tranquilidade. No mesmo sentido interativo, a Simogo faz o tempo do jogo passar mesmo quando não se está jogando, e nessas pequenas mecânicas coloca o principal conceitodo jogo: paciência para que os fatos venham à tona.

A relação dos próprios elementos de The Sailor’s Dream é admirável. O problema é que a história, por mais bonita que seja e interessante pela maneira fragmentada em que é contada, não traz a imersão necessária nesse tipo de jogo essencialmente quieto e melancólico. Talvez a própria maneira pela qual se desenvolve, seu ponto forte, também seja seu ponto fraco. O jogo parece livre demais, sem reais desafios ou consequências importantes ao interagir com os faróis e as casas, por exemplo – por mais incrível que possa parecer tocar nos objetos que aparecem pela primeira vez, como dito anteriormente. A maneira como se apreende a história deve ser destacada e é, certamente, o que a Simogo faz de melhor. Todavia, a impressão que se tem é a de que se está lendo um pequeno conto digital, cheio de sutilezas, e só – o que é prazeroso e decepcionante ao mesmo tempo.

Para um jogo que recompensa a exploração, a vontade de buscar os mistérios e se aprofundar nas crônicas contadas deveria ser a principal preocupação. O que se vê é apenas uma experiência anormal e extraordinária quando se trata de storytelling – eis o seu mérito. Utilizando os recursos do próprio iPhone para explorar, a Simogo novamente alcança seu objetivo de contar um relato tocante de um modo distinto do que a indústria de games faz atualmente. Mas a sensação final é a de que faltou para The Sailor’s Dream ser mais um jogo e menos uma narração. Ou ter a profundidade que promete em um primeiro momento.

Vale mais a pena ler um conto escrito.

The Sailor’s Dream
Desenvolvedor: Simogo
Lançamento: 6 de novembro de 2014
Gênero: Point and Click
Disponível para: iOS

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.