Crítica | The Sarah Jane Adventures – 3ª Temporada

sarah jane

estrelas 2,5

A 1ª Temporada de The Sarah Jane Adventures (SJA, para facilitar), o spin-off com pegada infanto-juvenil de Doctor Who, criado por Russel T. Davies, apresentou aventuras cambaleantes, mas representou um começo divertido para uma série descompromissada. Na 2ª Temporada,  as aventuras de Sarah Jane e sua equipe de adolescentes amadureceram, uma das crianças foi substituída e vimos roteiros mais competentes e engajantes. O caminho estava pavimentado para que a série decolasse de vez, como efetivamente decolou.

No entanto, a 3ª Temporada, apesar de trazer dois novos ingredientes que deveriam sacudir a série, retrocede em termos de história e abraça um tom mais bobo, simplista, realmente voltado para crianças, com pouco atrativo para whovians mais velhos. Longe de ser imprestável, claro, a temporada, com apenas alguns desvios, foca muito mais em Clyde Langer (Daniel Anthony), que passa até a ser o narrador da abertura dos capítulos e Rani Chandra (Anjli Mohindra), deixando tanto Sarah Jane (Elisabeth Sladen) quanto seu filho gênio Luke (Tommy Knight) um pouco de lado.

Mas eu falei em dois novos ingredientes, não é mesmo? O primeiro deles é a volta efetiva de K-9 (voz de John Leeson), o cachorro robótico que foi dado de presente a Sarah Jane pelo Doutor no piloto da “série que nunca foi” K-9 and Company (1981), que viria a aparecer brevemente junto com ela no especial The Five Doctors (1983) e, mais tarde, em School Reunion, episódio da 2ª Temporada da Série Nova, em que ele é revivido na sua quarta versão (Mark IV) pelo 10º Doutor. Como havia uma outra série em desenvolvimento com o personagem, ele apareceu apenas em pontas brevíssimas nas temporadas anteriores de SJA. Na 3ª, ele é presença constante nos episódios, mas, por alguma razão misteriosa, ele é extremamente mal aproveitado, permanecendo no sótão de Sarah Jane se bicando com Mr. Smith (voz de Alexander Armstrong), o super-computador da heroína. Em muitos momentos, K-9 é redudante, pois Mr. Smith cumpre a função de “detetive cibernético” e a temporada teria talvez se beneficiado de mais ousadia no uso do cãozinho-robô.

O segundo ingrediente é o próprio David Tennant, o 10º Doutor, que dá o ar de sua graça no episódio duplo (todos são duplos, na verdade) The Wedding of Sarah Jane Smith, no meio da temporada. Apesar de sempre ser muito bom ver Tennant como o 10º Doutor (essa seria sua última aparição como tal antes do especial de 50 anos, The Day of the Doctor), especialmente agindo ao lado de Sarah Jane e de K-9, novamente o roteiro deixa a desejar e não vai além do burocrático, reduzindo a participação do Doutor a uma ponta de luxo. Além disso, a narrativa, que conta efetivamente sobre o casamento de Sarah Jane, é uma surpresa total, pois nada antes nos prepara para o que acontece. Não somos apresentados a nenhum namorado de Sarah Jane nem ela menciona alguma coisa antes. Tudo começa, se desenvolve e acaba nesse mísero episódio duplo, deixando muito claro que os roteiristas simplesmente quiseram arrumar uma desculpa para trazer Tennant para a série.

Mas vamos começar pelo começo, não é mesmo?

O primeiro episódio, Prisoner of the Judoon, abre a temporada da maneira mais simplista possível com Capitão Tybo (Paul Kasey, corpo e Nicholas Briggs, voz) da raça de policiais interplanetários Judoon (aqueles rinocerontes que só falam em monossílabos terminados na letra O) caindo na Terra (literalmente ao lado de onde Sarah Smith mora) e tendo que caçar um fugitivo cujo poder é tomar posse de corpos. Corre para lá, corre para cá e tudo se resolve, com um pouco salutar aumento nas piadas sem graça. Não foi a melhor forma de começar uma temporada, especialmente considerando que a anterior foi tão boa.

O segundo episódio – The Mad Woman in the Attic – tem uma premissa interessante, que prende o espectador à TV: vamos o ano de 2059 e vemos Rani, velha e solitária, recebendo uma visita inesperada no empoeirado sótão de Sarah Jane. A primeira metade do episódio segura o mistério, mas, na segunda, ele se torna repetitivo e, ainda que o resultado final seja satisfatório, não é algo particularmente especial, apesar da promessa.

Como já falei do terceiro episódio, com o Doutor, vamos ao quarto, The Eternity Trap, de longe o melhor da temporada. Sarah Jane e seus pupilos – com a notável exceção de Luke – acompanham a Professora Rivers (Floella Benjamin) em uma pesquisa paranormal na mansão de Ashen Hill, que supostamente é extremamente mal assombrada. Trata-se de uma típica história de fantasmas envolvendo o desaparecimento de pessoas ao longo de séculos e um alquemista chamado Erasmus Darkening (Donald Sumpter) que, graças ao trabalho de cenografia e de direção, é eficiente em assustar moderadamente o espectador. Fica evidente para qualquer whovian que não há fantasmas na mansão e sim outras forças mais, digamos, (extra)terrenas, mas, mesmo assim, a brincadeira é divertida e a solução muito eficiente.

O quinto episódio duplo, Mona Lisa’s Revenge, causou-me surtos de vergonha alheia. Como o título não deixa dúvidas, trata-se literalmente da Mona Lisa (Suranne Jones), exposta pela primeira vez em um museu britânico, ganhando vida e procurando por seu “irmão” perdido há séculos com a ajuda do curador do museu, Lionel Harding (Jeff Rawle). Para não perder muito meu tempo e o de meus leitores, basta dizer que nada funciona. A Mona Lisa com maquiagem pesada e sotaque britânico cheio de gírias é ridícula, Harding é um personagem de pantomima e a solução deus ex machina (mas disfarçada de algo “inteligente” feito por Luke) é de chorar.

The Gift encerra a temporada trazendo de volta os insuportáveis Slitheen de Raxacoricofallapatorius. Nunca vou entender porque aparentemente gostam tanto desses alienígenas para eles ganharem tanto destaque assim. Mas vamos à história: caçando dois Slitheen, Sarah Jane e sua trupe são salvas por dois Blathereen (basicamente, Slitheen de outra cor) e recebem deles um presente, uma planta chamada Rakweed que pode solucionar a fome mundial. Saindo completamente de seu personagem, Sarah Jane não só aceita o presente como fica extremamente feliz, como uma inexperiente criança encontrando alienígenas pela primeira vez. É óbvio que tudo dá errado, Luke quase morre e o roteiro, de maneira tosca, resolve tudo magicamente. Seria mais crível se uma das fadas da Cinderella aparecessem – Flora, provavelmente, diante do tema – e simplesmente desfizesse o que os Blathereen fizeram.

Em suma, a criancice tomou conta dos roteiristas de SJA e o resultado é insatisfatório, traindo o caminho mais maduro (mas ainda infantil) que a seria estava trilhando. A 3ª Temporada representa um retrocesso ao trabalho até então feito e mostra a falta de foco dos roteiristas e de Russel T. Davies. Uma pena.

The Sarah Jane Adventures – 3ª Temporada (Reino Unido, 2009)
Showrunner: Russell T. Davies
Direção: Joss Agnew (eps 1 e 2, 5 e 6 e 9 e 10), Alice Troughton (eps. 3 e 4, 7 e 8 e 11 e 12)
Roteiro: Phil Ford (eps. 1 e 2 e 7 a 10), Gareth Roberts (eps. 5 e 6), Joseph Lidster (eps. 3 e 4), Rubert Laight (eps. 11 e 12)
Elenco: Elisabeth Sladen, Tommy Knight, Daniel Anthony, Anjli Mohindra, Mina Anwar, Ace Bhatti, David Tennant, John Leeson, Alexander Armstrong, Paul Kasey, Nicholas Briggs, Donald Sumpter, Floella Benjamin
Duração: 335 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.