Crítica | The Sinner

The Sinner, minissérie da USA Network baseada em romance policial da escritora alemã Petra Hammesfahr, especializada no gênero, é uma obra que atrai por sua premissa, desaponta por trai-la e, depois, novamente captura o espectador pelas sensacionais atuações da dupla principal: Jessica Biel, que vive a assassina Cora Tannetti e Bill Pullman, que vive o detetive policial Harry Ambrose. São oito episódios que conseguem contar uma história fechada cheia de meandros e complexidades que sofre um pouco de descompasso narrativo, mas que cumpre sua função de entreter e de mesmerizar o espectador em função de seu elenco.

Cora é casada, mãe de um menino de três anos e moradora de uma minúscula e pacífica cidadezinha no interior de Nova York. Um belo dia, quando ela está descascando uma fruta na praia de lagoa com o pequeno Laine (Grayson Eddey) e seu marido Mason (Christopher Abbott), ela se levanta como em um transe e mata, com sete facadas, um homem que nunca viu na vida. Ou, pelo menos, é isso que ela diz e o que é usado no marketing da série como seu principal ponto de venda. Afinal, como pode um assassinato desses do nada, com assassina e vítima sequer se conhecendo e sem qualquer motivo aparente? Qualquer um que assiste ao clímax sangrento do primeiro episódio fica automaticamente fisgado pela premissa e é inevitável seguir em frente.

Mas a premissa é só isso mesmo, uma jogada de marketing, pois, já no episódio seguinte, ela é jogada completamente pela janela, com o obsessivo detetive Ambrose se recusando a simplesmente aceitar o ocorrido da forma como descrito e logo descobrindo os primeiros indícios de que há algo mais nessa história. E há, claro. Muito mais. E, assim, ao longo de sete episódios, o passado de Cora é vagarosamente descortinado e o assassino devidamente explicado. A resolução da história, a bem da verdade, não é lá uma grande surpresa, pois a explicação mais óbvia – e a primeira que passou em minha mente, sem os detalhes, lógico – é mesmo a única explicação. Portanto, se a série fosse apenas isso, um misteriozinho policial razoável que é construído em cima de uma mentira marketeira, podem ter certeza que meus comentários seriam bem mais inclementes.

A grande verdade, porém, é que há muito mais para se apreciar na série do que somente o caso em si. E o primeiro elemento é algo que o espectador só enxerga em retrospecto: a crescente sensação de claustrofobia. Tudo na série, inclusive e especialmente os espaços abertos é abordado de forma a sufocar Cora. Sim, ela passa a maioria do tempo encarcerada, o que por si só já estabelece esse aspecto, mas o que quero dizer é que toda sua vida, inclusive a aparentemente feliz vida de casado é uma imposição, algo mais forte do que ela, uma prisão. O primeiro episódio já deixa isso claro, mas o assassinato tira o foco do espectador. Daí a menção que fiz à visão em retrospecto da minissérie como um todo. Afinal, já no comecinho, quando o diretor Antonio Campos posiciona suas câmeras, vemos uma Cora “no automático”, tendo que driblar um marido talvez amoroso demais por quem ela não sente o mesmo tipo de atração (talvez nunca tenha sentido) e, pior, tendo que viver porta-a-porta com seus sogros que exigem um jantar em família praticamente todos os dias. Esse enfoque fechado na vida dela, mesmo que não seja completamente explorado posteriormente – já que ela é presa – estabelece o foreshadowing do que Ambrose descobrirá.

Vemos, então, a justificativa maior para o título “A Pecadora”, em tradução direta. Não é exatamente pela morte que Cora provocou, mas sim pelo seu passado mais remoto, começando com o nascimento de sua irmão muito doente décadas antes e sua mãe colocando nela a culpa pelo ocorrido em uma brutal e aflitiva sequência, daquelas de enojar qualquer um. Sua mãe, carola ao extremo, passa então a estabelecer um regime de campo de concentração na casa onde ela cresceu, amplificado por uma fotografia acinzentada e corrupta, o que acaba servindo de catalisador para os eventos que desaguariam no assassinato de Frankie Belmont (Eric Todd) na praia.

Mas chega de história, pois o importante de verdade são as atuações. Biel e Pullman são dois atores que, confesso, nunca dei a menor importância. Claro, Biel é uma bela mulher de feições nórdicas e Pullman sempre exalou simpatia extrema. Mas, em termos de latitude dramática, eles sempre deixaram muito a desejar na maioria de seus trabalhos, escorando-se muito mais em suas qualidades naturais que descrevi. The Sinner, porém, prova que os dois, com o material certo, são atores dignos de prêmios.

Biel tem um trabalho muito interessante, com sua personagem sendo construída literalmente em cima do conceito de passividade. Cora é como um barquinho de papel que flutua e segue na direção determinada pela correnteza. Ela é levada misteriosamente ao assassinato e, a partir daí, segue o caminho que Ambrose vai “varrendo” na frente dela como em um jogo de curling. Biel, portanto, não tem oportunidade para ser óbvia e nem de se apoiar em sua indubitável beleza. Ela precisa fazer da sutileza de expressões o elemento-chave de sua personagem e a atriz consegue. Do rosto crivado de rotina nos minutos que antecedem o assassinato na praia, passando pelo histerismo incontido que segue a ação e, ao longo dos episódios, a cada pequeno desenvolvimento que vai desvelando seu passado que sua personagem soterrou, Biel nos convence com seus olhos, com micro-expressões que alteram a linha de sua boca, alguns gestos de suas mãos normalmente algemadas. Não há maneirismos, não há qualquer muleta interpretativa no que ela faz, demonstrando uma riqueza muda em Biel que é um verdadeiro assombro. Mesmo nas sequências em flashback, que passam a povoar a série mais fortemente a partir do terceiro episódio, ela se mostra contida, condizente com a vida claustrofóbica que sempre viveu. Se eu tivesse que escolher meus momentos preferidos de seu trabalho, diria que as sequências em que Cora interage com sua irmã Phoebe no passado são as mais espetaculares, o que também diz muito da atriz que a vive, Nadia Alexander.

Bill Pullman não fica atrás, porém. Lidando com praticamente o único caso importante de sua cidadezinha em uma década, seu personagem imediatamente se conecta com a odisseia de Cora, tentando entender o que exatamente aconteceu, como uma mulher pode matar alguém que nem mesmo conhece assim do nada, na frente de seu marido e filho pequeno. De certa maneira, há ecos da sutileza da atuação de Biel no trabalho de Pullman, que atua debaixo de uma barba espessa, cabelo e figurinos desgrenhados, em uma clara demonstração de decadência representada também por sua tentativa de reatar o relacionamento com sua esposa ao mesmo tempo que lida com seu fetiche sadomasoquista. É um personagem complexo, de várias camadas, que poderia ser classificado até mesmo como a versão ativa para a personagem passiva de Biel, em uma conexão perfeita como a de blocos Lego. Pullman exala tristeza, dúvida, raiva e tenacidade com enorme facilidade, construindo um Harry Ambrose intrigante e detetivesco, mas também perdido e carente. As interações de Pullman com Kathryn Erbe, que vive Fay, a esposa do detetive, são absolutamente fenomenais pela química que os dois têm em cena e pela tensão causada por um passado mal resolvido do qual pouco sabemos.

A minissérie tem um passo razoavelmente lento, mesmo considerando que tem apenas oito episódios. As reviravoltas e desvios dentro do caso investigado chegam a cansar, especialmente quando entra uma policial do estado para tomar conta do caso, precipitando a ação e criando aquelas rusgas jurisdicionais que são a epítome do clichê de obras policiais. Quando o final vai se aproximando, Derek Simonds, que desenvolveu a série a partir do romance alemão, arrisca afastar o espectador, dando a entender que o caso não será completamente resolvido. Mas é apenas outro artifício para criar tensão, pois, mesmo tendo que correr desesperadamente no episódio final, o fechamento é completo e satisfatório, ainda que não 100% convincente.

The Sinner é uma minissérie que faz de um mistério um trampolim para excelentes atuações de Jessica Biel e Bill Pullman dentro de uma estrutura narrativa que, apesar de seguir a cartilha do mistério policial, oferece um vislumbre de temáticas dolorosas que se encaixam muito bem na premissa, como a opressão da mãe de Cora e Phoebe sobre as filhas e a tentativa de procurar liberdade que acaba levando a abusos e traumas. Não é uma série fácil ou particularmente fluida, mas a dupla principal faz mais do que valer todo o esforço.

The Sinner (EUA – 02 de agosto a 20 de setembro de 2017)
Desenvolvimento:  Derek Simonds (baseado em romance de Petra Hammesfahr)
Direção: Antonio Campos, Brad Anderson, Cherien Dabis, Judy Lee Lipes, Tucker Gates
Roteiro: Derek Simonds, Liz W. Garcia, Jesse McKeown, Tom Pabst
Elenco: Jessica Biel, Bill Pullman, Christopher Abbott, Dohn Norwood, Abby Miller, Jacob Pitts, Eric Todd, Danielle Burgess, Patti D’Arbanville, Kathryn Erbe, Enid Graham, Nadia Alexander,  Grayson Eddey
Duração: 43 min. cada episódio (8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.