Crítica | The Star Wars (Dark Horse Comics)

estrelas 2

Tempo (não canônico): Um pouco mais de uma década após a derrocada do primeiro Império Galáctico, protegido pelos Jedi-Bendu pelo Novo Império Galáctico, protegido pelos Cavaleiros de Sith.
Espaço (não canônico): Utapau, Aquilae, no sistema Kessel (Jundand Wastes e Gordon), Fortaleza Espacial (Novo Império Galáctico), Yavin

Sim, caro leitor. O título está correto: é mesmo The Star Wars e não só Star Wars. Trata-se de um dos últimos grandes lançamentos da Dark Horse Comics e um dos títulos mais curiosos de toda sua vastíssima biblioteca.

tsw coverE a razão é muito simples. Essa é uma adaptação do rascunho de roteiro de George Lucas, de 1974, para o que três anos depois viria ser Guerra nas Estrelas. É um mergulho na mente febril do produtor/roteirista/diretor que claramente fervilhava de imaginação e nenhuma capacidade de concatenar ideias que mantenham uma estrutura lógica. Isso mesmo que você leu: The Star Wars é o resultado de ideias regurgitadas em forma de palavras que, em seu conjunto, não passa de uma aventura galática da pior estirpe, sem pé nem cabeça.

Dito isso, porém, vale dizer que, se você é fã da franquia Star Wars, a leitura de The Star Wars é absolutamente necessária. Não se engane: a publicação continua sendo ruim em razão de um roteiro que, nessa versão, não tinha salvação, mas é fascinante ter a oportunidade de olhar para a mente de Lucas em completa ebulição e que gerou material para os três filmes clássicos e um pouco do que acabaríamos vendo também na trilogia-prelúdio. Tudo está ali dentro, mas de maneira quase amadora, displicente e relaxada; uma colagem de situações com uma infinidade de personagens mal trabalhados e de reviravoltas que simplesmente não obedecem à nenhum lógica interna.

Mas é uma leitura obrigatória.

The Star Wars tenta contar a história dos últimos Jedi-Bendu, um secto quase religioso que protegeu um Império benevolente por 100 mil anos, mas que foi dizimado com a chegada de um secto rival, os Cavaleiros de Sith, que colocaram outro Império no lugar, dessa vez, claro, maligno. O último planeta que oferece resistência é Aquilae, uma monarquia protegida pelo último grande Jedi-Bendu, o general Luke Skywalker (nessa história, Luke tem algo como 60 anos, barba e bigodes brancos, essencialmente uma versão do que viria a ser Obi-Wan Kenobi). Mas outro Jedi-Bendu, Kane Starkiller, contemporâneo de Luke e seu filho, Annikin, se juntam à luta, com Annikin tornando-se Padawan de Luke. A Princesa Leia e seus dois irmão menos gêmeos, herdeiros do trono real, são os alvos do Império, por serem um símbolos da resistência, especialmente Leia (apesar de ela não passar, aqui, de uma donzela em perigo que literalmente nada faz a não ser ser resgatada toda hora). Os Jedi-Bendu, então, têm como função primordial defender a família real e, para isso, eles se juntam a Han Solo (um ser verde parecido com o Monstro do Pântano) e ao Capitão Clieg Whitsun (sem paralelo nos filmes) para fugirem de Aquilae e das garras de Darth Vader (não é um Sith, apenas um general com rosto parcialmente deformado) e do Príncipe Valorum (esse sim um Sith de máscara, mas sem qualquer deformação).

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A família Starkiller: Annikin é o que está à esquerda.

Tem muito mais do que isso nessa confusão toda, como os androides do Império C-3p0 e R2-D2 (que fala!), Chewbacca e os Wookies em seu planeta-natal Yavin e também Owen e Beru Lars, também em Yavin. É tanto personagem que a história literalmente cansa e o leitor só não se perde pois a grande maior dos nomes ao menos é conhecida de todos.

Tentar explicar a história até o final é uma tarefa muito ingrata e, portanto, nem tentarei. Basta o leitor saber que há elementos do que acontece em Guerra nas Estrelas, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, além de, de leve, A Ameaça Fantasma por toda a narrativa. Muito sinceramente, considerando a péssima e claudicante história, é uma diversão pescar aqui e ali as referências que um dia seriam usadas nos futuros filmes.

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Apresentando Luke Skywalker!

O esforço da Dark Horse Comics em trazer o mítico “rascunho de roteiro” de George Lucas à luz é louvável. Vê-se que Lucas tentou colocar em palavras um imenso turbilhão de ideias que muito obviamente não cabiam em apenas um filme. E J.W. Rinzler, grande conhecedor da franquia Star Wars e autor de, dentre outros, fantásticos livros de bastidores sobre cada um dos filmes da trilogia original, também deu o seu melhor para transformar um roteiro impraticável em quadrinhos que fossem passíveis de leitura mais mastigada. Mas ele não conseguiu de verdade. Certamente com receio de alterar demais a ideia original, talvez até permitindo que a influência do que efetivamente foi lançado corrompesse essa versão do roteiro, Rinzler deixou quase tudo aquilo que Lucas escreveu, o que faz de The Star Wars uma leitura penosa, mas que, não cansarei de dizer, é importante para quem realmente se considera fã da franquia.

A arte ficou ao encargo de Mike Mayhew, desenhista da Marvel, D.C. Seu trabalho foi claramente hercúleo e muito interessante. No lugar de tentar reinventar tudo do zero, Mayhew trabalho com “guias visuais” a partir das inesquecíveis artes conceituais seminais de Ralph McQuarrie e também de Joe Johnston e Colin Cantwell. Com isso, ele já partiu de versões pré-filme consagradas de muitos personagens, especialmente os dois androides (C-3p0 é muito mais próximo da versão do androide de Metrópolis, fonte de inspiração de McQuarrie) e o Luke mais velho e militarizado, além de Kane e Annikin Starkiller.

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Dou um doce para quem adivinhar os nomes…

Acontece que as artes conceituais não foram o suficiente. Darth Vader como no roteiro de Lucas não havia sido desenhado. A versão de McQuarrie para ele já é muito próxima da versão final e isso deixou Mayhew um tanto quanto sem saída. Sua solução foi simples e elegante: puxou elementos do Darth Vader como o conhecemos e alterou aqui e ali de maneira que ele tivesse seu toque pessoal. O resultado saiu muito interessante e, arriscaria dizer, talvez até melhor do que o original.

Mas Mayhew também bebe diretamente dos filmes, ao reproduzir quase integralmente a Estrela da Morte (no roteiro, não é necessariamente uma “pequena lua”), a cidade real de Aquilae, que é igual a Naboo, os tanques flutuantes, iguais aos que vemos em A Ameaça Fantasma e assim em diante. Com isso, ele consegue dar um ar de familiaridade ao visual de The Star Wars que ajuda na digestão da história truncada. Em suma, um dificílimo trabalho de adaptação artística que demonstra a dedicação do artista ao material fonte.

The Star Wars não vai divertir o leitor, mais vai educá-lo sobre as origens dessa amada franquia. E, só por isso, já merece o investimento.

The Star Wars (Idem, EUA – 2013/14)
Roteiro: J.W. Rinzler
Arte: Mike Mayhew
Cores: Rain Beredo
Letras: Michael Heisler
Data original de publicação: oito edições, de setembro de 2013 a maio de 2014
Publicação no Brasil: não lançado à data de publicação da presente crítica
Editora (nos EUA): Dark Horse Comics
Páginas: 184

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.