Crítica | The Strain 1X01: Night Zero

estrelas 3,5

Ao ler Noturno, o livro escrito por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, que deu origem à série em questão, lembro-me de ter sido cativado pelo seu forte suspense, presente desde as primeiras páginas. Para qualquer um que tenha lido minimamente sobre o que o livro se trata era óbvio que estávamos diante de um romance sobre vampiros, ainda assim, suas palavras evitavam ao máximo tornar tal fator óbvio. Recebíamos pequenas revelações em doses homeopáticas, fisgando cada vez mais a nossa curiosidade, chegando ao ponto de esquecermos que, no fundo, sabemos com o que os protagonistas estão lidando.

Quando a narrativa de Del Toro e Hogan, originalmente criada para a televisão, chega às telinhas, podíamos esperar algo muito similar ao livro e sua linguagem completamente “roteirizável”, principalmente quando levamos em consideração que os próprios escreveram o primeiro episódio e Guillermo ainda o dirigiu. E já digo que os fãs não irão se decepcionar. Antes de adentrarmos nos êxitos da obra, contudo, vamos retroceder à trama: um avião proveniente de Berlim pousa no aeroporto JFK em Manhattan. Alertas, porém, são levantados quando o veículo sai de seu curso de desembarque e simplesmente é desligado, apagando todas as suas luzes e sendo deixado em completo silêncio, embora conte com mais de duzentos passageiros.

A partir desse ponto, acompanhamos o Dr. Ephraim Goodweather (Corey Stoll, o Peter Russo de House of Cards), que encabeça a equipe do CDC, responsável por conter uma possível infecção à bordo do avião. Night Zero consegue captar toda a tensão criada pelos dois autores, apoiando-se fortemente no desconhecido, no suspense criado através do pouso da aeronave. Com uma narrativa tipicamente serializada, composta de diferentes subtramas que se encaixam, Del Toro e Hogan nos dão pequenos relances do plano geral, já integrando a este risco de epidemia uma grande conspiração. São nestas revelações que o roteiro dá seu primeiro deslize, nos mostrando, logo nas cenas pré-abertura, a criatura causadora de toda aquela problemática, caindo no risco de praticamente arruinar todo o restante do episódio.

A narrativa, porém, rapidamente se recupera, tirando aquela cena inicial indesejada de nossa mente, remetendo à característica tensão da obra. A experiência de Del Toro aqui é definidora para a progressão da trama. Seu extenso trabalho no gênero de terror/suspense afeta a série em questão, que conta com a mesma linguagem, fazendo um efetivo uso do silêncio que é cortado bruscamente por sons mais elevados (em geral ambientes) ou notas musicais repentinas. Novamente chegamos ao desconhecido tão definidor para nossa imersão, que, novamente, é quebrado por mais uma cena reveladora, ainda prematura dentro da trama.

Estamos no meio do episódio e tal sequência nos remete ao deslize cometido nos primeiros minutos. O resgate, dessa vez, vem através de Corey Stoll, que novamente rouba as cenas com seu evidente talento. O ator nos entrega um forte protagonista e, principalmente, um que conseguimos acreditar, mesmo diante das notáveis adversidades apresentadas. Aliado a seu personagem, temos a figura de Abraham Setrakian, vivido pelo também talentoso David Bradley, o equivalente de Van Helsing nesta história de vampiros. Neste ponto, entramos em um lado interessante e único da narrativa de The Strain. Enquanto Ephraim representa o lado científico da série, ampliado pela aparição dos parasitas, Setrakian é a representação de seu lado oculto, o mito, nos remetendo ao velho mundo e, é claro, ao clássico de Bram Stoker.

Infelizmente, dizer que todos os atores nos trazem fortes representações seria um equívoco. Aqui refiro-me ao lado da conspiração já citada anteriormente. Trata-se de uma subtrama praticamente forçada goela abaixo do espectador, contando com personagens demasiadamente vilanescos, que muitas vezes nos lembram uma versão levemente modernizada de Bela Lugosi em seu famoso papel. É um lado do episódio desnecessário, que poderia ter sido revelado através da figura potente do protagonista.

Todos esses deslizes, contudo, não tiram a força da narrativa de Night Zero, que, no fim, é um ótimo episódio de abertura para The Strain. Sua duração estendida poderia ser reduzida através dos cortes das cenas citadas acima, mas, em nenhum ponto, ela chega a cansar o espectador. A imersão é garantida e deixará qualquer um preso do início ao fim. Vamos esperar que os defeitos sejam corrigidos ao longo da temporada e torcer pelo investimento no forte suspense da obra.

The Strain 1X01: Night Zero (EUA, 2014)
Showrunner: Carlton Cuse
Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo Del Toro, Chuck Hogan (baseado no livro Noturno)
Elenco: Corey Stoll, Sean Astin, David Bradley, Adriana Barraza, Natalie Brown, Francis Capra, Lance Henriksen
Duração: 70 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.