Crítica | The Swapper

estrelas 5,0

The Swapper é um daqueles jogos que passam despercebidos por muitos jogadores mas que merece menção especial. Misturando plataforma e puzzle, esse game do estúdio independente Facepalm Games é uma obra-prima em sua simplicidade, originalidade e provocação.

A história segue um astronauta em uma espécie de estação de pesquisa buscando saber o que lá aconteceu. Destruída e escura, é nela que o protagonista encontra, logo no início, uma espécie de arma/traje que cria clones seus, indispensáveis, a partir dali, para chegar ao final do jogo.

Todo o puzzle do jogo consiste em coletar gemas que o permitem avançar na história, e para coletá-las, evidentemente, deve-se usar e abusar dos clones criados. A possibilidade de trocar de um corpo para o outro, seja na terra ou seja em meio a um pulo, pode parecer facilitar tais desafios. Mero engano. Não raramente parei de jogar por raiva de não conseguir conceber como se passava de tal situação…para poucos minutos depois voltar, já que o quebra-cabeça não saía de minha cabeça.

Jogos assim são especiais. Entram no mundo do jogador a um ponto que o envolvimento na história ali narrada é de suma importância. No caso de The Swapper, a ambientação pode ser responsabilizada por grande parte dessa sensação. Lembrando Alien – O Oitavo Passageiro, pelo suspense e quietude da locação, o jogo te surpreende com uma paleta de cores predominantemente escura, mas que traz belos jardins, por vezes, quando menos se espera. O jogo de sombra e luz faz o jogo todo parecer um quadro. O jogador parece sentir a angústia e opressão do personagem, e, nesse sentido, essa obra de plataforma assemelha-se a outro clássico recente, um pouco mais leve: Child Of Light.

A trilha sonora, sombria e grave, dá um tom tenso ao jogo, contrastando com os momentos de calma onde é preciso pensar para sair da complexidade que o jogo te propõe. O encaixe é ótimo e a vontade de continuar jogando até o próximo desafio surgir se torna grande, por mais difícil que tenha sido o último.

A jogabilidade é simples e, nessa simplicidade, consegue ser original. A ideia de trocar de corpo para um dos seus clones é explorada muitíssimo bem ao longo da experiência. Os desafios aumentam e as travas também, fazendo com que cada passo do personagem seja decisivo, literalmente. Do mesmo modo, a rapidez e a intuição, treinadas ao longo desse jogo curto, ficam cada vez mais afiadas para desafios cada vez mais complicados.

Um dos pontos mais interessantes está na própria história, misteriosa até o fim e fragmentada em computadores descobertos durante o gameplay. Esse tom obscuro fica um pouquinho mais assustador ao se passar por rochas que deixam a tela preta e nos mostram uma frase, como se fosse um pensamento delas próprias – Life is worth living at any cost. I still feel myself. A mind is not only a brain. Esses momentos instigam o jogador e dão margem à algumas reflexões referentes ao próprio jogo, que vai se mostrando mais do que parecia ser em todos os sentidos.

O final do jogo é um dos mais belos que já tive a chance de ver.  E o melhor: coloca nas mãos do jogador o destino de um personagem que, àquela altura, já possui uma intensa relação de companheirismo.

As rochas pensadoras, o caráter de identidade existente na relação do astronauta com seus clones, a escuridão sufocante e os puzzles inteligentíssimos, que unem uma jogabilidade original com a esperteza do jogador, dão a The Swapper um caráter quase único. Lançado em maio de 2013 para Windows e chegando somente nesse ano para Mac, Linux, PS3, PS4, PSVita e WiiU, esse jogo independente é uma ótima oportunidade para sair do mainstream dos games e sentir um jogo de vídeo game de uma forma mais intimista.

The Swapper
Desenvolvedor: Facepalm Games
Lançamento: 30 de maio de 2013
Gênero: Plataforma/Puzzle
Disponível para: PC, PS4, PS3, PSVita e WiiU

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.