Crítica | The Terror – 1X01 e 1X02: Go For Broke e Gore

1X01: Go For Broke

1X02: Gore

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e, aqui, a crítica do livro. 

Inicialmente tratada como uma minissérie e depois estranhamente mencionada como sendo uma série com estrutura de antologia, The Terror é baseada no livro homônimo de Dan Simmons que, por sua vez, é a versão ficcional da Expedição Franklin, liderada por Sir John Franklin, que zarpou da Inglaterra em 1845 com dois navios, o Erebus, comandado diretamente por ele e o Terror, capitaneado por Francis Rawdon Moira Crozier com o objetivo de descobrir e desbravar a chamada Passagem Noroeste, que liga o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico pela calota polar ártica.

Basta dizer, porém, que foi o norueguês Roald Amundsen quem primeiro completou a referida passagem entre 1903 e 1906. A Expedição Franklin não só fracassou como desapareceu completamente, com os destroços do Erebus somente sendo achados em 2014 e os do Terror em 2016. O romance de Simmons tenta explicar o que, além do gelo, fome, doença e desespero pode ter matado toda a tripulação, em uma pegada que carrega a história para o lado do horror clássico.

Apostando em mais uma série no veio de horror, então, a AMC, que já vinha anunciando a série pesadamente há algum tempo como estreando dia 26 de março, de surpresa levou ao ar o primeiro episódio da série um dia antes, logo após a exibição do episódio 8X13 de The Walking Dead. No dia seguinte, então, veio a transmissão novamente do primeiro episódio, Go For Broke, seguido do segundo, Gore.

Essa transmissão seguida dos dois episódios foi uma escolha mais do que acertada em razão da estrutura da série, prometida para ter 10 episódios contando a integralidade da história da expedição segundo a visão de Simmons. Afinal, como fica muito claro em Go For Broke, algo que é um bem-vindo, mas perigoso, espelhamento do livro, The Terror é uma obra de queima lenta, talvez extremamente lenta. O primeiro episódio, sozinho, nem mesmo deixa claro que estamos vendo uma série de terror, parecendo mais um drama sobre a expedição apenas. Mas é aí que repousa o charme do livro e, aparentemente, da série, já que nos permite tempo para apreciar as interações do afiado elenco e o espetacular design de produção.

Começando pelo fim, Go For Broke estabelece que a expedição de Sir John Franklin está perdida e que esforços estão sendo empregados para achá-la quatro anos depois, por intermédio de uma entrevista com um esquimó que reconhece a fotografia do comandante Crozier. Sem perder tempo, então, voltamos não para o começo da expedição, mas sim para um ponto já razoavelmente avançado em sua evolução quando o frio incomum começa a dificultar a navegação do Erebus e do Terror. O clima tenso e opressivo é onipresente, apesar das belíssimas, mas enganosas paisagens geladas que cercam impiedosamente os dois navios. A direção de Edward Berger é muito eficiente em imediatamente estabelecer uma impressão claustrofóbica, perigosa, mesmo considerando a fotografia em planos abertos magníficos de Florian Hoffmeister, começando com um plongée de tirar o fôlego focado nos dois navios bem distantes cercados de gelo ainda em pedaços razoavelmente pequenos seguido de um belo passeio instrutivo – mas nunca didático – sobre a estrutura dos navios e, também, pela acentuada divisão de classes entre oficiais e não-oficiais.

Essa divisão porém, existe também entre oficiais, notadamente entre os dois capitães, algo que é, essencialmente, o foco do primeiro episódio. Nesse ponto, o embate é de gigantes. De um lado, o aristocrático, presunçoso e otimista Sir John Franklin, vivido pelo sempre excelente Ciarán Hinds que foi paramentado com uma “barriga de chopp” para acentuar o ar bonachão e despreocupado do comandante da expedição. Em choque direto com ele, temos o irlandês (e, portanto, automaticamente “inferior” na hierarquia britânica da época) Francis Crozier, vivido por Jared Harris, com sua visão séria e pragmática da situação em que se encontram, o que o leva a pedir que o Erebus, que está com um problema em sua hélice, seja abandonado e que toda a tripulação do navio se aglomere no Terror para que eles façam um “tudo ou nada” ou o go for broke do título, para evitar que eles fiquem paralisados no gelo. É claro que o orgulhoso Franklin acha até “interessante” (daquele jeito arrogante) a proposta e a ignora completamente, seguindo a missão como originalmente planejado. Logicamente que Crozier estava certo e os navios acabam completamente congelados.

A maestria do roteiro de David Kajganich fica evidente quando ele usa esse conflito de ideias para basicamente apresentar ao espectador a complexidade da situação em que eles estão sem a necessidade de textos expositivos. Simultaneamente, ele estabelece a tensão, algo que a direção de Edward Berger amplifica com uma arquitetura sonora agoniante em que o ranger dos navios é um elemento kafkiano de suspense ao lado do design de produção que cria a divisão hierárquica com figurinos realistas, mas que mesmo de longe deixam evidente o abismo que existe entre as classes e entre os capitães, algo refletido também nas cabines de cada um. A escuridão interna se choca com o branco do exterior, criando um contraste forte que sugere uma dicotomia que, na verdade, não existe. Afinal, o branco do gelo representa a morte da mesma maneira que o marrom do interior, com tripulantes falecendo tanto ao cair dos mastros quanto por tuberculose e arriscando a vida em mergulhos assustadores com escafandro. E isso sem que o roteiro sequer introduza algum elemento efetivamente externo.

Somente em Gore é que começamos, muito discretamente, a entender que há algo mais nessa história e é por isso que achei prudente a transmissão dos dois primeiros episódios no mesmo dia. O espectador que esperar o lado do “terror tradicional”, encontrará um pouco somente aqui, enquanto que quem espera algo mais compassado – e sim, lento – provavelmente aproveitará melhor a série. Sem tempo para perder, a história imediatamente pula para oito meses depois, com os dois navios ainda completamente paralisados em pleno oceano congelado. O branco impera por todos os lados sem alternativas visíveis. Crozier, muito claramente, graças à interpretação introspectiva, mas cheia de significados de Harris, está frustrado pela situação completamente sem saída em que se encontram. Por outro lado, Franklin, sempre apoiado por seu imediato James Fitzjames (Tobias Menzies), continua demonstrando otimismo mesmo entre apenas os oficiais. É como se o inferno branco ao seu redor fosse uma mera inconveniência.

Missões de reconhecimento são enviadas para todos os lados e o roteiro, agora de Soo Hugh (o segundo showrunner) segue uma delas, liderada pelo tenente Graham Gore (Tom Weston-Jones) e composta também pelo anatomista – que faz vezes de cirurgião – Henry Goodsir (Paul Ready). A natureza mais humana de Goodsir já havia sido estabelecida em Go For Broke e é pelos olhos dele que vemos esse pequeno grupo rebocando um trenó com um bote em cima que tem os objetivos de achar mar aberto e depositar uma carta de posicionamento em um lugar específico para permitir o acompanhamento da expedição pela Marinha Britânica, caso o resgate seja necessário. É também por meio da câmera subjetiva do diretor, a partir da perspectiva de Goodsir, que temos o primeiro vislumbre do que pode ser o grande mistério da série: uma criatura que ataca e, aparentemente, mata Gore em um flash de milissegundos. Seria apenas um urso polar particularmente violento ou algo mais?

Ainda que não tenhamos resposta, os esquimós que o grupo acha minutos antes do ataque, que leva um deles a ser baleado mortalmente, parecem guardar um segredo, algo que fica mais claro na breve interação entre pai e filha no leito de morte do primeiro, já de volta ao navio. É interessante como mais uma vez vemos o roteiro dar muita ênfase na divisão de classes, com os britânicos – à exceção de Goodsir e Crozier – tratando os nativos como seres inferiores, com o médico chefe até mesmo se recusando a tratar o moribundo senhor esquimó. O episódio, então, acaba com um aviso misterioso da esquimó para o capitão do Terror, que funciona como um belo cliffhanger para o que está por vir.

Para além da história macro, Gore é particularmente feliz em estabelecer subtramas que poderão ser desenvolvidas ao longo da temporada. Vemos a relação estranha entre o oficial John Irving (Ronan Raftery) e o subalterno Cornelius Hickey (Adam Nagaitis), depois que o primeiro pega o segundo em um flagra suspeito em um dos conveses do navio. Há um claro estremecimento entre os dois e Nagaitis consegue imprimir um tom no mínimo estranho ao seu personagem que consegue encetar uma boa relação com Crozier em razão da origem irlandesa de ambos. Da mesma forma, breves flashbacks para antes da expedição costuram melhor a relação entre os capitães, mostrando que há algo mais entre eles do que apenas a deferência natural que um deve ter pelo outro.

Os dois episódios iniciais de The Terror são ricos em sutilezas e no estabelecimento da premissa da série que, sob o comando duplo de David Kajganich e Soo Hugh não parece ter muita pressa em apresentar desdobramentos imediatos. A atmosfera criada nesse contexto é tensa e muito bem trabalhada por cada elemento da composição narrativa, especialmente o excelente elenco e o irretocável design de produção, além de edição e mixagem sonoras que mantém o espectador atento a cada pequeno barulho gerado pelos navios sendo comprimidos pelo gelo. Mas sem dúvida é uma obra que exige paciência do espectador que porventura prefira sua série de terror de uma forma mais, digamos, tradicional.

Obs: Nunca havia assistido nada no canal AMC Brasil. Essa foi minha primeira vez e sinto dizer que a experiência foi péssima. Não só o som é todo picotado (em inglês ou em português, pois fui alternando para ver se melhorava e nada) como eles não oferecem legendas em português e, pior do que isso, enchem os episódios de irritantes intervalos comerciais que quebram completamente a tensão e a imersão. Realmente patético.

The Terror – 1X01 e 1X02: Go For Broke e Gore (EUA – 26 de março de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Edward Berger
Roteiro: David Kajganich (1X01), Soo Hugh (1X02)
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones
Duração: 46 min. (1X01), 60 min. (1X02)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.