Crítica | The Terror – 1X04: Punished, as a Boy

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A aurora boreal esverdeada dominando o céu polar e o sol visto baixo no horizonte gelado por alguns segundos contrastam fortemente com a brutalidade de Punished, as a Boy, talvez o episódio que mais claramente tenha mostrado as facetas monstruosas do Homem, deixando o parente do Wampa quase que como o menor dos problemas cozinhando nos conveses do Terror e do Erebus. Talvez a única alma genuinamente boa que podemos pinçar deste banho de sangue seja o Doutor Harry Goodsir, mas sua voz não tem força na inclemência da natureza e da (falta de) humanidade que o cerca.

Reparem como, surpreendentemente, o episódio começa não com um flashback, mas sim com mais um pulo para o futuro, cinco meses a frente dos eventos de The Ladder, mas não no gelo e sim na Inglaterra, com Lady Jane (Greta Scacchi), esposa de Sir John Franklin, veementemente clamando à junta da Marinha Britânica para que um resgate seja imediatamente montado, somente para ser recebida com desdém e, no máximo, uma promessa de que, se até 1850 (eles estão ainda em 1847!), ninguém ouvir da expedição, eles farão tudo para salvar seu marido e os demais. Apesar das cores quentes e reconfortantes da fotografia, trata-se de uma sequência aterradora a seu próprio modo e certamente angustiante, pois a indignação de Lady Jane é palpável, algo que é multiplicado pelo conhecimento que nós, espectadores, temos do destino de seu marido, morto violentamente pelas garras de uma criatura aparentemente sobrenatural.

Quando vem o corte, depois que Lady Jane diz à Sophie Cracroft (Sian Brooke) que ela mesmo tentará financiar o resgate, somos levados diretamente para o Terror, na cabine do agora comandante geral da expedição Crozier, em uma tomada que já estabelece a situação complicada do navio, completamente adernado na montanha de gelo que o prende. A situação do capitão permanece a mesma, com sua fuga na direção da bebida continuando fortemente, algo que entendemos ainda melhor no flashback um pouco mais para a frente, para o momento em que ele, desesperado, tenta convencer Sophie, o amor de sua vida, a desposá-lo. Se Sophie tenta ser política ao máximo possível, a reação de Lady Jane é terrível e fria, algo que, claro, ajuda a construir o momento presente de Crozier, que vê na expedição sua esperança (vã) de finalmente ganhar a mão da moça.

Nesse vai e vem do roteiro, escrito pelo showrunner David Kajganich, temos um excelente exemplo de circularidade narrativa, com eventos do passado e do presente na “civilização” ecoando fortemente no presente gélido perdido no meio do nada com coisa nenhuma. É kafkiano e claustrofóbico ao limite, passando a clara e evidente mensagem de que não há saída para ninguém ali na Expedição Franklin.

Isso fica ainda mais evidente na arquitetura sonora da série e que é particularmente importante neste episódio, com o ranger da madeira dos navios sendo onipresente, dando a sensação de que eles estão em cascas de ovos sendo lentamente esmagados pelas irresistíveis forças da natureza ao redor. Mesmo no branco, mas escurecido exterior banhado pela aqui ameaçadora Aurora Boreal, que faz tudo parecer um outro planeta em uma série de ficção científica, o som é importante, com os estalos do gelo como trovões ao redor de todos, como se eles estivessem em um campo de batalha sem qualquer chance de defesa.

Diante desse pesadelo, a presença invisível do monstro é como uma catarse explosiva. Aquele medo por que todos passam acaba repentinamente em meio à precisão literalmente cirúrgica do monstro que faz uso de iscas para dividir grupos e de terror psicológico com ataques repentinos e, pior ainda, a devolução de um corpo frankensteiniano, com metade de uma pessoa e metade de outra. As tripulações dos navios não estão diante de um animal irracional apenas, mas sim de uma criatura de extrema astúcia.

Mas o mais astuto dos animais é o Homem, não é mesmo? O mesmo Homem que brutalmente arrasta uma esquimó para o navio, quase linchando-a sob acusações genéricas de que ela teria ligação com a criatura (mesmo que seja isso o que inevitavelmente pareça). Aqui, os verdadeiros monstros aparecem e eles não têm pelos brancos nem garras afiadas como katanas. São astutos, mas dissimulados como Cornelius Hickey, são duros e incapazes de perdão como Francis Crozier, são frios e distantes como a já citada junta da Marinha Britânica ou como o cirurgião-chefe da expedição que trata o cérebro à mostra de um paciente com um “pudim”.

E, claro, tudo leva inexoravelmente ao antagonismo mais forte que se forma entre Crozier, inclemente em sua punição, e Hickey, solene e rancoroso ao recebê-la. A câmera de Edward Berger, durante a sessão de chicotadas “como em um menino” em Hickey, começa com ângulo baixo e close-up extremo, deixando-nos ver o jovem transformando-se fisicamente ao longo da punição, em uma belíssima atuação de Adam Nagaitis que me lembrou muito as chicotadas que o personagem do então desconhecido Denzel Washington leva no sensacional Tempo de Glória e que lhe valeu o Oscar de Ator Coadjuvante. Aos poucos, Berger altera o ângulo, deixando-nos ver o rosto de Crozier também transformado em uma espécie de máscara de vingança incontida e, devemos concordar, desproporcional, e, pior ainda, os rostos dos demais tripulantes quando as chicotadas começam a tirar sangue das nádegas de Hickey, claramente levando-os para o lado do desobediente colega, algo materializado depois pela escolha maciça em saírem do Terror e irem ao Erebus, por “segurança”.

Se a fotografia exterior do episódio flertava como enquadramentos claramente inspirados nas obras de William Turner, no interior escurecido dos navios vemos outros trabalhos vindo à luz (ou à falta de luz), notadamente os do holandês Rembrandt. O cuidado de Florian Hoffmeister nesse quesito é de tirar o fôlego, já que ele consegue fazer do feio o bonito, do horrível, o quase romântico, por vezes até fazendo-nos esquecer da trama para observar os detalhes da iluminação e das cores ou fazendo-nos voltar sequências com o mesmo objetivo.

Punished, as a Boy reitera o caráter (des)humano de The Terror e arranca tensão não de momentos de grafismo explícito repletos de sangue e tripas, mas sim dos pequenos detalhes visuais e sonoros que vão engrandecendo a atmosfera pesada e claustrofóbica desse primor de série. Não há nada melhor do que começar a assistir um episódio e ficar frustrado por ele acabar um piscar de olhos depois…

The Terror – 1X04: Punished, as a Boy (EUA – 09 de abril de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Edward Berger
Roteiro: David Kajganich
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones, Greta Scacchi, Sian Brooke
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.