Crítica | The Terror – 1X05: First Shot a Winner, Lads

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e, aqui, a crítica do livro. 

Por mais que a presença sinistra do agora nomeado e mais claramente monstruoso Tuunbaq seja algo muito presente em The Terror, a minissérie da AMC baseada no calhamaço homônimo de Dan Simmons é muito mais do que isso em praticamente todos os quesitos. Trata-se de um produto para TV que, ao que tudo indica, será consolidado como algo superior, um pouco acima da maioria das ótimas obras que são lançadas por aí, ficando em um grupo seleto, uma espécie de panteão de série, mesmo que seu alcance seja reduzido em termos de público.

E nem quero dizer, com isso, que é algum tipo de obrigação intelectual gostar de The Terror. Gosto é subjetivo e há muito o que fazer quando uma série não se conecta com alguém. Cansou de acontecer comigo e sei muito bem como é. Mas, mesmo aqueles que porventura não estejam apreciando o trabalho desenvolvido por David Kajganich e Soo Hugh provavelmente concordarão no cuidado estético da produção que, mesmo trabalhando em espaços confinados – e aqui incluo o exterior nevado, pois a abordagem é sempre claustrofóbica e kafkiana – não hesita em cuidar dos mínimos detalhes de cada ambiente, sejam as cabines dos capitães Crozier e Fitzjames (repararam as cordas segurando a mesa de Crozier?), sejam os conveses nevados e convertidos em “cabanas” ou os figurinos cada vez mais puídos e desarrumados de cada tripulante. É como um bombardeio sensorial – no bom sentido e não no sentido Michael Bay da expressão – que traga o espectador para esse ambiente frio e aterrador em uma verdadeira aula de imersão cenográfica.

O ataque do Tuunbaq ao Terror e a subsequente perseguição do valente Blanky, que fora despachado ao convés por um amargo (e bêbado) Crozier, é um exemplo claro desse impressionante cuidado. Na fuga desesperada do personagem para cima, o único lugar disponível para ir, vemos o intrincado emaranhado de madeira, cordas e neve que é o navio, em uma sequência longa que nos dá uma visão assustadora do local em lenta adernação e da literal bagunça – aos nossos olhos – da disposição dos elementos cenográficos, passando-nos a exata impressão de espaço vivido, que nos convence imediatamente. Talvez os mais críticos possam reclamar, com uma certa razão, diria, da qualidade do CGI para dar vida ao monstro, que aparece aqui em mais detalhes do que em qualquer outro episódio, ainda que ainda sensacionalmente fundindo-se com o ambiente gelado ao redor. No entanto, mesmo aqueles que porventura tenham torcido o nariz para os efeitos, o mais importante não é a criatura e sim a situação e ela é muito bem preparada e, depois, explorada.

Afinal, quando o episódio começa, vemos um Erebus lotado depois que os problemas com o Terror e, especialmente, com Crozier, levaram à migração de maior parte da tripulação para lá. Fitzjames está inquieto, mas mantém a linha dura que é sua forma de se agarrar a algum semblante de civilização. Sua oposição a Crozier é incontida e ele não consegue mais nem de longe disfarçar aquilo que sente. Por outro lado, Lady Silêncio (que não é nada silenciosa, aliás…) passou a ser uma figura estranhamente reverenciada pela tripulação, como as pequenas oferendas deixadas pelos homens ali em seu “canto” evidenciam, algo que inquieta o capitão, que, ato contínuo, a manda para Crozier. No entanto, o sempre bondoso Goodsir (até seu nome indica sua personalidade!) vem usando seu tempo para aprender a língua dos esquimós, não só para ganhar a confiança da mulher, como, também, para tentar apreender sobre o Tuunbaq, mesmo que ainda sem sucesso. Com isso, Goodsir vai junto de Lady Silêncio para o Terror.

E é lá que um violento e desenfreado Crozier, cada vez mais entregue à bebida em uma poderosa atuação de Jared Harris, pressiona Silêncio e aprendemos não só o nome da criatura, como, também, que ela não tem controle algum sobre o bicho, apesar da crença comum em contrário. A explosão do capitão da expedição, que permite que a esquimó perceba exatamente quem ele é, catalisa a sequência no convés que já abordei que, por sua vez, leva Crozier a repensar seu vício, a perceber que ele simplesmente não tem condições mais para liderar absolutamente nada. Sua reunião com Fitzjames, Jopson, McDonald e Little em sua cabine é um momento doloroso, um reconhecimento de fraqueza, mas, ao mesmo tempo, uma demonstração de força. Afinal, não é todo mundo que, mesmo afetado pela névoa do vício, consegue olhar além e dizer para não o tirarem de lá, e isso depois de passar o comando geral para Fitzjames e de seu navio a seu imediato e de entregar sua pistola, para que nem o suicídio seja uma opção. O capitão terá semanas de trevas pela frente, certamente um tempo muito superior ao que Ulisses teve que passar amarrado ao mastro de seu navio para ouvir o canto das sereias.

Por fim, as subtramas lidando com o cada vez mais sinistro Cornelius Hickey e com a comida enlatada ganham desenvolvimento. No primeiro caso, Hickey, depois de sem sucesso tentar encantar Goodsir e de com bastante sucesso colocar Gibson como seu espião depois de suborná-lo com o mesmo anel que Goodsir se esquecera de pegar do corpo do jovem morto por tuberculose no primeiro episódio (repararam a beleza da circularidade do roteiro?), consegue, ainda, deixar o poderoso Magnus Manson devendo-lhe um favor, o que já delineia um motim ou algo semelhante em futuro próximo. Em relação à comida, vemos Goodsir desconfiar de envenenamento provavelmente razão dos enlatados, algo que o macaquinho do finado Sir John provará ou não como verdade (impossível não lembrar do macaco em Caçadores da Arca Perdida).

First Shot a Winner, Lads, é mais um episódio vencedor de The Terror, marcando a metade da temporada. O futuro certamente não reserva nada bom para as tripulações presas nesse irresistivelmente belo e meticulosamente bem feito inferno gelado.

The Terror – 1X05: First Shot a Winner, Lads (EUA – 16 de abril de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Sergio Mimica-Gezzan
Roteiro: Josh Parkinson
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones, Greta Scacchi, Sian Brooke
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.