Crítica | The Terror – 1X06: A Mercy

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e, aqui, a crítica do livro. 

Com muita propriedade, Karen Han, redatora do Vulture.com, escreveu o seguinte na abertura de sua crítica de A Mercy (aqui, no original):

O elenco de The Terror é tão cheio de talentos que é quase criminoso. A série é basicamente uma garagem cheia de carros de luxo que nós só podemos acessar por uma hora a cada semana, pelo que é impossível registrar com propriedade cada personagem na duração de apenas um episódio.

É exatamente assim como eu me sinto a cada maldito episódio da série. Tenho à disposição uma coleção de carros maior e melhor do que as de Bruce Wayne e Tony Stark juntos e mal tenho tempo de dar uma volta no quarteirão com cada um deles. Chega a ser torturante e, ao mesmo tempo, absolutamente enriquecedor. Ninguém, absolutamente ninguém do elenco está ali no automático, vivendo seu personagem sem que sintamos por trás seu sua hierarquia, seu passado e, claro, seu tormento e não há espaço hábil para o desenvolvimento de cada um deles de maneira que seria a ideal.

Estranhamente, porém, não quero dizer com isso que acho que a minissérie deveria ser mais longa do que é. Bons showrunners comandam boas equipes de roteiristas que sabem ser cirúrgicos em seus textos e é este exatamente o caso desta produção da AMC, mais uma entre tantas do canal que já merece figurar no panteão das melhores dos últimos 10 anos (olhem para trás e enumerem a quantidade de séries brilhantes que têm o logo da empresa nos créditos). E não, não acho um exagero essa afirmação mesmo considerando que ainda faltam quatro episódios para ela acabar, pois o esmero do elenco, design de produção, fotografia e direção basta para deixar isso muito claro, como já afirmei nas críticas anteriores.

Feita a devida “rasgação” de seda de praxe sobre a série em geral, cabe ressaltar um aspecto negativo em A Mercy que me incomodou especialmente por ser a base para o grande momento do episódio: o enlouquecimento do Dr. Stanley, vivido por Alistair Petrie. Sua natureza estoica, mas absolutamente desagradável como médico-chefe da expedição já havia ficado clara desde o primeiro episódio, algo mais claramente materializado pela forma como ele sempre trata o sempre simpático e solícito Dr. Goodsir, começando por sua recusa em endereçá-lo como “doutor” e continuando com sua postura de nariz em pé para absolutamente tudo que seu colega faz e diz. Mas é lógico que sua postura pretensamente nobiliárquica e “superior” fica ainda mais evidente no tratamento dos marinheiros subalternos tanto em conversas prosaicas (que ele evita sempre que pode) quanto – e especialmente – no tratamento médico frio e distante ministrado por ele.

No entanto, sua entrega drástica ao desespero e desesperança, catalisada pelo diagnóstico do Dr. Goodsir sobre o envenenamento por chumbo causado pela comida enlatada (graças às suas experimentações com o macaquinho do finado Sir John) não me pareceu algo identificável, mesmo em retrospecto. Que fique claro, porém, que não estou cobrando, aqui, um desenvolvimento que mostrasse o Dr. Stanley caminhando em direção ao precipício ao longo dos episódios. Nada disso. Mas os sinais para esse seu traço, para essa sua fraqueza ficaram talvez escondidos demais debaixo de sua distância e do razoavelmente pouco tempo de tela que ele teve. Não que um mergulho radical nas profundezas da psiquê precise de sinais claros para que ela seja justificada no mundo real, lógico, mas, narrativamente, teria sido mais suave se esse niilismo assassino e auto-imolador do Dr. Stanley tivesse sido precedido de algumas pistas ao longo dos episódios anteriores, de forma a tornar toda aquela desgraça algo que pudéssemos, em retrospecto, afirmar que era realmente algo possível de acontecer.

De toda maneira, dois elementos em A Mercy apontam para o drama na neve: o depoimento de Blanky para o capitão Fitzjames sobre a expedição anterior de que fez parte, liderada por Sir James Ross e a conversa entre Collins e o Dr. Stanley. No primeiro caso, ouvimos um relato assustador do “mestre do gelo” do Terror sobre a negritude da alma humana em situações limítrofes. É, sem dúvida, um prelúdio do que está por vir, mas algo em particular que ele afirma se sobressai e se encaixa no que veríamos logo adiante. Blanky diz, a certa altura, que o homem às vezes é movido por “uma escuridão que não pode ser navegável” (tradução livre). Esse ponto de interrogação que ele coloca sobre a motivação do Homem dá um pouco de estofo à transformação do Dr. Stanley.

No caso de Collins, o discurso é mais direto, já que, procurando o Dr. Goodsir, ele acaba confidenciando ao médico-chefe que ele vem tendo pensamentos estranhos, que ele não controla. Estamos falando da primeira metade do século XIX e a psiquiatria era um ramo ainda em desenvolvimento e, como tudo em seu começo, era mal visto pelos médicos “de verdade”, o que é a exata reação do Dr. Stanley ao prescrever um singelo “vá a festa se divertir que tudo passará”. Claro que a ironia é muito presente ali, já que Stanley simplesmente não consegue cogitar ter problemas semelhantes aos de Collins, mas essa recusa em sequer imaginar algo assim é um fator que, se não contribui para o que acontece, pelo menos narrativamente estabelece um contexto.

O fogo em si é também irônico, pois morrer queimado em pleno frio polar mortal  e ainda por cima fora do claustro dos navios é tão provável quanto morrer pela queda de um meteoro, provando que a presença do Tuunbaq é quase que apenas alegórica, como uma encarnação mais palpável do elemento “horror” que prescinde completamente da criatura monstruosa. Ela aliás, se faz presente brevemente no ritual de Lady Silêncio, em que ela finalmente faz efetivo jus ao apelido. Outro “monstro” que converge para o baile de máscaras imaginado como ferramenta para levantar a moral das tripulações, é o próprio Capitão Crozier, depois de duas semanas confinado em sua cabine lutando contra os efeitos de sua distância do vício e sendo cuidado por um extremamente zeloso Jopson que também tem sua história pregressa cuidando de sua mãe para ilustrar e criar a conexão devida entre os personagens.

O fenomenal do episódio é como vemos o baile a partir do ponto de vista de Crozier, com muita estranheza, muita comida, muita liberdade, algo que fortemente contrasta com tudo o que tivemos na série até agora, no primeiro momento de felicidade dos marinheiros e também dos oficiais. Vê-se o esmero com que as tendas foram erigidas e vê-se o quanto meses e meses de reclusão no frio absurdo sendo ameaçado por um monstro leva a uma tentativa coletiva de catarse que, porém, não vem completamente. A câmera é hipnótica, por vezes confusa, mas nuca aleatória. Sergio Mimica-Gozzen cria um ambiente ao mesmo tempo claustrofóbico e libertador, que desnorteia, mas que faz sentido. É como entrar na representação física de uma viagem lisérgica.

Mas a catarse do grupo é cortada primeiro pelo discurso de Crozier anunciando que eles abandonarão o navio para começar uma jornada de nada menos do que 800 milhas até o continente, viagem essa que certamente seguirá o padrão da expedição de Sir James Ross narrada por Blanky, ou seja, com escaleres sendo puxados até certo ponto e com um grupo voltando para pegar outros escalares e fazer o mesmo percurso novamente, efetivamente duplicando a milhagem. No entanto, o horror começa a ganhar formato quando Lady Silêncio, ensanguentada, chega na festa, para surpresa de todos, servindo como mero prenúncio de algo muito mais terrível, o fogo iniciado pelo Dr. Stanley.

Continuando com a câmera quase documental, o diretor coloca o espectador no meio da confusão organizada que se segue, ao passo que o roteiro de Vinnie Wilhelm inverte o papel até então estabelecido para Cornelius Hickey, que não muito antes havia dado vazão à sua curiosidade mórbida ao tocar no cérebro exposto do cabo Heather, algo que também prenuncia horrores maiores. De vilão mais evidente, porém, ele passa a salvador e, mesmo assim, de maneira suja e difícil, já que ele é obrigado a esfaquear o Dr. McDonald, na tentativa desesperada de abrir a lona, algo que, no processo, coloca Goodsir como o único médico remanescente.

Repararam na quantidade de automóveis espetaculares que tivemos a oportunidade de dirigir por segundos ao longo de apenas um episódio? Chega a ser sufocante e desesperador querer mais e não termos. A Mercy só perde pontos pela forma como a radical queda do Dr. Stanley é abordada, mas tudo ao redor funciona como uma Ferrari que acabou de sair de sua fábrica em Maranello.

The Terror – 1X06: A Mercy (EUA – 23 de abril de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Sergio Mimica-Gezzan
Roteiro: Vinnie Wilhelm
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones, Greta Scacchi, Sian Brooke, Alistair Petrie
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.