Crítica | The Terror – 1X07: Horrible from Supper

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Fui acometido de sentimentos contraditórios em relação a Horrible from Supper. De um lado, o episódio, que, para seu mérito, foge completamente de qualquer abordagem do lado sobrenatural da história, chega ao seu ponto alto em relação ao horror causado pelo monstro chamado Ser Humano, muito, mas muito mais assustador do que o Tuunbaq tem qualquer chance de ser. Por outro, o passado de Cornelius Hickey (ou seja lá seu nome verdadeiro) e, principalmente, o abandono dos navios para o início da jornada de 800 milhas pela neve me pareceram momentos perdidos e mal aproveitados.

Começarei, portanto, pelo arco da jornada pela neve, algo que já vinha sendo preparado basicamente desde o primeiro episódio da minissérie e cuja execução, ao menos nesse começo, incomodou-me profundamente, certamente bem mais do que a vertiginosa queda do Dr. Stanley no episódio anterior. Reparem o contraste entre o cuidado na preparação do isolamento dos tripulantes do Terror e do Erebus ao longo dos seis primeiros episódios. Tudo é difícil, extremamente extenuante e assustador pela própria natureza da coisa, desde o ranger da madeira onipresente nos conveses até a claustrofobia das cabines e dormitórios. O horror é criado por cada detalhe que vemos ao longo desse confinamento forçado e que só é quebrado uma vez, em um momento que era para levantar espíritos combalidos: o baile de máscaras. E nós sabemos no que deu a tentativa de animar o grupo, não é mesmo?

No entanto, quando a decisão de abandonar navio é tomada, também no episódio anterior,  a elipse que nos traz até Horrible from Supper é apressada, arremessando-nos sem cerimônia para um momento tão avançado no tempo que tudo já está pronto para a caminhada começar, com diversos escaleres já plenamente carregados de tudo o que é necessário para a sobrevivência ao longo do árduo trajeto. Tudo e mais um pouco, na verdade, pois o semblante de civilização que aqueles homens querem manter os leva a carregar ainda mais peso, com caixas e mais caixas de porcelana cuidadosamente embalada em um belo toque quase surreal na sequência de fim de preparativos. No entanto, estranhamente, com exceção do grupo amotinado liderado por Hickey, o clima é positivo demais, algo que é amplificado pela fotografia muito clara – por mais que já seja abril, o sol não é tão forte e constante nessa altura do mundo – e por uma “leveza” de espírito completamente desconectada do futuro que eles têm pela frente.

Além disso, quando a jornada começa efetivamente, os escaleres são puxados e empurrados como se fossem apenas um pequeno inconveniente. Toda aquela estrutura contada em detalhes por Blanky para o capitão Fitzjames em A Mercy, envolvendo caminhadas duplas que efetivamente tornam cada milha em duas, é esquecida completamente e tudo parece muito fácil, muito simples. Reparem como logo de cara os oficiais – inclusive o capitão Crozier – fazem parte dos esforços, algo bastante improvável mesmo diante da situação periclitante, considerando toda aquela separação hierárquica tão detalhadamente abordada anteriormente. Reparem como não vemos ninguém particularmente estafado, com fome, caindo no chão de esforço ao puxar ou empurrar botes enormes repletos até o limite de mantimentos por sobre trenos gigantescos feitos de vigas dos navios. Reparem como não vemos os tripulantes doentes e incapazes de andar sendo puxados dentro dos referidos botes.

O que é vemos é um passeio pela neve e não uma jornada torturante como devia ter sido. E a elipse de Tim Mielants para lidar com a progressão da viagem simplesmente não funciona, com cortes que não transparecem que houve uma passagem de tempo maior do que um ou dois dias. Pior ainda, quando um obstáculo aparentemente intransponível bloqueia o caminho do grupo, basta que Crozier diga que eles terão que subir em diagonal para que, no corte seguinte, tenhamos que aceitar que tudo foi feito sem maiores percalços e que todos estão, agora, em suas cabanas já em terra firme. Em outras palavras: perdeu-se, aqui, uma inestimável chance de trabalhar a jornada como elemento intensificador do horror da situação desses homens, mesmo que, em termos narrativos, tenhamos finalmente descoberto (o óbvio) destino da expedição que Crozier enviou no já longínquo The Ladder.

No caso do passado de Cornelius Hickey, qualquer julgamento meu deveria, na verdade, ficar em suspenso. De toda forma, como a análise é por episódio, abordarei esse outro aspecto que me pareceu desconexo, realmente fora da narrativa principal. Afinal, tudo o que foi mostrado de passado na minissérie serviu para dar estofo aos personagens, mas não para definir suas ações ou para determinar seus caminhos. Ao mostrar que Hickey, na verdade, não é Hickey, mas sim um homem que certamente matou o verdadeiro Hickey, um marinheiro de bom coração e de primeira viagem, o roteiro de Andres Fischer-Centeno quer, primeiro, deixar muito claro que este homem não faz o que faz por qualquer efeito externo, como a loucura causada pela contaminação das latas por chumbo ou pela própria situação por que passam. Ele é assim desde muito antes. Por outro lado, os flashbacks que enquadram o episódio dão a entender que existe um objetivo por trás das ações de Hickey, algo que o leva propositalmente ao navio. Teria ele algum tipo de plano? Alguma vingança? Espero que seja só uma impressão quanto ao segundo aspecto, ainda que mesmo o primeiro prescindisse completamente de conhecermos esse passado, pois já havia ficado muito claro, desde o início, que Hickey não era alguém em que poderíamos confiar, pelo menos não depois daquela sensacionalmente terrível sequência da punição dele em Punished, As a Boy.

Por outro lado, o clímax do episódio foi algo não menos do que espetacular. Aquela esperança de salvação representada pelo encontro de um grupo de esquimós pelo tenente Irving, com direito até a uma abençoada “provinha” de carne fresca, é a cenoura que é balançada na frente de nossos olhos, um vislumbre de um final positivo que, porém, sabemos que não virá ou que, pelo menos, será muito mais difícil do que parece, com ou sem “abominável monstro das neves”. Quando Irving volta para a dupla de subalternos que deixou para encontrar-se com os inuit e encontra Hickey sem roupa e debruçado sobre o marinheiro que acabara de matar, todos os alarmes possíveis começam a tocar e nossa reação é aquele desespero que dá por não podermos fazer nada a não ser gesticular apatetadamente para a televisão, gritando “sai daí”. Mais sensacionalmente ainda é a velocidade com que tudo acontece, com Hickey, absolutamente sem hesitar, esfaqueando Irving inúmeras vezes como um expert em sua “arte” assassina. Foi uma cena chocante, destruidora e, por ter como pano de fundo uma ambientação clara, benigna e esperançosa, torna-se mais profundamente aterradora.

Horrible from Supper erra ao não explorar a jornada a pé e ao estabelecer um passado para Hickey curiosamente desconexo com o estilo de narrativa até agora empregado. Mas seu ponto alto é muito alto, rápido e daqueles que nos deixa com o coração pulsante de raiva, incompreensão e desespero. Ou seja, mesmo derrapando, The Terror acerta.

The Terror – 1X07: Horrible from Supper (EUA – 30 de abril de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Tim Mielants
Roteiro: Andres Fischer-Centeno
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones, Greta Scacchi, Sian Brooke, Alistair Petrie
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.