Crítica | The Terror – 1X08: Terror Camp Clear

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e, aqui, a crítica do livro.

Depois de dois episódios menos do que perfeitos, The Terror volta com força total com Terror Camp Clear que começa positivo e límpido e termina debaixo de sangue, traições e visão limitada. Um verdadeiro festival de tudo que vinha sendo construído na série, funcionando como um ponto de virada e preparativo para os dois episódios finais.

Apesar do final aterrador de Horrible from Supper, o roteiro do showrunner David Kajganich nos entrega alguns poucos minutos de camaradagem entre oficiais, focando na jornada solitária de Crozier e Fitzjames até o totem de mensagens. Ao longo da jornada, vemos a virada final do personagem de Tobias Menzies para o lado do capitão Crozier, estabelecendo um laço de amizade perfeitamente crível diante da situação terrível que todos se encontram. Fitzjames, apesar de ter começado caninamente leal ao falecido Sir John Franklin, entendeu e assimilou o valor de Crozier, muito mais sábio do que o lorde inglês em sobrevivência no gelo e cujo primeiro conselho poderia ter evitado todos os acontecimentos subsequentes.

Esse reconhecimento e esse início quente, alvissareiro mesmo, porém, são curtos demais. Os poucos minutos em que o roteiro nos faz esquecer dos assassinatos cometidos por Cornelius Hickey nos momentos terminais do episódio anterior logo vêm à tona, mas não da forma como esperamos. No lugar de mostrar as consequências imediatas do plano de Hickey, a direção de Tim Mielants faz com que tudo aconteça off camera, deixando-nos apreensivos e imaginando o pior. Não demora e tudo fica muito claro tanto em nossa cabeça quanto na de Crozier e na das pessoas de seu círculo de confiança, mas não há muito o que possa ser feito a não ser uma corte marcial urgente e atabalhoada, uma última tentativa de se manter um semblante de ordem e hierarquia na situação explosiva do momento.

Em meio a tudo isso, vale destaque para o espaço que é dado para um discreto, mas terno momento entre Peglar e John Bridgens, na tenda de Goodsir, em que é possível perceber o relacionamento que provavelmente outrora existiu entre os dois homens de idades bem diferentes. Não é nada particularmente importante para a narrativa como um todo, mas é um daqueles momentos que The Terror faz tão bem ao não se esquecer da Humanidade por trás da violência, traição e morte.

Antes, porém, da corte marcial, uma jornada até o local do massacre dos esquimós fornece a prova que Crozier, por intermédio de Goodsir, precisava: o tenente Irving, diferente do que afirmara Hickey, havia “compartilhado o pão” com os nativos. Mas o plano de Hickey já estava em andamento, com a neblina que cerca o Campo Terror funcionando como o gatilho necessário para ativar a paranoia coletiva explorada pelo sargento Tozier, aliado de Hickey, para armar o maior número possível de amotinados. O circo estava armado para a virada de mesa.

No entanto, arriscando muito, Mielants quebra a ação de Hickey e seu grupo lidando com um contra-ataque de Crozier que, tal qual o massacre dos esquimós, não é mostrado em câmera. A tentativa foi boa e tornou o episódio econômico e com um passo muito eficiente, mas faltou algo para realmente fazer essa estrutura narrativa funcionar de verdade. Afinal, do plano apressado de Crozier, a sequência é cortada para Jopson já mantendo Hickey aprisionado para julgamento. A elipse é vasta demais, exigindo toda uma construção narrativa cheia de variáveis que acaba dependendo unicamente de cada espectador, o que esvazia um pouco da tensão.

No entanto, a assombrosa sequência em que Hickey e Tozer estão prestes a ser enforcados compensa o problema logo anterior. Aqui, a fotografia de Frank van den Eeden ganha novamente enorme destaque, com toda a tripulação cercando o cadafalso improvisado com a névoa amarela ao redor e um sol fraco ao fundo, em um magnífico jogo de contraluz. Crozier conta sua versão da verdade cheia de provas circunstâncias que, assim como Mielants exige do espectador, exige da tripulação enormes pulos imaginativos. Afinal, as acusações são graves e as provas são razoavelmente fracas diante do cenário e perante os homens. Claro, nós sabemos o que aconteceu de verdade e Crozier está mais do que certo, mas o ponto, aqui, é a semente da discórdia, algo que Hickey não hesita em continuar espalhando quando tem a oportunidade de falar, somente para ser interrompido pela risada de Collins, completamente sob a influência de cocaína, que serve de prelúdio para a chegada triunfal e assassina do Tuunbaq.

O que segue, daí, é um morticínio generalizado, com o monstro ganhando sua mais longa e mais completa exposição até agora na minissérie e devastando o acampamento sem que, porém, Hickey perca sequer um segundo para colocar seu plano novamente em movimento. Mielants usa uma câmera subjetiva, mas sempre mudando o ponto de vista para lidar com os múltiplos ataques do Tuunbaq, revelando o terror por trás de cada membro da tripulação, especialmente Collins que encontra seu fim completamente entorpecido.

O show de Terror Camp Clear está na atmosfera claustrofóbica e inevitável a partir do momento em que os minutos de amizade e de esperança entre Crozier e Fitzjames acabam. Parece não haver qualquer esperança para o capitão e seu grupo, cortesia do abominável urso das neves e, mais do que isso, da insidiosa presença de Hickey.

The Terror – 1X08: Terror Camp Clear (EUA – 07 de maio de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Tim Mielants
Roteiro: David Kajganich
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones, Greta Scacchi, Sian Brooke, Alistair Petrie
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.