Crítica | The Terror – 1X09: The C, the C, the Open C

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e, aqui, a crítica do livro.

Juro que não sei exatamente por onde começar. São tantos momentos belíssimos em The C, the C, the Open C que eu sei que acabarei esquecendo de comentar alguma coisa. E, justamente em razão disso, talvez a melhor forma de abrir a presente crítica seja lidando com seu único aspecto negativo.

Muito do foco do episódio foi em cima das longas jornadas dos dois grupos dissidentes após o devastador ataque do Tuunbaq ao final de Terror Camp Clear, com a equipe liderada por Crozier de um lado e, de outro, o grupo chefiado por Hickey. Era importante, portanto, que a passagem temporal fosse bem trabalhada, de forma que fosse possível o espectador sentir a dificuldade que é uma travessia daquela maneira, puxando e empurrando escaleres de mantimentos e apetrechos necessários. No entanto, infelizmente, assim como aconteceu em Horrible from Supper, a montagem não funciona muito bem e as elipses que Tim Mielants tenta lidar confundem mais do que colaboram com o estabelecimento do estado precário dos homens no extremo norte do mundo.

De uma sequência curta para outra, a impressão de passagem temporal acaba sendo somente marcada pela aparência física dos personagens, algo que nem sempre é suficiente para a perfeita compreensão da evolução e do quanto tempo eles passam naquelas condições. Aliás, diria até que as condições gerais dos componentes dos grupos já era tão ruim que a noção de tempo acaba ficando dependente quase que única e exclusivamente do tamanho das barbas dos marinheiros, como é o caso mais destacado de Goodsir, sequestrado por Hickey e seus minions. Talvez a confusão tenha sido proposital, para desnortear-nos e fazer-nos viver aqueles momentos da mesma maneira que os grupos, mas tenho para mim que teria sido importante marcar de forma mais incisiva – não necessariamente com diálogos – as milhas percorridas e o tempo empregado nesse caminho infernal.

De toda forma, porém, diferente de Horrible from Supper, este problema, aqui, é bem menos sensível, já que o foco está nos conflitos humanos, na desesperança, na desumanização daqueles homens obrigados a caminhar 800 milhas sendo perseguidos por um monstro lendário e sanguinolento. Mas a sempre ameaçadora “presença ausente” do Tuunbaq é o menor dos problemas ali, como já mencionei ao longo das críticas da minissérie. Ele nada mais é do que uma espécie de alegoria para a vontade humana em situações extremas e o que somos capazes de fazer nessas circunstâncias.

Hickey, claro, representa o lado sombrio da alma do Homem, liderando um grupo que vive literalmente de carniça, como abutres sobrevoando animais morrendo, somente esperando para atacar. Ao não hesitar em apelar para o canibalismo, as regras de sociedade desmoronam completamente e toda a civilização cai para abrir caminho para a sobrevivência pura e simples, custe o que custar. A cena do assassinato é excruciante, terrível mesmo, pois temos certeza do objetivo ali e, quando Hickey usa o tenente Hodgson como elemento de chantagem para fazer Goodsir (coitado!) cortar a vítima como um açougueiro corta carne, sofremos juntamente com o bondoso anatomista. Mas o roteiro de Soo Hugh é mais cruel ainda depois da sequência em que vemos todos – inclusive Hodgson – refestelando-se com carne humana (com sinais leves e envergonhados de prazer, diria), pois ele coloca o tenente em um monólogo que tenta “explicar”, “racionalizar” o impensável, com a coragem de paralelizar o acontecido com a Comunhão cristã.

Mas se o lado sombrio é de revirar o estômago não necessariamente pela terrível escolha em prol da sobrevivência acima de quaisquer outras considerações morais e éticas, mas sim pela facilidade com que isso é alcançado, do outro, no grupo de Crozier, vemos aquele mínimo de esperança pela raça humana em vários exemplos de atitudes altruístas. Crozier é o maior deles, diria, pois trata-se do capitão responsável pela tripulação que vê seus marinheiros e colegas morrendo um a um. Deve ser uma sensação horrorosa a de falhar a esse ponto, mesmo que ele, lá atrás, tenha sido o único a ter visão o suficiente para sugerir uma estratégia para evitar o que eles agora vivem. Em seu mérito, é importante notar como ele jamais, em momento algum, culpa alguém que não seja ele mesmo pela situação terrível no presente, mesmo que nós saibamos que, dos oficiais no comando, ele é o que menos culpa tem. Além disso, sua amizade com James Fitzjames, tão bem trabalhada no episódio anterior, chega a seu fim, com um tocante momento em que o capitão mais jovem decide que ele chegou ao seu fim e pede que Crozier o mate. Jared Harris e Tobias Menzies mereciam todos os prêmios possíveis por aqueles breves e dolorosos momentos em que Crozier despede-se de Fitzjames com um último ato duplo de coragem.

Esse, porém, não é nem de longe o único momento de sacrifício do episódio. Vemos Crozier, sem titubear, invertendo de lugar com seu imediato transformado em oficial Jopson, que, agora, é quem precisa de cuidados em seu leito de morte. Vemos John Bridgens sofrendo pela morte de seu pupilo (e, provavelmente, maior amor) entregando-se ao gelo e ao frio segurando a agenda/livro de Peglar. Vemos, finalmente, o valente Thomas Blanky, que parece ser um poço sem fim de otimismo, perceber que não pode mais continuar no grupo e que precisa fazer de sua morte uma última tentativa de desviar a atenção do Tuunbaq de seus colegas. Esses momentos com o especialista em gelo da expedição são absolutamente irretocáveis, desde sua discussão acalorada, mas triste com Crozier, passando por sua descoberta da Passagem Noroeste (que ironia!), até seus momentos finais, fumando cachimbo, sem sua prótese de madeira e envolto em garfos, esperando para machucar ao máximo o monstro em seu sacrifício, com um esperto corte abrupto em seu rosto raivoso sem que vejamos o Tuunbaq. Essa é, sem dúvida alguma, uma daquelas imagens que para sempre ficará marcada na mente dos espectadores que tiverem o privilégio de vê-la.

The C, the C, the Open C acaba com um grande cliffhanger que nos leva para o derradeiro episódio sem, porém, parecer artificial nessa tentativa de nos deixar na dúvida sobre o que acontecerá. Sabemos o preço que Crozier pagou direta e indiretamente e ele – ancorado nas diversas atitudes de seus colegas que tentei abordar aqui – continua sendo o raio de esperança em meio à podridão humana.

The Terror – 1X09: The C, the C, the Open C (EUA – 14 de maio de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Tim Mielants
Roteiro: Soo Hugh
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones, Greta Scacchi, Sian Brooke, Alistair Petrie
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.