Crítica | The Terror – 1X10: We Are Gone

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E, exatamente como começou, The Terror acaba. Um exemplar raro de horror psicológico de queima lenta com atuações soberbas de ponta a ponta e um trabalho impressionante de design de produção, a minissérie que adapta o romance homônimo de Dan Simmons é ímpar em sua forma de lidar com a angústia e com a alma humana, não deixando pedra sobre pedra.

Começando do ponto em que The C, the C, the Open C parou, com Crozier sendo capturado e entregue a Cornelius Hickey, o episódio é dividido substancialmente em três partes. A primeira tem o Doutor Goodsir como foco. Em um diálogo com Crozier que não tem sequer o benefício da trilha sonora para amenizar a situação, vemos um homem lutando para manter algum traço de humanidade, preparado para fazer o maior sacrifício em prol de seu capitão e dos demais sobreviventes. No momento em que ele começa a falar, percebemos que seu fim vem sem demora, com o personagem, bondoso ao extremo por natureza, querendo não só ter certeza que o anel que encontrara fosse entregue à irmã da primeira vítima da expedição, como também tentando dizer a Crozier como sobreviver ao seu plano sem explicá-lo em detalhes. São momentos dolorosos que são multiplicados pelo ritual macabro de seus suicídio precedido de um banho de veneno, da ingestão de um frasco inteiro do líquido assassino e que se encerra com um excruciante cortar de pulsos. Aqui, a sequência é carregada pela melancólica trilha sonora de Marcus Fjellström, falecido em 2017 e a quem o episódio (a série, na verdade) é dedicado, tornando a despedida a Goodsir ainda mais dolorosa.

A segunda parte vem depois do banquete macabro e fortemente explícito em que a refeição é o próprio Goodsir: a tentativa de Hickey não de matar, mas de dominar o Tuunbaq. Completamente enlouquecido, o grande vilão, que finalmente revela que assassinara o verdadeiro Hickey, corta sua própria língua e tenta ofertá-la ao monstro, somente servindo como o instrumento de sua morte depois que, sendo cortado ao meio, seu tronco envenenado faz o urso branco vitaminado morrer a alguns centímetro de Crozier. No final, o sacrifício de Goodsir não só ajuda no fim de Hickey como também no da criatura da mitologia Inuit que, não sei se repararam, tem uma bizarra e assustadora aparência humana em seu rosto que parece remeter ao que ele representa na própria série: o mal no coração do Homem.

Finalmente, na terceira e lírica parte que volta ao início do primeiro episódio, com a expedição liderada por Ross para achar a Expedição Franklin chegando à tribo esquimó de Lady Silence, vemos Crozier ser resgatado por Silna (finalmente o nome dela é revelado!), que é obrigado a decepar sua mão para livrá-lo das correntes. O tempo passa e o ex-capitão, recuperado, faz uma dolorosa viagem para descobrir o que aconteceu com seus homens, vendo apenas morte à sua frente, com direito a canibalismo também em seu grupo e a localização de um ainda vivo – mas completamente transformado – Edward Little que diz para seu capitão apenas “perto”, o que automaticamente nos remete ao diálogo de Crozier com Jopson no começo da série em que ele diz ao seu imediato que “chegar perto” é a pior coisa que poderia acontecer a eles.

O episódio também é palco para o encerramento de incríveis atuações que, se os votantes forem juntos, deverão amealhar todos as premiações possíveis da televisão. O destaque fica, primeiro, com Paul Ready e seu Goodsir, com uma performance de partir o coração, um homem que jurou salvar vidas, mas que foi obrigado a retalhar corpos para alimentar selvagens e, nesse processo, acaba usando seu próprio corpo para extirpar esse mal da face da Terra. A transformação física do personagem ao longo da minissérie é também um grande acerto e ver o corpo dessa alma tão bondosa no açougue de Hickey seria a cereja nesse bolo terrível não fosse o destruidor momento em que Lady Silence olha para ele inerte em cima da mesa e chora. A outra atuação que, claro, precisa ser comentada, é a de Jared Harris como o único sobrevivente da expedição, o capitão que precisou ver todos os seus homens mortos das formas mais variadas e horríveis possíveis. O sofrimento no rosto de Harris é arrebatador e resume à perfeição o verdadeiro terror que pontilha cada quadro desta perturbadora série.

Mas, depois que vemos o capitão marchar pela superfície gelada do Ártico, chegando na aldeia Inuit, ele ainda perderia a própria Lady Silence, talvez seu único elo com esse seu passado destruidor. Exilada do lugar por ter perdido o Tuunbaq, a mulher se vai se que sequer a vejamos novamente, fazendo um sentimento desesperador abater-se no semblante de Crozier. A sequência final, com o personagem, anos depois, já assimilado à cultura Inuit e ajoelhado pacientemente esperando sua caça com uma criança (seu filho?) ao seu lado, é de uma desolação inacreditável que fecha essa visão desesperançosa da vida. Um momento daqueles que ficam marcados na mente coletiva da história televisiva.

The Terror parece ser a grande série de 2018. Um trabalho memorável e um estudo sobre perda, solidão, morte, coragem, sobrevivência, loucura e maldade. Ou seja, um retrato da vida.

The Terror – 1X10: We Are Gone (EUA – 21 de maio de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Tim Mielants
Roteiro: David Kajganich
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones, Greta Scacchi, Sian Brooke, Alistair Petrie
Duração: 55 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.