Crítica | The Thick of It – 1ª Temporada

estrelas 4

Antes de ser o Doutor, na série Doctor Who, Peter Capaldi é um famoso ator britânico que estrelou com mais ou menos destaque em diversas séries de TV, desde a década de 80. Ele também participou de longas, mas sem a mesma relevância dramática para sua carreira. Mas, uma coisa é certa: em sua longeva carreira, seu papel de maior destaque é o de Malcolm Tucker, na série The Thick of It.

E o curioso é que Malcolm é também um doutor, mas um spin doctor que não tem uma tradução direta para o português (se alguém souber, por favor indique abaixo nos comentários, pois pesquisei e não achei nada minimamente razoável). De toda maneira, um spin doctor é um profissional de relações públicas normalmente de partidos e figuras políticas contratado para sempre dar uma espécie de “virada” (daí o “spin”) interpretativa nas mais diversas situações, desde discursos até gafes, passando por entrevistas e relatórios. E, nessa função, Tucker trabalha para o Primeiro Ministro britânico, controlando todo o seu corpo de ministros.

A primeira temporada é curtíssima, composta, apenas, de três episódios de 30 minutos cada um. Mas suas características, na verdade, exigem que ela seja rápida.

E que características são essas?

Bem, a primeira delas e seu verdadeiro ponto negativo é o uso de “câmera na mão”. Aqueles que, como eu, estão acostumados com filmes de found footage, certamente acharão que isso não é um problema. E realmente não seria, pois essa abordagem tem função dentro da narrativa e não é só algo jogada lá para fazer tipo. A série cômica é tratada como um documentário pelo showrunner e diretor Armando Iannucci e a câmera trêmula nos coloca dentro da ação e, principalmente, das absurdas tramoias do plano político. Assim, minha condenação do estilo de documentário em The Thick of It não repousa sobre o fato em si, mas sobre a maneira como a câmera na mão é usada.

Ela é extremamente trêmula, tanto que, vendo em uma TV grande e muito de perto pode exigir que um saco de vômito (daqueles de avião) esteja ao alcance da mão do espectador. Apenas uma câmera é usada e Iannucci não se furta de fazê-la viajar do rosto de um ator para o rosto de outro sem cortes, resultando naquele efeito “borrado” que vemos quando utilizamos a câmera de maneira amadora para filmar nossas viagens de férias. Mas vejam que se trata de algo proposital por parte de Iannucci e, até certo ponto, o extremo uso da técnica nos mantém completamente dentro da trama a cada segundo de narrativa. Mesmo assim, o mesmo efeito seria alcançado se ele trabalhasse mais na montagem e menos nos movimentos bruscos da câmera.

A outra característica da série – essa muito positiva – que exige que ela tenha pouca duração é a complexidade e densidade do roteiro. E o espectador tem que lembrar de algo importante: trata-se de humor britânico, aquele nas entrelinhas e normalmente falado muito rápido. Ver essa série dublada (não quero nem saber se ela existe dublada!) ou mesmo com legendas em português é perder metade do brilhante texto dos quatro roteiristas, ao passo que ver sem legendas em inglês só mesmo para britânicos. O trabalho interno do ineficiente governo britânico – isso porque Iannucci, provavelmente, não conhece o governo brasileiro – é desmantelado em poucas palavras ácidas e destruidoras que abordam questões que poderiam muito bem ser reais (e muitas delas efetivamente são baseadas em episódios verdadeiros no Reino Unido). Entender o inglês, nesse caso (e um pouquinho de política) é essencial para o bom aproveitamento da temporada.

Na verdade, o texto é tão bom que ele consegue nos fazer esquecer da câmera tresloucada, além de claramente nos fazer lembrar da célebre série Yes Minister, também britânica, da década de 80. Mas é lógico que o roteiro nada seria não fossem os atores, todos eles mais do que perfeitos em seus respectivos papéis. Chris Langham faz o novo Ministro da Seguridade Social (ou seja lá qual for a melhor tradução para Department of Social Affairs), Hugh Abbot, depois que Tucker demite o anterior, no hilário prólogo do primeiro capítulo, que já mostra o medo que as pessoas sentem dele. Abbot quer se firmar no cargo – assim como qualquer político – fazendo algo que possa ser lembrado e, depois de uma conversa (que não aparece) com o Primeiro Ministro, acha que seu projeto foi aprovado e faz o anúncio oficial. É lógico que não havia aprovação de nada e Malcolm Tucker vem para interferir, em uma sensacional atuação de Capaldi, que transita entre o grosseiro e o mais grosseiro, sem papas na língua para quem quer que seja.

E olha que estamos falando apenas da primeira temporada, em que os famosos palavrões de Tucker estão ainda domados, como um teste para ver se a série funcionaria. O que viria depois é muito mais contundente. Mas, voltando à temporada objeto da crítica, vale notar que o texto não joga palavrões apenas por jogar. Eles estão ali pois Tucker é um homem que vive a mil por hora, um alucinado que tem que resolver problemas gigantescos como um malabarista de circo jogando pinos em chamas pelo ar. Ele tem que lidar com o Ministro completamente alienado, seu assistente sênior Glen Cullen (James Smith) que nada mais é do que alguém que puxa o saco de quem quer que seja para sempre se manter na mesma posição, seu assistente júnior Ollie Redder (Chris Addison) que, claro, quer mostrar a que veio e a cínica secretária de imprensa Terri Coverley (Joanna Scanlan) que se mostra muito mais sábia que todo o gabinete. Mas não é só isso, pois Tucker precisa manobrar a opinião pública usando a imprensa e colocando palavras nas bocas de todos, além de, ocasionalmente, partir para o xingamento direto e, porque não, chantagens descaradas.

Trata-se de um microcosmo da política como um todo, mas um microcosmo que podemos acreditar piamente, pois o roteiro e os atores responsáveis pelos papeis simplesmente tiram de letra o trabalho, engajando o espectador desde o primeiro segundo de projeção. Se o espectador não ficar tonto tentando entender os diálogos sensacionais (vale ver pelo menos duas vezes para capturar todas as nuanças), certamente ficará com a câmera tremida. Mas é uma tontura que vale cada segundo de esforço.

The Thick of It – 1ª Temporada (The Thick of It – Series One, Reino Unido – 2005)
Showrunner: Armando Iannucci
Direção: Armando Iannucci
Roteiro: Jesse Armstrong, Armando Iannucci, Simon Blackwell, Tony Roche
Elenco: Peter Capaldi, Chris Langham, James Smith, Chris Addinson, Joanna Scanlan
Duração: 90 minutos (3 episódios de 30 minutos)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.