Crítica | The Unfunnies

“Bem-vindos à mais depravada HQ do século 21.”

É assim que The Unfunnies é anunciada, em letras garrafais, em sua quarta capa, bem abaixo de uma citação retirada de uma crítica que afirma que, quem acha que a América não pode mais ser chocada, que todos os tabus foram quebrados, que nada, após o 11 de setembro, pode realmente impactar, não leu ainda a revista. Em outras palavras, Mark Millar decidiu que era necessário deixar isso bem claro ao leitor de sua criação de 2004 para que seu marketing de The Unfunnies se materializasse como verdade absoluta.

Mas a grande verdade é que, por mais depravada, violenta e chocante que possa ser a história, ela se esforça demais para ganhar esses adjetivos ao ponto de tornar tudo cansativo, repetitivo e bem menos eficiente em sua tarefa de causar algum tipo de rebuliço efetivo do que Millar pode ter querido. E a culpa é inteiramente do autor que, em suas obras ditas autorais, fora do circuito mainstream, têm, nas mais das vezes, uma regra muito simples: o choque pelo choque. É assim em Nêmesis. É também assim em Wanted e, de certa forma, em Kick-Ass (mais notavelmente no fraco segundo volume). Não que o autor também não tenha trazido à luz obras sensacionais, mas, quando ele parte para o lado desenfreado de escrever, seu estilo acaba atropelando o conteúdo e o resultado costuma deixar a desejar.

The Unfunnies, porém, tem duas escolhas narrativas a seu favor. A primeira delas é a brincadeira que faz com os desenhos clássicos da Hanna-Barbera. Se o leitor lembrar deles, reconhecerá diversos personagens famosos, dentre eles mais obviamente o Leão da Montanha e Bobby Pai, além de diversas “participações especiais” como a do Urso do Cabelo Duro. Anthony Williams, que trabalhara com animações e livros infantis, foi escolhido a dedo por Millar justamente para criar esse efeito que perigosamente dá a impressão de que se trata de uma obra para crianças, bem na linha do que acontece com Happy Tree Friends. A segunda escolha é a forma como as diversas linhas narrativas paralelas se encontram ao final de maneira razoavelmente orgânica, em uma conclusão sobrenatural meta-linguística interessante que Millar salpica ao longo das quatro edições por meio do uso de fotografias como base de alguns quadros e a quebra da quarta parede pelos personagens.

No entanto, essas qualidades não salvam o resultado final de algo forçado e exagerado, como se Millar fosse um cientista maluco em um laboratório tentando descobrir quais são os limites da Nona Arte. Quando a história começa, Moe o Corvo é preso por pornografia infantil, deixando sua esposa e três filhos desamparados e fazendo com que sua esposa, Birdseed Betty, recorra à prostituição para sobreviver enquanto ele é sodomizado repetidas vezes na cadeia. Mas tem muito mais: assassinatos de crianças, abortos, um médico cafajeste que, dentre outras coisas, compete com outro médico para ver qual dos dois retira mais testículos de seus pacientes (sim, isso mesmo!) e assim por diante. Por trás disso tudo, o xerife Dribble (um dos únicos humanos) investiga as mortes infantis e começa a desbaratar a interconexão de todos – ou quase todos – esses eventos, tendo a misteriosa figura de Troy Hicks, um artista de quadrinhos, como manipulador-mor.

Apesar dos assuntos pesadíssimos, os desenhos de Williams não são particularmente gráficos, o que nos poupa ver detalhes da masturbação de Jungle Jim (um lêmure) por Birdseed Betty, que catalisa o processo de prostituição do corvo mãe de família, e um buldogue transando com uma leoa com consentimento hesitante do marido sem testículos, por exemplo, dentre outras coisas potencialmente ainda mais terríveis. Ao mesmo tempo, porém, o caráter episódico da história impede qualquer tipo de desenvolvimento mais profundo ou mesmo um desenho engajante o suficiente para tornar fluida a leitura já que a narrativa pula enlouquecidamente de um personagem para o outro em uma espécie de competição para ver quem lida com o assunto mais pesado. Quando a segunda metade da história começa – aliás, publicada três anos depois da primeira metade – a sensação de continuidade e costura de narrativas aumenta, mas não é algo particularmente empolgante ou que seja agradável ler (como o primeiro Kick-Ass, por mais violento que seja, é, por exemplo), uma vez que o texto é extremamente expositivo – e não adianta Millar ser auto-consciente disso e inserir essa “crítica” na história – e cansativo.

The Unfunnies é uma experiência doentia de Mark Millar que, apesar de ter sido um dos títulos inaugurais do chamado Millarworld, nem mesmo o autor liga muito para ele, tendo-o excluído de um livro com as artes desse seu universo. E confesso que não faz falta. A HQ é muito aquém do que poderia ser e toda sua depravação e violência não têm nem de longe o mesmo poder anárquico que outras criações suas têm.

The Unfunnies (EUA – 2004 e 2007)
Contendo: The Unfunnies #1 a 4
Roteiro: Mark Millar
Arte: Anthony Williams
Cores: Anthony Williams
Letras: John Layman
Editora original: Avatar Press
Data original de publicação: janeiro e fevereiro de 2004 e outubro e novembro de 2007
Publicação no Brasil: não publicado no Brasil quando da data de lançamento da presente crítica
Páginas: 88 páginas

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.