Crítica | The Walking Dead – 4ª Temporada, Parte 2

estrelas 4

Atenção: A crítica a seguir contém SPOILERS da série, incluindo da 4ª Temporada.

Que tipo de homem você pode ser se necessário for?

Esse é, no final das contas, a grande pergunta para qual a segunda metade da 4ª Temporada de The Walking Dead parece responder. Pelo menos em relação a Rick Grimes (Andrew Lincoln), que já fez o papel do sobrevivente solitário, do líder hesitante, do líder necessário, do pai, do fazendeiro e de volta ao líder no melhor estilo Dirty Harry. Feita essa escolha, a torcida é para que, agora, a série não fique ruminando em cima desse mesmo assunto e siga em frente.

Mas estou me adiantando. A segunda metade da 4ª Temporada solidifica essa temporada, como um todo, como a melhor da série até agora. Na primeira metade, vimos o apoteótico desfecho do longo “arco do Governador”, com a destruição total da prisão onde Rick e seu grupo viviam. O mid-season finale foi como jogar um saco de bolinhas de gude no chão e vê-las se espalhando. A segunda metade da temporada começa exatamente de onde paramos e começa a trabalhar, corajosamente, cada uma dessas bolinhas de gude, ou grupos delas.

Digo “corajosamente”, pois toda a dinâmica da série durante três temporadas e meia foi de grupo. Todos defendendo todos ou uma tentativa de recriação da sociedade como antes existia. Isso acaba nesses oito episódios finais, ainda que o semblante de ordem, de esperança de normalidade – a promessa de santuário em um misterioso local chamado Terminus – seja a “cenoura” que todos avidamente perseguem desde o começo.

Mas voltando às bolinhas de gude, Scott M. Gimple, o showrunner, divide o grupo sobrevivente em pequeníssimos grupos ou duplas e passa a dedicar mais ou menos um episódio para cada um desses grupos ou duplas. Perde-se a noção do todo, mas ganha-se na oportunidade de se aprofundar as relações humanas, algo que sempre faltou nessa série e que abunda nos quadrinhos que deram base a ela. Além disso, muito da ação nos episódios se passa simultaneamente, ou próximo disso, com cada grupo se aproximando do outro vagarosamente a partir do uso em comum do trilho do trem, que promete levar todos a Terminus.

Com isso, no episódio 4X09, After, o primeiro dessa segunda metade, lidamos imediatamente com Michonne (Danai Gurira), sozinha novamente, tendo que transformar dois zumbis em seus “bichinhos de estimação” para que ela possa sobreviver. É uma volta ao que ela era antes de encontrar Andrea (Laurie Holden, que saiu da série na 3ª temporada) e, depois, o grupo de Rick. É a volta ao estado primal que ela, não demora muito, rejeita e decide, então, procurar sobreviventes da prisão. Por outro lado vemos Rick muito ferido e Carl (Chandler Riggs) chegando a uma casa, onde decidem descansar. Com o pai entrando em uma espécie de estado comatoso, Carl, então, tem que provar que consegue fazer tudo sozinho, como procurar comida e matar zumbis. O episódio trabalha muito bem o lado psicológico tanto de Michonne quanto de Carl, dando relevância aos dois personagens, especialmente ao primeiro que, até esse momento, não havia realmente dito a que veio.

Estabelecidos os primeiros sobreviventes, pulamos para o episódio 4X10, Inmates, e descobrimos, sem nenhuma surpresa, que o favorito dos espectadores, Daryl (Norman Reedus) também está vivo e ao lado da jovem Beth (Emily Kinney), irmã de Maggie (Lauren Cohan). Mas também aprendemos que outros grupos sobreviveram: o do gigante gentil Tyreese (Chad Coleman) junto com Judith, a bebê de Rick e as irmãs Lizzie (Brighton Sharbino) e Mika (Kyla Kenedy), o de Maggie junto com Sasha (Sonequa Martin-Green) e Bob (Lawrence Gilliard, Jr.) e o de Glenn (Steven Yeun), que faz dupla com a ex-tenente do Governador, Tara (Alanna Masterson). É o capítulo do “alívio” ao vermos todo mundo vivo, ainda que separados. E o alívio aumenta quando Carol (Melissa McBride), expulsa da prisão por Rick, se junta ao grupo de Tyreese e quando um personagem querido dos quadrinhos (o Sargento Abraham Ford, vivido por Michael Cudlitz) e seu grupo, que inclui um cientista a caminho de Washington que diz conhecer a cura para a praga dos mortos-vivos, se junta a Glenn e Tara. Ao mesmo tempo, porém, expandindo a sementinha que já havia sido plantada lá atrás sobre a personalidade da pequena Lizzie, o episódio nos avisa que algo de muito errado ainda vai acontecer. Com um passo eficiente, uma montagem clara e atuações convincentes, é esse o episódio que efetivamente dá o impulso necessário ao final da 4ª Temporada.

No episódio 4X11, Claimed, voltamos para o núcleo de Rick, com Carl e Michonne e ainda que muito tempo seja perdido com o menino e a espadachim tentando voltar ao máximo da normalidade, o que ocasiona uma perda de ritmo, se comparado com Inmates,  o fato é que a sequência final, com Rick sozinho na casa sendo invadida por um grupo não identificado, faz o coração bater forte, também servindo de prenúncio para o final da temporada. E finalmente vemos Rick fazer o que deve ser feito – ainda que de forma impensada – já em um começo de resposta à pergunta com a qual comecei a presente crítica.

Em Still, a abordagem é intimista e catártica. Daryl e Beth sozinhos, o primeiro regredindo para seu estado anterior, feral e a segunda tentando justamente sair de seu estado anterior, de irrestrita esperança na humanidade. E tudo representado pela vontade de Beth de tomar sua primeira bebida alcoólica e Daryl achando um alambique com “bebida de verdade”. É um episódio tenso, mas que mostra algo raramente visto em The Walking Dead: atuações verdadeiramente boas (até esse episódio, essa honra ficava com Melissa McBride e Scott Wilson). Tanto Dixon quanto Kinney dão um show de contenção, somente para acabar com uma forte ligação entre os dois, comemorada com a incineração do alambique. Um dos mais belos episódios de toda a série até agora.

Alone, episódio 4X13, é cambaleante. Enquanto de um lado vemos o grupo de Maggie debater sobre se dividir ou continuar junto em razão da obsessão de Maggie em encontrar Glenn, do outro vemos Daryl e Beth novamente encontrando uma extremamente limpa e bem-abastecida funerária. É a primeira vez que ouvimos falar de Terminus, em uma placa ao longo dos trilhos que Maggie acha e que promete santuário para quem lá chegar. O vai e vem no grupo de Maggie, com um resultado para lá de óbvio, quebra o ritmo do episódio e o desleixo do roteiro em criar o “lugar ideal” para o calejado Daryl, que nada desconfia, acaba nos retirando momentaneamente da seriedade da temporada, ainda que gere um cliffhanger que não é resolvido nem no final.

Mas então chega o episódio 4X14, The Grove, focado em Tyreese, Carol, Lizzie e Mika. Esse é, literalmente, o episódio que define o conceito da série (e dos quadrinhos, antes) mais do que qualquer outro. É um episódio que choca o espectador, mas não gratuitamente, não de repente. Além disso, ele nos leva às lágrimas com o sofrimento que vemos no rosto de Carol e na surpresa inocente que testemunhamos na linguagem corporal de Tyreese. A esperança que a primeira metade do episódio representa – com o grupo achando um lugar que poderia servir de moradia – é quebrada de maneira violenta pelo assassinato que Lizzie comete e pelo que Carol é obrigada a fazer depois. Mesmo tendo lido os quadrinhos e testemunhado algo parecido lá, devo confessar que não esperava a série de TV chegar a esse ponto e meu queixo caiu no chão e não voltou mais ao normal até agora. A questão não é nem o choque em si, mas as reações, especialmente Lizzie, claramente perturbada e com problemas mentais incontornáveis e a forma impiedosa com que o roteiro trata dela, de sua esperta irmã e, em última análise, dos adultos. Ao mesmo tempo em que perdemos a esperança na raça humana, o episódio, com uma direção segura e uma montagem irretocável, além de atuações de se tirar o chapéu, vai, vagarosamente, reconstruindo essa esperança. Vemos o valor da confissão, o perdão inesperado e o estreitamento da relação entre Carol e Tyreese como resultado da tragédia. É um exemplo de como fazer televisão e, se a série acabasse nesse ponto, já teria valido toda a jornada.

Sendo completamente impossível alcançar, mesmo que de longe, a qualidade do episódio anterior, Us, episódio 4X15, sabiamente foca na ação, com o grupo de Glenn se separando quando chegam a um túnel em que ele insiste atravessar e Abraham se recusa, por ser perigoso demais. Esse é um típico episódio padrão, com um obstáculo formado por mortos-vivos, aumento de tensão até um ponto insustentável e uma resolução de último segundo já completamente esperada. É, porém, eficiente em servir de episódio de “semi-reunião”, nos aliviar um pouco do peso de The Grove, além de nos dar a primeira visão de Terminus, matando um pouco da nossa curiosidade.

E, finalmente, chegamos ao fim da 4ª Temporada, com um episódio intitulado misteriosamente apenas de “A”. E os primeiros 10 ou 15 minutos são absolutamente perfeitos, com Rick se deparando com os homens que invadiram a casa onde ele estava morando, no episódio 4X11. Daryl havia se juntado ao grupo e sua interferência a favor de Rick deflagra um dilúvio de violência em diversas frentes, com Rick agindo da maneira mais selvagem possível para salvar seu filho e seus amigos. Muitos disseram que Rick saiu de seu personagem, mas tenho para mim que não é exatamente isso. Rick finalmente ACHOU seu personagem. Ele é o líder incontestável justamente porque parece ser o único realmente capaz de fazer aquilo que precisa ser feito para sobreviver, por mais violenta e inaceitável que seja a situação (bom, na verdade, ele e Carol!). A chacina que ele comete em um arroubo de raiva poderá chocar muitos, mas, por mais difícil que seja fazer isso, tente se colocar no papel de Rick. Que escolha ele poderia ter, depois de passar anos fugindo de monstros canibais, que não morder e arrancar a jugular de um sujeito que ameaçou seu filho? Estamos falando da Terra de Ninguém, não de um Estado de Direito e Rick abraça a barbárie com o claro objetivo de se manter vivo e de manter vivo seu filho e seus amigos.

E tudo seria perfeito se o episódio acabasse por aí. Mas o showrunner precisava fazer com que Rick chegasse a Terminus, não é mesmo? O problema é que, para fazer isso, há uma insistência em se martelar, por intermédio de flashbacks com Hershel insistindo para Rick ser “fazendeiro”, a dura escolha que o herói tem que tomar: ser líder ou ser liderado. Mas acontece que essa mensagem é mais do que evidente logo nos primeiros minutos e a mão pesada da montagem incluindo longos e desnecessários flashbacks não só estilhaça a continuidade do season finale, como nos rouba tempo de um desenvolvimento mais satisfatório para quando Rick chega a Terminus. Era óbvio que “quando uma coisa parece muito boa, ela não é muito boa”, mas novamente a direção pesada e a montagem confusa (e até então a montagem tinha sido tão interessante…), nos desnorteiam e tudo acaba em um daqueles momentos “eu sou durão” que soa artificial demais, feio demais.

Apesar de todos os pesares, a 4ª Temporada de The Walking Dead  merece aplausos.  Ela efetivamente conseguiu retirar a série da mesmice, focar no lado psicológico dos personagens e jogar os mortos-vivos efetivamente para escanteio, onde eles devem ficar, além de finalmente recolocar Rick no posto de líder, respondendo a pergunta inicial de maneira, espero, definitiva. Apesar do final fraco, a jornada até ele teve altos muito altos e baixos pouco baixos, o que mostra que, ainda que tardiamente, a série parece ter encontrado seu caminho. Resta saber se o foco em Terminus não é, como o nome indica, o fim desse tratamento maduro do material original.

The Walking Dead – 4ª Temporada, Parte 2 (The Walking Dead – Season 4, Part 2 – 2014)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Scott Wilson, Emily Kinney, Chad Coleman, Sonequa Martin-Green, Lawrence Gilliard Jr., Michael Cudlitz, Josh McDermitt, Jeff Kober, Kyla Kenedy, Alanna Masterson, Brighton Sharbino
Duração: 339 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.