Crítica | The Walking Dead – 5X02: Strangers

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. 

Robert Kirkman volta a escrever um roteiro de The Walking Dead depois de After, o 9º episódio da 4ª Temporada. E, de certa forma, sua volta em Strangers ecoa After, pois aquele episódio é o primeiro depois do massacre na prisão e, agora, esse é o primeiro após a destruição de Terminus pela “super-Carol”. E Strangers, da mesma forma que After, tenta fazer nossos corações pararem, nossas cabeças se reorganizarem.

É, sem dúvida, uma tarefa difícil, pois saímos da adrenalina do episódio anterior para uma certa calmaria no segundo, mas Kirkman logo nos apresenta uma novidade: o sobrevivente Gabriel (Seth Gilliam), um padre que o grupo salva de alguns mortos-vivos. Mas, se antes já era difícil, depois de Terminus como é que Rick e seu grupo (ou seria Carol e seu grupo?) podem confiar em alguém? Mas Gabriel pelo menos parece ser alguém momentaneamente inofensivo e oferece sua igreja como refúgio.

Com a diminuição do ritmo, Kirkman se dá ao luxo de permitir diálogos entre os personagens e, com isso, amarra certas pontas, notadamente aquelas envolvendo Carol. Rick, em um momento de humildade misturado com pedido de desculpas e de ajuda, pergunta se ela aceita o grupo de volta nesse que, agora, é o seu território. Esse é um momento genuíno que funciona muito bem, exatamente como funciona o quase silêncio entre Daryl e Carol, que tentam fortalecer sua relação, ao mesmo tempo que Daryl tenta aceitar o que ela fez. Mas é interessante ver como a questão para Carol, agora, parece ser muito mais um sentimento de deslocamento perante do grupo. Ela aprendeu a se virar sozinha, mostrou que talvez sem ninguém ao seu lado tenha ainda mais chances de sobreviver ou talvez seja algo mais simples e mais terrível: ela prefere ficar sozinha ou acha que não merece permanecer com o grupo. Isso é demonstrado pela inquietude dela e na vontade de consertar um carro que acha em uma rua, o que ela fez mesmo no meio da noite.

Mas nem todo diálogo funciona. A conversa “você não está seguro” entre Rick e seu filho é expositiva demais, óbvia demais ao ponto de ser ridícula. O mesmo vale para o namorico feliz da vida entre Bob e Sasha, que acaba parecendo justamente o que é: um prelúdio para uma desgraça.

No entanto, sobre Bob e Sasha, nem culpo Kirkman completamente, pois ele teve, certamente, a intenção de assim fazer. Assim como em filmes de horror dos anos 80 (época em que ainda via o gênero slasher) transar significa morrer logo em seguida, provavelmente empalado, em Strangers, Kirkman tenta construir essa atmosfera entre os dois justamente para nos dizer, com todas as letras, que alguma coisa muito ruim acontecerá. E acontece, claro. Gareth, o líder de Terminus volta para, literalmente, fazer uma “boquinha” e Bob é a vítima. O final é chocante, apesar de esperado e estabelece um futuro novo conflito que tem potencial para levar nosso queridos sobreviventes a um outro status quo. Ainda continuo achando o canibalismo de Gareth e seus amigos um certo exagero sem explicação convincente, especialmente pelo jeito doentio que eles saboreiam o quitute (não podem todos ser loucos, ou será que podem?). Assim, espero que isso seja melhor desenvolvido ao longo da temporada.

Também mais para o final, finalmente Beth volta para a mira da série. Quem aqui se lembrava dela? Pois é. Ela foi sequestrada, debaixo do nariz de Daryl, lá atrás na 4ª temporada, há uma enternidade. Pois o mesmo carro com uma cruz (ou seria um X?) no vidro traseiro passa a toda por Daryl e Carol e os dois, separados do grupo de Rick, vão atrás sem pestanejar. Outra ponta solta que pode engrossar o caldo da temporada e já começa a dissipar a dúvida que eu tive em No Sanctuary, quando indaguei, na crítica, como é que Scott Gimple iria manejar um grupo tão grande vagando pela floresta. Com essa separação – ainda que pequena – já há a possibilidade de um vislumbre de facções em luta em locais separados, especialmente se Gabriel tiver – como parece que tem – algum segredo terrível escondido no fundo de sua mente. E a saída de Carol também facilita a liderança de Rick novamente, algo que também havia ficado sem resposta no primeiro episódio.

Robert Kirkman, apesar de errar alguns momentos, cria um episódio lentamente tenso, com uma boa direção de “filme de horror” por parte de David Boyd, que trabalha a calmaria a seu favor, dando a entender, a cada segundo, com uma câmera “observadora”, sempre à distância e/ou por trás de folhagens ou outro tipo de barreira, que a morte os espreita. Não é nada diferente do que o mote da série como um todo, mas esse aspecto ficou particularmente bem salientado e bem construído em Strangers.

Pode-se dizer que é esse o episódio que estabelece as tramas que serão tratadas na segunda temporada: os canibais, os sequestradores e Gabriel. Se Gimple continuar assim, parece que finalmente The Walking Dead terá achado seu showrunner ideal.

The Walking Dead – 5X02: Strangers (Idem, EUA – 2014)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: David Boyd
Roteiro: Robert Kirkman
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Chad Coleman, Sonequa Martin-Green, Lawrence Gilliard, Josh McDermitt, Christian Serratos, Andrew J. West, Seth Gilliam, Andrew J. West
Duração: 42 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.