Crítica | The Walking Dead – 5X03: Four Walls and a Roof

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. 

Encerrei a crítica do segundo episódio dessa temporada afirmando, categoricamente, o seguinte: “Pode-se dizer que é esse o episódio que estabelece as tramas que serão tratadas na segunda temporada: os canibais, os sequestradores e Gabriel.” Mas posso dizer que o showrunner Scott M. Gimple não concordou muito com isso e ele está literalmente pegando fogo.

Estamos apenas no terceiro episódio e, das três linhas narrativas acima, acho que nenhuma resta. Em Four Walls and a Roof, o roteiro de Angela Kang e Corey Reed literalmente resolve tudo, acabando com extrema violência com os canibais liderados por Gareth, revelando o segredo do padre Gabriel e encerrando com um desesperante cliffhanger que revela que Daryl voltou com mais alguém (ou “alguéms”), sem nos revelar quem. De novo: estamos apenas no terceiro episódio! O que mais será que Gimple tirará de sua cartola para impulsionar a narrativa? Por um lado, fico feliz com sua coragem e, por outro, temeroso com o que pode vir por aí.

De toda maneira, Four Walls and a Roof é o terceiro acerto em três na 5ª Temporada de The Walking Dead, mais um sólido momento chave para o futuro da série. O episódio começa momentos após o final do anterior, com Gareth conversando longamente com Bob enquanto mastiga “suculentos” pedaços da perna do coitado. Mas Bob, que havia se afastado do grupo de Rick por uma razão misteriosa (que todos nós desconfiamos, claro, depois dos eventos com os “zumbis molhados”), literalmente dá a última risada, ao revelar que ele fora mordido pelos mortos-vivos. Quando ele é devolvido para seu grupo, como parte de uma óbvia estratégia de ataque de Gareth e companhia, Rick dá uma de Carol e acaba com os canibais da maneira mais terrível possível.

Posso estar enganado, mas essa me parece ser a primeira vez em que Rick (e Abraham também, aliás) realmente parece ter prazer em matar humanos não contaminados. É um momento destruidor, forte e em “solo sagrado”, deixando máculas visuais na Igreja e psicológicas em todo o grupo. O roteiro tenta suavizar esse impacto, com a conversa final entre Bob e Rick sobre “não perder a humanidade”, bem mais discreta do que a conversa “você não está seguro” que Rick tem com Carl, mas ainda sim um tanto quanto forçada para criar aquela luz de esperança no final do túnel. Mas Rick já passou no ponto de retorno. Ele é um assassino (sim, eu sei que o grupo de Gareth merecia, mas reparem na sequência toda, no rosto de Rick) impiedoso que fará de tudo para salvar seus filhos, a si mesmo e seu grupo, provavelmente exatamente nessa ordem. Será interessante ver como o grupo vai lidar com isso diante do silêncio sepulcral na igreja depois da chacina à base de facões e coronhadas.

Esse momento afoga completamente a revelação anterior do padre Gabriel sobre o segredo que esconde. Sua covardia ao não deixar sua congregação entrar na igreja e ser, ato contínuo, devorada pelos monstros, é evidente, mas talvez longe de ser equivalente aos atos de Rick. Até porque, apesar dos esforços de atuação de Seth Gilliam no papel, esse momento é exclusivamente expositivo, sem flashbacks, o que retira o impacto do momento.

O que realmente causa estranheza nesse episódio é a insistência de Abraham em levar Eugene imediatamente (no meio da noite até) para Washington. Seu arroubo de urgência não faz o menor sentido lógico dentro da narrativa, especialmente porque o episódio anterior acabou com a mensagem de união do grupo. E os sacrifícios de Glenn e Maggie, que juram que seguirão Abraham se ele ajudar o grupo a derrotar os canibais, são também um tanto quanto exagerados e pouco elaborados. Mas essa separação, que realmente acaba acontecendo, é a resposta de Gimple para a indagação que venho fazendo desde o primeiro episódio: como resolver a questão da quantidade grande de personagens em tela ao mesmo tempo. Ao dividir o grupo, o showrunner resolve o problema e, provavelmente (já não afirmo mais nada categoricamente), a história, agora, se bipartirá.

Também foi inteligente a maneira como o episódio acaba. Afinal, nada, absolutamente nada de Daryl e Carol é mostrando ao longo da batalha Rick versus Gareth. Os dois haviam sumido atrás dos sequestradores de Beth e, em Four Walls and a Roof, eles são apenas mencionados, nunca vistos, a não ser nos segundos finais, quando Michonne investiga sons vindos da floresta (porque as pessoas têm mania de se aproximar dos lugares mais escuros no lugar de ficarem paradas onde estão aguardando maiores definições???) e dá de cara com Daryl que parece estar acompanhado de mais alguém. Carol não aparece. Beth não aparece. Mas ele chama mais alguém e a tela fica preta. Maldito Gimple, que, com esse artifício simples, fez um dos melhores (e mais sacanas) cliffhangers da série. Será que Carol e Beth estão com Daryl? Mais alguém? Talvez Morgan? Além disso, será que veremos o que aconteceu com Beth nesse tempo que passou em cativeiro (se é que ela foi libertada, claro!)?

São muitas perguntas que ficam, mas que podem ser respondidas rapidamente. Se Gimple acabou com as linhas narrativas de Gabriel e Gareth em apenas um episódio, duvido que o mistério de Beth perdure por muito mais tempo. E olha que não estamos nem na metade da temporada…

Vale destaque, em termos técnicos, a fotografia desse episódio, que ficou ao encargo de Stephen Campbell e não do costumeiro Michael Strazemis. Os grandes momentos da história acontecem quase no escuro total, um escuro muito bem trabalhado pela fotografia como verdadeiras paredes de isolamento para os personagens. Isso acontece com veemência na sequência da invasão da igreja pelo grupo de Gareth e a chegada de Rick, mas também nos momentos finais, com a volta de Daryl. É difícil trabalhar a escuridão bem sem apelar para superfícies reflexivas como chão molhado e o trabalho, aqui, é de se tirar o chapéu.

Agora é aguardar os coelhos-zumbis saírem da cartola maquiavélica e fulminante de Scott Gimple…

The Walking Dead – 5X03: Four Walls and a Roof (Idem, EUA – 2014)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Jeffrey F. January
Roteiro: Angela Kang, Corey Reed
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Chad Coleman, Sonequa Martin-Green, Lawrence Gilliard, Josh McDermitt, Christian Serratos, Andrew J. West, Seth Gilliam, Andrew J. West
Duração: 42 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.