Crítica | The Walking Dead – 5X05: Self Help

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série.

Depois de Self Help decidi que gosto muito do que Scott Gimple está fazendo com essa temporada. No lugar de contar uma história linear, ele, agora, dividiu os episódios em três frentes paralelas, simultâneas (ou quase) que permitem uma visão seccionada e mais bem estruturada de diversos personagens. Aprendemos mais sobre Beth em Slabtown e, agora, é a vez de Abraham e Eugene, mas especialmente do primeiro.

Não que Gimple já não tivesse tentado isso antes. Ele já havia utilizado a mesma estratégia de maneira inteligente para “rebobinar” a 4ª temporada e nos contar sobre o Governador, mas, agora, o paralelismo é mais intrincado e mais interessante, costurado dentro da estrutura narrativa de maneira orgânica. Mal vimos o extermínio dos canibais e a revelação do segredo do padre Gabriel e Gimple corta para Beth e um novo grupo de sobreviventes. Agora, sem resolver a situação de Beth (e de Carol e Daryl, claro), ele corta novamente, para olharmos com lupa o grupo de Abraham, que se mostra mais obcecado do que nunca em levar Eugene para Washington onde ele poderá salvar a humanidade. Essa é a missão da vida de Abraham e, aos poucos, vemos que Rosita e também Glenn e Maggie, que prometeram ir junto do grupo para evitar briga com Rick, passaram a adotar essa missão como sua. Todos têm, claramente, a mesma vontade de curar a praga dos mortos-vivos.

Mas Abraham tem mais por trás.

Abraham tem em Eugene sua própria salvação pessoal. Em curtíssimos flashbacks, vemos sua vida antes de se juntar a Eugene, chacinando humanos que, aparentemente, cometeram atos de violência contra ele, sua esposa e seus filhos pequenos. O horror de suas ações leva ao afastamento de seus entes queridos, suas subsequentes mortes pelas mandíbulas insaciáveis dos zumbis e uma arma na boca de Abraham até o segundo em que ele houve o pedido de socorro de Eugene. São momentos do passado que são pontilhados cirurgicamente ao longo do episódio e que contam essa curta, mas trágica história e nos dão a dimensão dos danos causados ao durão Abraham. Ele é um homem que foi salvo quase que por uma visão divina de um salvador, alguém que pode ajudá-lo a expiar seus pecados, a esquecer suas perdas. Eugene é muito mais importante para Abraham do que qualquer um ali de seu grupo – ou do grupo de Rick – pode imaginar.

E é isso que torna tão comovente a revelação final sobre Eugene não ser, na verdade, um cientista. Todos os que leem os quadrinhos vinham pacientemente esperando por isso desde que esse personagem foi introduzido na série. Havia dúvidas se ele seria mesmo o mesmo mentiroso escrito por Robert Kirkman, mas agora tudo está a panos limpos: Eugene não é a salvação. Ele é apenas um homem que é capaz de tudo para sobreviver e sua estratégia é mentir para conseguir proteção, algo que vinha funcionando muito bem até que o momento da verdade começou a se aproximar. Esse é o outro foco do episódio, em que os roteiristas trabalham também a mente para lá de complicada de Eugene, um voyeur um tanto doentio de uma arrogância de causar nojo.

Apesar dos holofotes estarem mesmo em Michael Cudlitz como Abraham, é Josh McDermitt como Eugene que efetivamente rouba a cena com uma complicada atuação que reúne, com apenas o olhar, sentimentos de inveja, arrogância, covardia e imodéstia, além de traços efetivos de genialidade nerd/geek. É um personagem fácil de odiar, mas mais fácil ainda de sentir pena.

Com todo esse olhar construtor de personagens, o episódio é bem menos veloz do que os que o antecederam. Mesmo assim, parecido com a necessidade de Gimple de abrir caminho para um novo grupo de sobreviventes em Slabtown, era um capítulo necessário. Afinal de contas, há muito tempo que não víamos estudos de personagens. As três primeiras temporadas foram vazias disso – um dos principais problemas da série, aliás – com foco apenas em Rick e no universo imediatamente ao redor dele. Na 4ª temporada, olhamos para o Governador e tivemos oportunidade de rapidamente ver o comportamento dos sobreviventes em situações de tensão. Bob foi até uma tentativa boa de Gimple, mas muito superficial e com “cheiro” de bucha de canhão, o que acabou se confirmando. Somente agora houve uma parada efetiva para olharmos de verdade para novos personagens com possibilidade de consequências futuras interessantes. Quem será Abraham sem Eugene? Aliás, será que Eugene está vivo e, se estiver, será que suas faculdades mentais estarão intactas depois daquele “encontro” com o asfalto?

Faltam apenas três episódios para o hiato da série. Há muita coisa para acontecer ainda, mas uma coisa é certa: Gimple está tornando difícil a tarefa de ignorar essa temporada!

The Walking Dead – 5X05: Self Help (Idem, EUA – 2014)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Ernest Dickerson
Roteiro: Heather Bellson, Seth Hoffman
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Chad Coleman, Sonequa Martin-Green, Lawrence Gilliard, Josh McDermitt, Christian Serratos, Andrew J. West, Seth Gilliam, Andrew J. West, Christine Woods, Erik Jensen, Tyler James Williams, Keisha Castle-Hughes, Cullen Moss
Duração: 43 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.