Crítica | The Walking Dead – 5X09: What Happened and What’s Going On

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do episódio e da série. 

Tyreese.

Qual é mesmo a função de Tyreese em The Walking Dead? O cara não faz nada a não ser ficar chorando pelos cantos, lamentando a vida. E isso tudo apesar do tamanho e de, nos quadrinhos, sua personalidade ser bem diferente. Que personagem mais mal aproveitado! Um verdadeiro desperdício…

Não, minha gente. Não é bem isso não. Mas talvez só realmente percebamos o valor de Tyreese agora, que ele morreu, em talvez um dos mais belos episódios da série inteira, o primeiro a verdadeiramente dar valor a uma morte. Se você não gostava de Tyreese, eu entendo. Também não era lá muito amigo do grandalhão de coração gentil. Afinal de contas, ele não empunhava armas, não matava ninguém e não tinha segredos. Basicamente, desde que apareceu, só foi útil para salvar Judith, algo que, aliás, nem vemos em tela.

Mas Tyreese, dentro de toda sua passividade, representava a humanidade. Ou, pelo menos, a visão idealizada da humanidade. Aquela humanidade que achamos que temos, mas que, na verdade, estamos longe de alcançar. Ele era a calmaria no meio do caos. A razão no meio da insanidade. A ternura no meio do furacão de violência sem fim desse universo zumbificado.

Tyreese representava a pureza, a beleza e a vida, algo que simplesmente não mais existe em The Walking Dead e, agora, ele se foi. Provavelmente não será substituído, mas eu garanto que será lembrado. What Happened and What’s Going On é um belo epitáfio para o personagem e, desde seu título, no faz pensar e olhar para trás ao mesmo tempo que para frente. Em termos comparativos, a chocante morte de Beth, no midseason finale, não se compara ao que vemos nesse episódio. Lá, de certa forma, vemos uma morte vazia, sem consequências. Agora, vemos algo com extremo significado e que é usado pelo inteligente roteiro de  Scott M. Gimple, também o showrunner, tendo Greg Nicotero, que também dirigiu No Sanctuary, o explosivo episódio de abertura dessa temporada, na direção novamente.

Mas de explosivo What Happened and What’s Going On não tem nada. E é aí que está a beleza do episódio. Ele é contemplativo de tudo que veio antes e do que potencialmente virá adiante. Ele literalmente nos mostra “o que aconteceu” e “o que está acontecendo” sob os olhos imaculados de Tyreese às portas da morte não depois de algo espetacular, mas sim por ser mordido por um dos irmãos menores de Noah, quando a viagem esperançosa do grupo para onde Noah e Beth iriam se tivessem conseguido fugir do hospital acaba revelando apenas desgraça.

Nesse momento solitário, Tyreese conversa com aparições um tanto fantasmagóricas de diversos personagens falecidos na série. Bob e Beth estão lá, assim como as irmãs Mika e Lizzie, Martin (aquele canibal que Tyreese diz que matou, mas não verdade não matou) e, claro, o Governador. São momentos introspectivos que servem para literalmente indagar sobre quem é Tyreese e seu papel no grupo. Martin e o Governador representam aquele diabinho que fica em um dos ombros, enquanto os demais o anjinho e essa jogada, por mais clichê que possa parecer, nos faz voltar no tempo, revisitando momentos chave da série, no que somos ajudados também pela esperta montagem que insere cenas clássicas (como a visão da torre da prisão) e outras, especialmente a de um enterro que entendemos ser de Beth, mas logo (depois de Tyreese ser mordido) percebemos que não é.

O foco em Tyreese é completo. Tanto é assim que o grupo, no começo, decide partir de Atlanta para Richmond e, na sequência seguinte, eles já estão chegando. É uma escolha mais do que acertada. Chega de viagens atribuladas, interrompidas pelos mais diferentes fatores. Não ficou realístico? Pouco importa. Nesse caso, o fim justificou os meios. A viagem de carro até Richmond é completamente sem consequências justamente porque as consequências estão lá, no beco sem saída da humanidade representado pelo quarto em que Tyreese conversa com fantasmas.

E também não vemos o grupo todo. As grandes estrelas – Daryl e Carol – ficam para trás com metade do grupo. Só vemos mesmo Rick, Glenn, Michonne (falando em personagem inútil…) e Noah. E mesmo assim, muito pouco. Nicotero e Gimple querem nossa atenção integralmente no gigante negro cuja aparência abrutalhada sempre revelou uma alma pura. Chad Coleman teve muito poucos momentos para mostrar seu potencial dramático, mas, nesse episódio, ele tem o palco apenas para si e ele comanda o show com muita eficiência, mesmo quando Nicotero insiste em close-ups incômodos para não nos permitir o desvio de olhar.

Tenho para mim que What Happened and What’s Going On encerra uma era. O grupo que permanece é formado de gente dura, assassinos frios (ok, e dois covardes, não é Padre Gabriel e Eugene?) e o equilíbrio representado por Tyreese (e antes também por Hershel) desapareceu. Isso não quer dizer, óbvio, que o grupo se tornará canibal, claro que não, até porque Daryl já deu pistas várias vezes de ser o novo fiel da balança, mas, agora, o estado de selvageria pode aumentar.

A não ser, claro, que a lembrança de todos sobre o que Tyreese representava permaneça viva na mente coletiva do grupo. Espero que essa seja a escolha de Gimple.

E sim, mesmo nunca tendo dado o valor necessário ao personagem (e essa crítica é um mea culpa, claro), sei que sentirei falta de Tyreese.

The Walking Dead – 5X09: What Happened and What’s Going On (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Scott M. Gimple
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Chad Coleman, Sonequa Martin-Green, Lawrence Gilliard, Josh McDermitt, Christian Serratos, Andrew J. West, Seth Gilliam, Andrew J. West, Christine Woods, Erik Jensen, Tyler James Williams, Keisha Castle-Hughes, Cullen Moss
Duração: 43 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.