Crítica | The Walking Dead – 5X10: Them

estrelas 3

Obs: Há spoilers do episódio e da série. 

Qualquer episódio que viesse depois de What Happened and What’s Going On sofreria com expectativas altas que não se materializariam. E isso é justamente o que acontece com Them, que serve como calmaria e tempestade ao mesmo tempo.

O grupo de sobreviventes está exausto, triste, com fome e com sede. O caminho de Richmond para Washington se torna longo e arrastado. Ninguém fala, só procuram água e comida. Os nervos estão à flor da pele. Sasha, Maggie e Daryl tentam, cada um a seu jeito, lidar com a perda de Tyreese e Beth (Bob, coitado, nem é lembrado…). Os demais ganham pouco foco, mas estão sofrendo também. A moral nunca esteve tão baixa na combalida e cada vez mais diminuta tropa.

E, se no episódio anterior o roteiro pulou a jornada, agora o foco é todo nas últimas 60 milhas para Washington D.C. Sinceramente, espero que os tempos de “narração de jornada” depois de Them fiquem para trás, pois esse tipo de artifício já deu o que tinha que dar. Mesmo que, aqui, haja justificativa para seu uso, é quase impossível não revirar os olhos com mais uma história nessa linha, provavelmente a ducentésima desde que a série começou.

Mas ok, não é algo fora desse mundo, pois o objetivo do roteiro foi mesmo, finalmente, fazer uma pausa depois da cadeia de perdas do grupo e mostrar o que os demais estão sentindo. Sasha, que perdeu Bob e Tyreese entra em uma escalada de violência tentando descontar sua raiva nos mortos-vivos e quase pondo tudo a perder na sequência na ponte que, aliás, vale um parêntese: que maneira brilhante de extermínio de zumbis com o mínimo de esforço, não? E com uma luta visceral que quase literalmente faz Rick ser mordido. E o parêntese continua, na verdade, pois, logo antes desse momento, há uma tomada na estrada em que vemos, em segundo plano, os zumbis e, em primeiro, o grupo de Rick fraco demais para sequer virar para trás e lidar com os monstrengos. Beleza de fotografia ali.

Mas fecha parênteses. Maggie é pura tristeza que ela não consegue esconder e nem extravasar, deixando Glenn agoniado com toda razão. Daryl sente um misto de culpa e arrependimento que o faz se fechar em si mesmo, tendo apenas Carol como alguém que realmente o entende.

E o grupo como um todo ameaça esfacelar-se diante da desesperança que abate a todos. E é aí que o maniqueísmo do roteiro começa a ficar saliente demais. Enquanto que, por alguns efêmeros minutos, a ameaça de “quebra” do grupo parece real, ela logo se dissipa, dando espaço a uma contínua e repetida lição de que “juntos chegaremos lá”. E, assim como uma campanha eleitoral repetida ad nauseam, esse mote é trazido à tona a cada cinco ou 10 minutos enquanto que ele fica abundantemente claro logo na primeira vez. Ok, já entendemos: o grupo não se separará. Alguma coisa mostrará que somente juntos eles podem lutar contra as adversidades.

E é aí que a tempestade começa. Literalmente. Todos ficam felizes com exceção do trio sofredor que a câmera faz questão de frisar novamente, em um belo momento que, porém, é didático demais. Mas a felicidade também é efêmera, pois não se trata de uma chuvinha qualquer, mas sim algo letal que os obriga a procurar abrigo em um celeiro que Daryl convenientemente achara minutos antes. E é ali que finalmente descobrimos qual é o evento que fará o grupo agir em uníssono: uma horda de zumbis ameaça entrar e só todos juntos segurando a porta é que a ameaça é debelada. Hummm, certo. Bonitinho, mas ordinário, não é mesmo?

Bem, na verdade estou sendo injusto. A sequência em si, em termos cinematográficos, não tem nada de ordinária. Ao contrário até. Apesar do drama ser clichê, a execução é brilhante, com uma fotografia escura que, em um primeiro momento, só permite a visão de silhuetas, especialmente a de Daryl, sozinho, como o primeiro a descobrir o problema. Na medida em que os demais se levantam para ajudar, a intensidade da tempestade aumenta, os relâmpagos quebram o breu, vemos todos se ajudando, compenetrados, e a edição e mixagem de som misturam sons diegéticos com uma trilha acachapante, desesperante, que transforma aquela experiência em um potencial pesadelo coletivo, algo ajudado pela montagem rápida durante a ação e serena no corte seguinte em que vemos todos acordando pela manhã. Aquilo aconteceu mesmo? Essa dúvida de poucos segundos é logo dissipada – sim, aconteceu – mas a mera existência da dúvida na cabeça do espectador por alguns nanossegundos já retira a cena do lugar-comum a que ela estaria fadada.

Mas essa pequena sequência não é suficiente para realmente tornar Them um episódio verdadeiramente memorável. Além dos problemas narrados acima, há outros menores, mas que realmente me incomodaram. O discurso de Rick, por exemplo, sobre quem na verdade são os “walking dead”, soou completamente deslocado e desimportante, sem gerar o efeito desejado. Carol voltou à sua função de coadjuvante rápido demais, como se Gimple tivesse se arrependido de dar à ela um status de Ellen Ripley em No Sancturary. Além disso, e provavelmente vocês dirão que estou sendo inclemente, mas o que raios tem Judith? Ela é o melhor bebê do mundo, não é mesmo? Não sente fome, não desidrata, não chora, não reclama. Sempre está feliz, gordinha e rosadinha. Muito bonito se estivéssemos falando de Desperate Housewives, mas isso é The Walking Dead. Não se esqueça disso, Mr. Gimple!

O episódio, porém, não é imprestável. Era mesmo necessário um momento de contemplação. A primeira metade funciona nesse sentido, mostrando que a humanidade dos sobreviventes ainda existe, que eles ainda sentem profundamente, que um pouco do que Tyreese representava continua lá, intacto. E, mesmo quando o final clichê se torna dolorosamente previsível, a direção, fotografia e montagem geram um espetáculo de sequência técnica.

E claro, há o mistério final, com o aparecimento do bem vestido, limpo, penteado e simpático Aaron. Um traço de civilização? Veremos…

The Walking Dead – 5X10: Them (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Julius Ramsay
Roteiro: Heather Bellson
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Tyler James Williams, Ross Marquand
Duração: 43 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.