Crítica | The Walking Dead – 5X13: Forget

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do episódio e da série. 

Coitado do jovem Sam. O moleque ficará traumatizado o resto da vida. Nunca mais será o mesmo. Não conseguirá dormir, fará xixi na cama toda noite e acordará suado, gritando, mesmo com 50 anos de idade, em futuro distante.

E esse trauma todo foi causado por um morto-vivo? Por um vilão que o sequestrou? Por ter testemunhado as mortes de seu pais e irmão da maneira mais horrível possível? Não. Nada disso. Muito PIOR que isso.

Sua cicatriz psicológica foi infligida pela deliciosamente monstruosa SCarol, a mulher invisível de The Walking Dead que desde já merece um Emmy. Não. Dois logo. Vai dizer que você aí não ficou impressionado – e horrorizado – com Melissa McBride mais uma vez? Diga-me se não começou a suar frio com aquela interminável e terrivelmente cruel ameaça que ela fez a Sam, que só queria mais biscoitos daquela meiga senhora. Diga-me se, depois daqueles segundos de suspense, você não abriu um sorriso e mentalmente – ou não – gritou “YES” com o punho cerrado. Pode dizer a verdade. Não vou julgar você. Afinal, eu senti e fiz tudo isso e talvez eu mesmo acorde gritando com medo de Carol.

Porque zumbi não é nada perto dessa mulher. Que momento, meus caros, que momento!

Mas sei que estou me adiantando pacas. Vamos voltar um pouquinho.

Forget é um episódio que esperava há muito tempo. Sem mortes, quase sem zumbis e com muita aparente normalidade. Apesar de Remember também ter tido essas características, ele foi mais um episódio de reconhecimento de um novo status quo. Agora, já vemos Rick e seu grupo efetivamente incorporados pela comunidade da pacata e alegre Alexandria, que os acolheu de braços abertos. Ou, pelo menos, os moradores de Alexandria assim acham.

Sasha é a primeira que vemos em minúcia. Ela não consegue dormir e coça desesperadamente para empunhar, o que faz logo na manhã seguinte do lado de fora dos muros que prometem segurança à vila. Sasha não consegue esquecer suas terríveis perdas, mas, muito mais do que isso, não consegue lembrar de sua vida pré-apocalipse zumbi. Ela ouve barulhos e vê perigo a cada segundo e não consegue relaxar. Nem mesmo sua macabra prática de tiro ao alvo amaina as coisas para ela. É como se sua vida constantemente com adrenalina lá em cima a tivesse viciado. Ela precisa de mais, procura mais e não vê, na vida em Alexandria, algo compatível com o que ela se tornou.

Esse foi o dilema de Daryl em Remember também, mas já esperávamos isso do talvez mais selvagem componente do grupo de sobreviventes. E, em Forget, ele continua igual, espelhando o comportamento de Sasha. Mas o que não esperamos é a insistência de Aaron em laçá-lo e trazê-lo de volta à segurança de Alexandria. Esse é o belo paralelo – quase uma parábola – feito com a pequena história do cavalo que Aaron e Daryl encontram do lado de fora. Aaron já tentara capturá-lo algumas vezes e, agora, é a vez de Daryl. O selvagem caçando o selvagem. As tentativas dão errado, o cavalo é, finalmente, morto pelos famintos zumbis. É adaptar-se ou morrer, isso fica claro para Daryl, que aceita a mão estendida de Aaron como sua vagarosa volta à civilização, que se consolida depois com um prato de macarrão e uma oferta que ele não pode recusar envolvendo a reconstrução de uma moto e a volta ao lado de fora para missões de recrutamento.

Mas a morte do cavalo traz outra lição, talvez ainda mais valiosa: ele morreu, pois baixou a guarda, passou a confiar um pouco nos humanos que o tentavam capturar. Ele confiou tanto que se aproximou dos mortos-vivos e, claro, virou refeição. A moral é simples: nesse mundo terrível estabelecido por Scott M. Gimple e os demais showrunners que o antecederam, confiar é morrer.

E Rick sabe disso. Daryl e SCarol também. Os três têm um plano para furtar armas de Deanna, o que explica, na verdade, o comportamento domado de SCarol em Remember e por boa parte de Forget. Eles não querem continuar jogando pelas regras da comunidade, pois eles sabem (com grau de certeza total) que aquilo ali não é a realidade. Um dia, literalmente, a casa cairá e eles precisam estar preparados. Se essa noção é alienígena para Deanna e seu rebanho, ela faz parte do que define Rick e boa parte de seu grupo. Como esse conflito será solucionado? Bem, a julgar da proximidade desse arco com os quadrinhos que deram base a ela (algo bem raro na série), posso dizer que, bem, Rick está mais que certo…

Mas, além da trama em si, que é construída a passos lentos, mas precisos, com um roteiro que economiza em diálogos expositivos e faz o máximo para trabalhar as situações de maneira orgânica, há que reparar na fotografia e iluminação desse episódio. Basicamente o exato contrário do que estávamos acostumados, não há sequências noturnas ou de outra forma no escuro. Mesmo os momentos com zumbis são à luz do dia, sem mistérios (ok, com exceção do W – ou M – na testa do morto-vivo morto…).

O drama e o suspense, dessa vez, estão em outro lugar, dentro de cada personagem. E Scarol é o maior exemplo disso. Ela aparece iluminada, com roupinhas “simpáticas”, exatamente como os outros esperam que uma senhora normal seja. Mesmo tramando com Rick e Daryl, ela é uma simpatia. E aí vem a única sequência no escuro de todo o capítulo, o tal momento em que Sam ganha seu trauma para toda a vida. Scarol se transforma completamente, mas vagarosamente, a ponto de, por alguns centésimos de segundos, até duvidarmos se esse é mesmo o rumo que a prosa está tomando. Nesse momento, a fotografia prenuncia um fim terrível e é mesmo um fim terrível. Afinal – e agora sem brincadeiras – o que ela faz com Sam é de uma maldade ímpar. Talvez necessária, mas ainda sim uma maldade.

Mas não é por isso que deixarei de torcer por Scarol. Aliás, muito pelo contrário…

The Walking Dead – 5X13: Forget (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: David Boyd
Roteiro: Corey Reed
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Tyler James Williams, Ross Marquand, Jordan Woods-Robinson, Austin Abrams, Katelyn Naco, Tovah Feldshuh, Alexandra Breckenridge, Corey Brill
Duração: 43 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.