Crítica | The Walking Dead – 5X14: Spend

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leia a crítica dos demais episódios, aqui.

Caramba, realmente não esperava algo assim.

Não mesmo.

Quando a missão de Glenn, Aiden, Nicholas, Noah, Tara e Eugene para achar aparelhos eletrônicos se iniciou, pensei comigo mesmo “ah não, vão zumbizar de novo em vez de focar nas relações humanas potencialmente bem mais interessantes em Alexandria”. E, assim, comecei a ficar com extrema má vontade. Quando o grupo entra então no armazém escuro, deu vontade de bocejar de tanto potencial dejà vu.

Mas aí Jennifer Lynch (filha de David Lynch e que começou sua carreira na direção com o perturbador Encaixotando Helena, que também escreveu) mergulhou de vez na estrutura de filme de terror B e me deixou sem chão e completamente boquiaberto. Há muito não via uma narrativa de “ataque de zumbi” tão bem estruturada em The Walking Dead ou em qualquer outra série ou filme. Demorei a perceber que o morto-vivo com armadura policial tinha granadas e que um dos tiros de Aiden catalisou todo o horror que veríamos a partir daí. Tive que literalmente voltar o vídeo para perceber a razão do “não” tardio e desesperado de Glenn para Aiden.

O que se seguiu foi o perfeito episódio “romeriano”, com direito a segredo revelado, morto que não morreu e que morre em seguida mesmo assim, corajoso que se torna covarde e – FINALMENTE! – o covarde que se torna corajoso. E a coragem de Eugene nos dá o momentâneo e maliciosamente falso alívio em relação à excepcional sequência na porta giratória. Uma situação completamente sem saída salva pelo covarde que achou sua coragem.

Mas que nada! A alegria durou pouco e, em um torturante momento, vemos o corajoso covarde do Nicholas estragando tudo e, no processo, sacrificando o esperançoso Noah, que vimos na abertura olhando para o futuro, querendo aprender engenharia civil com Reg, marido de Deanna, em conversa em um idílico gazebo. Sou normalmente bom para prever mortes, mas a de Noah realmente me pegou de surpresa, especialmente pelo caráter gráfico (cabe novamente soltar o “romeriano” aqui, sem dúvida) e inclemente dela. O rapaz é despedaçado na frente de um desesperado Glenn, que nada pode fazer em uma sequência seca, sem enrolações, sem firulas.

E toda essa excepcional cena de ação é entrecortada com momentos em Alexandria, o paraíso já perdido, um mundo que, debaixo da aparência de normalidade, é apodrecido conforme aprendemos com a confissão de Nicholas e o “suicídio por zumbis” de Aiden e, também, pela violência doméstica perpetrada por Pete, o cirurgião bêbado e que fica ao encargo de Carol descobrir . Nada é o que parece e as revelações – todas indiretas, intuídas, ditas pela metade – são aterradoras.

O roteiro de Matthew Negrete é um primor. Ele constrói as sequências de puro terror gráfico com outras de terror psicológico, acrescentando, ainda, pitadas de heroísmo “a moda antiga”, como é o caso no momento que envolve Abraham, o mais novo “Chuck Norris” da série (só perde para Carol, claro…). E Carol sendo a responsável pela descoberta de que Pete é um pai e marido abusivo é incrivelmente circular, já que ela mesmo começara a série sofrendo da mesma maneira. O equilíbrio narrativo nesses rápidos 43 minutos de Spend é raro de se encontrar por aí, especialmente quando ele é combinado com uma direção que sabe utilizar a câmera baixa, rasteira ao chão para nos colocar no meio do terror ou uma fotografia com filtros marcadamente esmaecidos para contrastar a falsa tranquilidade de Alexandria com o mundo exterior.

E, como se os atos heroicos, as mortes horríveis, as revelações arrasadoras e as decisões tomadas não fossem suficientes, eis que entra o Padre Gabriel – novamente com o clergyman no pescoço e uma Bíblia, que ele rasga, na mão – traindo seu segundo rebanho. Ah, esse maldito demônio com roupa clerical. Esse monstro que, para expiar seus pecados, comete mais pecados ainda e aumenta as dúvidas de Deanna sobre as cada vez mais proeminentes posições que os membros do grupo de Rick vão tomando em sua “sagrada” e “pura” comunidade. Deanna já estava desconfortável com a situação e a delação (premiada?) de Gabriel será, provavelmente, junto com a descoberta da morte de seu filho, a gota d’água.

Há muito tempo não ficava tão tenso com um episódio de série de TV. A intensidade de Spend é de tirar tirar o ar e nos deixar desconfortáveis. Não há tempo para pensar, só para reagir em silêncio desesperador, como se estivéssemos presos como observadores em uma porta giratória de vidro.

Scott M. Gimple pode parar por aqui, pois o que ele já fez por The Walking Dead é mais do que o suficiente para compensar tudo que a série não foi durante toda as suas três primeiras temporadas. Não, brincadeira. Ele não pode parar coisíssima nenhuma!

The Walking Dead – 5X14: Spend (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Jennifer Lynch
Roteiro: Matthew Negrete
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Tyler James Williams, Ross Marquand, Jordan Woods-Robinson, Austin Abrams, Katelyn Naco, Tovah Feldshuh, Alexandra Breckenridge, Corey Brill
Duração: 43 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.