Crítica | The Walking Dead – 6X01: First Time Again

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, aqui.

Vocês queriam zumbis? Então tomem zumbis!

Acho que deve ter sido esse o pensamento de Scott M. Gimple a partir dos comentários prevalentes em relação à secura de mortos-vivos em Fear the Walking Dead, a série spin-off que, tão rapidamente quanto veio, já foi embora. E é interessante notar como First Time Again parece uma versão estendida, detalhada e muito mais ambiciosa do plano idiota de Daniel em The Good Man. Mas calma, não estou dizendo que o plano de Rick é idiota. Muito ao contrário até, pois fica evidente que o que não funcionou em Fear the Walking Dead funcionou à perfeição neste episódio de abertura de temporada de The Walking Dead. E que abertura não é mesmo?

Focado em construir tensão com uma narrativa que começa dias depois de Conquer, o roteiro escrito pelo próprio Gimple com Matthew Negrete e dirigido por Greg Nicotero, como já se tornou praxe no que se pode tranquilamente chamar de “Era Gimple”, já começa em meio a uma situação impossível, com personagens novos (Heath, vivido por Corey Hawkins, é um deles) em que o grupo de Rick mais o grupo de Alexandria têm que lidar com uma gigantesca horda de desmortos encurralados em uma ravina. O que raios aconteceu?

Esse proposital desnorteamento inicial é muito bem vindo, pois afasta a abertura dos traumáticos eventos de Conquer sem, porém, fugir deles completamente. Na verdade, em flashbacks em preto e branco inseridos cirurgicamente em meio a um plano grandioso de Rick para se livrar dos monstros, vamos aos poucos aprendendo o que exatamente aconteceu depois da fatídica reunião que culminou com a morte trágica de Reg e o assassinato a sangue frio de Pete por Rick na frente de um estupefato Morgan. E, com isso, notamos que, diferente do que se pode imaginar, a verdadeira história está exatamente onde deveria estar: nas relações humanas. Aquele monte de zumbis nas sequências coloridas são apenas as alegorias que deveriam ser para alimentar a massa faminta por sangue, tripas e mais sangue.

O grande acerto de Gimple e Negrete está na coragem de dificultar tudo tanto para os grupos em choque quanto para nós, espectadores. O clichê voa pela janela sem cerimônias e temos o recém-chegado Morgan sendo jogado atrás das grades por um Rick que desconfia de tudo e de todos, necessitando que “a primeira vez de novo” do título aconteça para que os dois realmente reatem a amizade original (ou talvez seria melhor classificar como respeito mútuo). Jessie, muito diferente de cair nos braços de Rick agora que não tem mais o marido abusivo em seu caminho, afasta-se do líder de fato do grupo. Ela visivelmente tem medo daquele homem, mas sabe que Alexandria precisa dele. Além disso, o odioso Nicholas, responsável pela morte de Noah e por emboscar Glenn, recebe deste último a outra face, ainda que, claro, com hesitação. Sasha e Abraham se estabelecem como os grandes “perturbados” do grupo, com um certo death wish que não passa. O padre Gabriel leva sua devida patada de Rick ao tentar ajudar o grupo, demonstrando que houve uma quebra de confiança ali que pode gerar problemas no futuro em se tratando de quem é. E o que falar de Morgan percebendo o jogo “de espionagem” da sorridente, frágil e simpática Carol/Rambo?

Somando-se a todos esses relacionamentos intrincados, conhecemos, ainda, Carter (Ethan Embry), que aparece magicamente – junto com o já citado Heath – como parte de um grupo de busca que há semanas não voltava para Alexandria. Ele é o grande opositor de Rick aqui e confesso que esta sua entrada repentina, quase que como um retcon, foi uma saída “suja” do roteiro para trazer um personagem que pudesse honestamente fazer esse papel de contrapeso e que também pudesse ser descartado depois de “usado”. É que, se pensarmos friamente, apesar do enorme elenco, não havia ninguém ali que, dentro das necessidades de um episódio dessa natureza, pudesse ocupar esse espaço e ser morto ao final sem que outras consequências fosse geradas. Portanto, ainda que tenha me incomodado, a forma completamente sem explicações como ele é trazido para a discussão por incrível que pareça carrega veracidade e é possível aceitá-lo e até, talvez, sentir um pouquinho por sua morte que termina de revelar o grau de frieza a que Rick chegou, aspecto que deixa Michonne e Morgan irrequietos.

A escolha do preto e branco para as sequências em flashback foi particularmente interessante por referir-se claramente aos quadrinhos em que a série se baseou e também uma espécie de relembrança do episódio de abertura da 1ª temporada que a AMC chegou a passar também em preto e branco.

No entanto, apesar da história principal e realmente mais interessante ser a que se passa no passado recente, a “gestão Rick Grimes de hordas de zumbis” é construída com um muito bem vindo grau de suspense e tensão, algo sempre agradável de se ver (roendo as unhas…) quando bem trabalhado por um diretor competente como Nicotero, que compõe cada fotograma cirurgicamente, equilibrando os espaços cenográficos e trazendo equilíbrio a um difícil e inteligente jogo de “levar o rebanho” para longe. Vê-se uma escala gigantesca, com as sequências em plano aberto, de cima, com os milhares de zumbis na ravina e, depois, na estrada e uma belíssima compartimentalização que não só não nos deixa ver o todo de cara como, também, permite que os personagens interajam em grupos menores. Rick com Carter, Glenn com Nicholas, Sasha com Abraham e assim por diante.

E, claro, como não falar daquele cliffhanger desesperador que não me permite deixar de especular sobre o que pode acontecer. Quem tocou a sirene e por que? O que acontecerá com Alexandria agora que meia horda caminha para lá? Será que os Lobos estão envolvidos? Chega a ser maldade de Nicotero fazer isso…

Que venha rápido a próxima semana!

The Walking Dead – 6X01: First Time Again (EUA, 2015)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Scott M. Gimple, Matthew Negrete
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas
Duração: 65 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.