Crítica | The Walking Dead – 6X02: JSS

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, aqui.

Vou logo deixar tudo em panos limpos: eu vibrei a cada momento com Carol matando Lobos a torto e a direito, apesar das reclamações do chato do Morgan. Processem-me, mas aquela mulher não tem igual. Não tem para Rick, nem para Daryl, nem para Michonne, muito menos para o “paz e amor” do Morgan.

De cozinheira simpática trocando receitas com suas comadres, ela se transforma literalmente em uma personagem que poderia muito bem ter saído da franquia Mad Max e destroça, sem dó nem piedade, tanto assassinos loucos como alexandrinos moribundos que não param de gritar. Melissa McBride deve estar se divertindo muito no papel, pois ela convence piamente os espectadores como senhorinha simpática e como assassina sanguinária. Ah, e se algum leitor ficou horrorizado com minha confissão, peço que olhe para si mesmo lá no fundo e me diga, olhando nos meus olhos, que não sentiu nem um pouco de satisfação com cada morte infligida pela meiga e simpática cozinheira de caçarolas…

Mas, ultrapassado esse ponto, que nos deixa em pé de igualdade (ei, você que ficou horrorizado, volte aqui – mas não, não estava brincando e não retiro o que disse…), foquemos no intenso, mas também intrigante JSS. Intrigante em razão de seu título, que aprendemos ser uma sigla para just survive somehow (“apenas sobreviva de alguma forma”), que Enid usa incessantemente no prelúdio que inclui uma deliciosa refeição de tartaruga crua. Sempre desconfiei daquela garota e tinha certeza, quando a vi no flashback de sua “origem”, que ela teria alguma relação com a tal buzina cliffhanger do final de First Time Again. No entanto, o prelúdio parece ter sido uma espécie de bola curva jogada por Scott M. Gimple, por intermédio do roteiro de Seth Hoffman. Não há, pelo menos com as informações do episódio, razões para crer que Enid tenha alguma relação com os Lobos, ainda que algo ainda me diga que ela não é flor que se cheire e eu tenha ficado ressabiado com ele ali por perto de Carl e Judith.

Bem, após o prelúdio, é interessantíssimo ver como Jennifer Lynch (filha de David Lynch), que já mostrara grande habilidade na direção da série em Spend, 14º episódio da temporada anterior, em que Noah é brutalmente morto, constrói a tensão aqui. Posso ter sido o único – mas duvido que tenha sido, confessem! -, mas pulei do sofá quando o primeiro ataque dos Lobos acontece sob o ponto de vista de Carol preparada para brigar com sua vizinha por não largar o vício do fumo. Essa cena absolutamente chocante marca toda a brutalidade do mundo exterior que Rick vinha tentando mostrar aos habitantes de Alexandria que existia. É a volta pesada do conceito de que a grande ameaça na série não é um exército de desmortos lerdos e descerebrados, mas sim seres humanos vivinhos da silva, enlouquecidos e transfigurados pela situação em que vivem.

E a surpresa indutora de ataques cardíacos coletivos (maldita seja, Jennifer!) marca o ritmo do que vemos a seguir, com mortes e mais mortes aparentemente sem fim, incluindo desmembramentos explícitos (mas, aparentemente, de ninguém relevante, em uma conveniência do roteiro). Além de JSS ser um episódio sem zumbi, ele também é sem Rick e sua tropa de elite. Nada de Michonne, Abraham, Daryl ou Glenn e isso é ótimo, pois permite foco na oposição entre Carol e Morgan. Mas quem precisa desse grupo quando se tem Carol, não é mesmo? Parece, porém, que seu segredo não será mantido por muito tempo já que ao menos uma habitante de Alexandria a viu em ação recolhendo armas no arsenal, ainda que suspeite que Carol ameaçará a coitada assim como fez com Sam em Forget.

De toda forma, o grande conflito coloca Morgan (alguém me explica como é que ele foi o único que voltou à vila?) e Carol em lados opostos e os dois são as grandes estrelas do episódio, cada um com seus métodos e com a lição do roteiro que a maneira correta de agir está em algum lugar entre os dois (ainda que, novamente, tenha dado “socos no ar” a cada momento-Carol), com Morgan provavelmente arrependido de ter deixado aquele grupo de Lobos fugir (repararam que um deles – o que pega a arma – é o mesmo que Morgan enfrenta em Conquer?) e Carol arrependida por ter matado além da conta. O contraste é muito bem trabalhado pela montagem e pela câmera de Lynch que não deixa nada escapar de seu foco.

O episódio, porém, peca ao se esquecer de alguns personagens importantes, especialmente Maggie, que, apesar de aparecer, não tem uso significativo aqui. Claro que há confusão e seria impossível Lynch trabalhar todos os pontos de vista e ela elegeu os dois principais. O resto estava lá só para “fazer número”, mas fiquei pensando que todas aquelas sequências na enfermaria, com a nova “médica” tentando ganhar auto-confiança em seu batismo de fogo, foram um tanto quanto baldes de água fria jogados de tempos em tempos, quebrando o ritmo alucinante do episódio. O mesmo efeito foi alcançado de maneira muito mais eficiente, por exemplo, com a sequência em que Deanna, vendo seu filho covarde do lado de fora, convence Maggie que ela deve ficar por ali, para não se somar às pessoas que precisam de ajuda dentro dos muros de Alexandria. Na enfermaria, todo aquele papo sobre covardia x coragem foi de revirar os olhos, ainda que, misericordiosamente, tenham sido momentos breves.

No final das contas, parece que teremos uma trilogia de episódios fechando o começo da 6ª temporada de The Walking Dead. Afinal, mesmo com a ameça dos Lobos momentaneamente debelada, fato é que os zumbis que foram atraídos pela buzina do caminhão ainda não chegaram. E olha que tinha mortos-vivos pacas naquela sequência de encerramento do episódio anterior…

The Walking Dead – 6X02: JSS (EUA, 2015)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Jennifer Lynch
Roteiro: Seth Hoffman
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.