Crítica | The Walking Dead – 6X04: Here’s Not Here

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, aqui.

Scott M. Gimple pregou uma peça em muita gente agora. Caminhando para o desfecho de seu interminável (no bom sentido) arco inaugural que se passa todo em um dia, o showrunner desvia seu caminho completamente e nos brinda com um episódio escrito por ele mesmo integralmente em flashback linear, com apenas breves enquadramentos no presente, um no começo e outro no final, abordando a origem do Morgan-Ninja-Paz-e-Amor-A-Vida-É-Sagrada que vimos desde o começo da temporada. E isso no meio do ferrenho debate sobre o destino final de Glenn, que vem levando a internet à loucura com as mais diversas teorias (o debate nos comentários à minha crítica anterior é particularmente enriquecedor graças a vocês, leitores fieis).

Assim, prevejo muita gente no mínimo irritada com Gimple e confesso que, por alguns vários minutos após o encerramento de Here’s Not Here, episódio extra-longo com 65 minutos, fiquei com o mesmo sentimento. No “barato” Gimple errou o momento em que deveria ter inserido esse capítulo não é mesmo? Mas então, pensando com mais calma, reparei que foi uma decisão acertadíssima, já que tudo que vimos até agora nesta temporada foi de um frenesi insano que exigia uma parada e nada melhor do que pausar justamente no momento mais controverso. Não concordam? Tudo bem, mas foi uma escolha e uma escolha que, tenho para mim, funciona melhor agora, como um oásis no meio da tensão do que como um episódio dénouement ao fim de tudo.

Mas mais do que um capítulo feito para quebrar a tensão, a origem da nova versão do Morgan perturbado que Rick, Carl e Michonne deixaram em Clear, lá atrás no já longínquo 12º episódio da 3ª temporada da série, é um sopro de esperança em um mundo devastado. Gimple, desde que tomou as rédeas da série na 4ª temporada, vem tentando levantar a sadia conversa sobre a civilização, o que ela é e quando ela realmente acaba. Sua desconstrução e reconstrução de Rick Grimes é exemplar, assim como sua transformação de Carol. Mas, desde a morte de Tyreese, não havia um contraponto à violência – necessária, sim, entendo e, como mencionei, urrei a cada Lobo morto por Carol em JSS – e desconfiança extrema de Rick e seu grupo. Morgan, tendo ido até o inferno, ressurge como uma chama de esperança que cria o diálogo que deve – precisa! – ser uma constante na série.

Agora que sabemos que ele não matou aquele Lobo ao final de JSS e que é para ele que o final “surpresa” revela que a história pregressa está sendo contada, podemos entender exatamente quem é Morgan e o que ele doravante representará para a série. Se eu concordo integralmente com ele? Não, certamente que não, considerando-se tudo que Rick e companhia passaram nesse zumbi apocalipse. A maldade humana, pelo visto, não tem limites, mas um Morgan é sempre importante para trazer equilíbrio, para que possamos ver em seu rosto um resquício de humanidade, de civilização. Caso contrário, para que lutar, para que sobreviver?

E o flashback, propositalmente em ritmo lento, com planos longos de Stephen Williams e diálogos expositivos de Gimple, nos faz acompanhar a jornada de Morgan em direção à luz. Seu guia é alguém que jamais poderíamos imaginar como um treinador ninja (sim, sei que é Aikido e sei que isso faz toda a diferença, mas é mais divertido usar ninja). Eastman tem barriga avantajada e é parcialmente calvo, uma espécie de antítese do arquétipo que esperaríamos. Acontece que John Carroll Lynch brilha em seu curto papel e nos convence também de sua própria e terrível jornada, fazendo-nos contorcer no sofá com sua serena narração de fatos passados sobre a maldade do Homem.

Sim, Eastman enfrentou o pior momento da sua vida não depois que o mundo acabou, mas sim antes, em sua luta aparentemente contra o mal encarnado e que foi responsável pela morte de sua família. E é absolutamente brilhante ver como Gimple faz uso de um conta-gotas cirúrgico para justificar todo o cenário que utiliza. A cabana perdida no meio do mato, a cela na cabana, o aikido, o vegetarianismo de Eastman, o cemitério, tudo tem uma lógica perfeita, mas que não a vemos logo de início. As peças do quebra-cabeças vêm aos poucos, natural e fluidamente, sem maiores solavancos. Há previsibilidade no texto de Gimple? Sim, muita. Só que funciona do começo ao fim, especialmente a partir do momento em que nosso cérebro entende e aceita que o episódio será mesmo “só” um gigantesco flashback (confesso que meu cérebro demorou a pescar isso…).

E se Lynch brilha como a luz solar, Lennie James brilha do seu jeito, convencendo-nos da negritude em seu interior (clear!) e de seu caminho em direção à iluminação que precisa ser lento e cuidadoso para não parecer instantâneo ou fácil demais. E não parece mesmo, graças à montagem inteligente de Rachel Goodlett Katz que faz o melhor uso dos planos longos de Williams, intercalando-os com outros mais curtos que fazem o tempo passar com mais velocidade, mas sem nunca precisar a quantidade. Afinal, isso não interessa de verdade. O que precisamos testemunhar é Morgan literalmente transformar-se em Eastman. Afinal, ninguém tinha dúvida que Eastman morreria e por culpa de Morgan, não é mesmo? E é essa culpa “final” que amplifica os sentimentos natos do personagem e o colocam integralmente no lugar de seu mentor.

Gimple escreve sem preocupação de impulsionar a história ou de se explicar (quem é Glenn mesmo?). Ele tem apenas seus dois personagens (três se contarmos com a cabrita…) em foco e a jornada de Morgan no horizonte. Seus diálogos são naturais – lá no fundo imaginei, de brincadeira, que poderia facilmente ser uma peça publicitária sobre Aikido criada por Don Draper – e bem colocados, chegando a ser verdadeiramente tocantes, quando, por exemplo, depois de Morgan contar que perdera sua esposa e filho, Eastman afirma que ele “pegará outro bebê no colo”, o que nos remete imediatamente à terna sequência no flashback de First Time Again, quando justamente isso acontece, emprestando outro significado ao momento. E, claro, a revelação de que Eastman matou – torturou até a morte seria mais correto – o assassino de sua família é particularmente dolorosa, mas que mostra que a Humanidade pode vencer até mesmo esse tipo de obstáculo intransponível.

Here’s Not Here é, definitivamente, uma demonstração de coragem por parte de Scott M. Gimple, que continua impressionando nesse início de temporada, sem meramente repetir situações. Ao fazer o diferente, o inesperado, o showrunner talvez tenha criado um dos mais belos episódios da série. Se você ficou irritado, pois queria saber o que afinal aconteceu com Glenn, Rick e Alexandria, calma, respire fundo e aprecie a contemplação que Gimple nos força a fazer.

The Walking Dead – 6X04: Here’s Not Here (EUA, 2015)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Stephen Williams
Roteiro: Scott M. Gimple
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, John Carroll Lynch
Duração: 65 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.