Crítica | The Walking Dead – 6X09: No Way Out

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estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui.

Poucas vezes torci tanto para Scott M. Gimple seguir servilmente o material fonte de The Walking Dead. Para mim, era a única salvação para um trabalho que começou fortíssimo em First Time Again, mas que perdeu o fôlego rapidamente a partir de Now, o quinto episódio desta sexta temporada. E, como uma chuva lavando todos os pecados cometidos, Gimple entregou justamente o que prometia com o cliffhanger do fraco Start to Finish e com a escolha do título do novo episódio, o mesmo do arco dos quadrinhos em que praticamente tudo que vemos aqui acontece.

É bem verdade que ele poderia ter feito isso antes, encurtando a agonia dos espectadores que viram a temporada parar quase que completamente, com alguns personagens perdidos (Gabriel, Abraham, Sasha), outros completamente deturpados (especialmente Daryl) e uma não-morte que só era misteriosa para os mais inocentes espectadores. Mas antes tarde do que nunca, não é mesmo? Afinal, No Way Out mostrou que a série está muito viva, apesar dos desmortos que a povoam.

Por um momento, porém, achei que o episódio trataria apenas da complicada situação em que Daryl, Sasha e Abraham se meteram ao darem de cara, na cena pós-créditos do último episódio, com os capangas de Negan. A impressão era justificada pelo fato de o episódio ter começado exatamente desse ponto e toda a cena (agora pré-créditos) ser vagarosa até o literalmente explosivo momento final que, de uma tacada só, resolve o problema por agora (Negan, vivido por Jeffrey Dean Morgan, aparentemente só aparecerá em carne e osso no final da temporada – espero que isso não signifique muita enrolação…) e meio que redime Daryl que não havia feito muito mais do que ficar sentado em sua moto e ser tapeado por dois novatos. Foi uma sequência ao mesmo tempo aliviante e engraçada, com aquele insuportável vilão metido a besta e sua gangue de motoqueiros fazendo cosplay de Sons of Anarchy sendo estraçalhados.

Quando a ação então passa para Alexandria, com a retomada da sequência em que vemos Rick e seu grupo saindo disfarçados de mortos-vivos e Sam balbuciando “mãe, mãe”, o roteiro de Seth Hoffman nos passa a perna bonito, alterando a cena e tornando-a bem mais domada, bem mais simplista, perigosamente caminhando para uma solução do tipo “e todos viveram felizes para sempre…”. Minha sobrancelha levantou-se nesse ponto e já estava preparado para xingar muito Hoffman e principalmente Gimple, mas acalmei-me e respirei fundo. Afinal, não era possível que nada de maior relevo fosse acontecer. Dito e feito, quando a pequena Judith é entregue ao padre Gabriel (em uma decisão impensável de Rick, diga-se de passagem…) e a sequência é retomada, agora de noite, a estrutura muda completamente e Greg Nicotero, um dos grandes nomes da série, sempre chamado para episódios-chave, passa a dirigir um filme de horror.

E é isso que ele entrega, graças à fotografia noturna de Michael E. Satrazemis, outro tesouro da série, que consegue passar muito bem o clima claustrofóbico a partir da mente de Sam que sensacionalmente remete à antológica ameaça feita por Carol lá atrás em Forget, na temporada anterior, que é ouvida em off com as imagens entrecortadas dos monstros no escuro. Em outras palavras, aquilo que nós, espectadores, ouvimos e consideramos sensacional saindo da boca da sempre adorada Carol transforma-se no catalisador dos horrores que testemunhamos a seguir, com a morte do garoto seguida da morte de sua mãe com direito a braço cortado por Rick, além da katana de Michonne atravessando sem dó o peito de Ron e o fatídico tiro acertando o olho de Carl. Reparem como a violência que criou a Carol que nós conhecemos e passamos a adorar gerou a violência que levou à morte três personagens importantes e ao quase mortal ferimento de um quarto. Tudo para que, no final, um ato tresloucado e suicida de Rick, una todos os habitantes da cidadela em prol de uma única tarefa. A grande pergunta que fica é: será que o preço dessa união não foi alto demais?

No entanto, o movimento circular do roteiro que aos poucos vai reunindo todas as pontas soltas da meia temporada do ano passado é de se tirar o chapéu, valendo especial destaque para a montagem que mostra cada alexandrino (aí já incluindo o grupo de Rick) em seu respectivo ataque de fúria em ótimos contra-plongées. Sim, há muita coisa acontecendo no “último minuto”, como a segunda quase-morte de Glenn e o fogo no lago sendo ateado quando Rick e os Alexandrinos já estão nas últimas, mas há que se perdoar aqui os atalhos, pois eles todos cumprem a função narrativa de unificar as histórias, de trazer o que Gimple começou em First Time Again a um fim digno.

E não podemos esquecer o tempo que Nicotero e Hoffman empregam, no meio de toda a confusão, para lidar com transformações. A de Denise é a primeira e mais detalhada, com seu sequestro pelo Lobo sobrevivente que garante bons momentos que culminam com Carol matando-o justamente quando Morgan, sem saber, alcançara seu objetivo. O monstro transformou-se em homem novamente, somente para talvez alguém que não mais seja completamente humano o tenha assassinado (é notável como a narrativa entremeia a quase omnipresença de Carol no episódio, desfazendo seu status de Rambo-Ripley até então intocado). Denise, no processo, torna-se segura de si e finalmente encarna, com toda sua força, sua profissão. Além disso, ainda no tema transformação, finalmente vemos Gabriel e Eugene mudarem da água para o vinho e Rick alcançando, talvez, a iluminação de Deanna, com seu filho gravemente ferido na cama. O que isso significa na prática, só os próximos capítulos dirão, mas meu receio é que não seja muita coisa.

No Way Out foi uma lufada de ar fresco no quase putrefato caminho que Gimple estava perigosamente seguindo. Ao embarcar novamente no espírito dos quadrinhos, ele soube retirar a série do marasmo, encerrar um ciclo, solidificar mudanças em alguns personagens e, com isso, abrir caminho para uma nova linha narrativa. Há muito chão pela frente ainda, mas quer parecer que The Walking Dead acertou o prumo mais uma vez.

The Walking Dead – 6X09: No Way Out (EUA, 14 de fevereiro de 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Seth Hoffman
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.