Crítica | The Walking Dead – 6X10: The Next World

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui.

Em quase todos os seus aspectos, The Next World é o típico episódio pós-traumático que vem marcando The Walking Dead praticamente desde o começo. Tudo dá errado em algum momento, seja por fatores desmortos, seja por fatores humanos, ou uma combinação dos dois, muita gente morre e os sobreviventes, então, têm que reconstruir a vida e recomeçar a história que, não demora, seguirá o mesmo ciclo mais uma vez.

Depois da mortandade em No Way Out, Gimple tinha basicamente duas opções, considerando o esquema padrão acima: mostrar os detalhes da reconstrução ou clicar no fast foward e avançar um pouco no tempo, mostrando tudo assentado novamente. Fico (muito!) feliz que ele tenha escolhido a segunda alternativa, pulando várias semanas (creio que o pulo tenha sido de mais de quatro meses até, de maneira que não fosse necessário abordar o inverno, algo ainda não visto na série) para frente e revelando uma aparente normalidade em Alexandria, mas uma normalidade que aos poucos vai se revelando como uma normalidade “padrão Rick de qualidade”, com vigias constantes sobre os muros, barreiras automobilísticas na estrada que dá na cidadela e até mesmo uma ameaça por escrito para desavisados no portão.

O próprio Rick, porém, mudou e, agora, está mais meloso, seguindo os ensinamentos positivos e otimistas de Deanna, na linha de um futuro melhor, na esperança na raça humana e todo aquele blá, blá, blá. Seu passeio com Daryl em busca de comida – e de um refrigerante para Denise presentar Tara, que agora formam efetivamente um casal – é interessante, mas leve na pegada, com idas e vindas quase cômicas diante do encontro da dupla com Jesus, personagem importante retirado dos quadrinhos e finalmente introduzido na série para a alegria dos fãs.

Vivido por Tom Payne, Jesus é apresentado como um simpático ninja (mais do que Morgan, pelo visto!) capaz de roubar chaves sem ninguém sentir, desamarrar-se em segundos como Houdini, pular no teto de caminhões como Schwarzenegger nos tempos áureos, lutar como bem… como um ninja e esgueirar-se por quartos como uma aparição de filme de terror. Cada momento com Jesus na tela quebrou completamente a seriedade da série, assim como Daryl manuseando o RPG no episódio anterior. Diante do inusitado, confesso que gostei muito do que vi. Melhor do que mais um encontro “normal”, aquelas perguntas irritantes de Rick (bem que ele tentou!) e toda a lenga-lenga que normalmente se segue a isso. Agora é ver se a adição de Jesus funcionará como nos quadrinhos.

Voltando para a Alexandria, é interessante notar que, mais uma vez, o elenco principal foi reduzido. Nada de Carol, Morgan ou Glenn, apenas alguns segundos de Maggie para que saibamos que ela é a nova Deanna e especialmente nada de Alexandrinos nativos a não ser Denise muito rapidamente e Spencer, que ganha seus 15 minutos de fama em uma escapulida à floresta para acabar com a agonia de sua mãe, agora uma morta-viva. Toda a sequência na floresta, com Carl e Enid de um lado e Michonne e Spencer do outro foi interessante, mas não muito mais do que isso. Pareceu muito mais como uma forma de se estender o episódio do que algo escrito para desenvolver a narrativa. Espero que pelo menos Spencer não seja relegado ao time de indigentes de Alexandria, só aparecendo quando conveniente.

Mas rapidamente voltando ao início, aquele ar de normalidade todo na casa de Rick, com música tocando e ele e Michonne brincando de casinha foi um tanto forçado e minha compreensão inicial foi que eles já estavam juntos. No entanto, ao final, a impressão que deu era que aquela era a primeira vez deles, depois de um dia pesado para os dois. A grande verdade, porém, é que pouco importa, já que o romance dos dois maiores badasses (pois Daryl perdeu o segundo lugar há tempos) da série tem potencial desde que os episódios não descambem para olhares lânguidos de um para o outro e momentos românticos sem conexão ou função narrativa em relação à trama maior. A série nunca foi de fazer isso – romances sempre foram abordados, de uma forma ou de outra, mas sem que eles interferissem na história – e espero que não comece agora, pois tudo que não preciso é algo como Barrados no Baile com zumbis (e, se estou muito ácido aqui, culpe determinadas séries que acompanho para fazer as críticas aqui para o site…).

Kari Skogland, prolixa diretora de televisão e que havia dirigido o ótimo episódio quatro e o fraco episódio cinco da 1ª temporada de Fear the Walking Dead, comanda bem o elenco reduzido, criando ótima dinâmica entre Rick e Daryl, além de trabalhar bem o tempo empregado em todas as tramas que o roteiro aborda, equilibrando o tom entre o sóbrio (Deanna zumbi) e o divertido (Jesus ninja), sem perder a mão. Além disso, a fotografia diurna, com câmeras trabalhando belos planos gerais e com uma iluminação atípica para a série, ajuda a evocar o estado de espírito desse novo Rick que vemos, além da chegada de Jesus e do razoavelmente poético, mas longo demais, momento materno-florestal com Carl, Enid, Michonne e Spencer.

The Next World, apesar de trazer novidades pontuais aqui e ali, é, rigorosamente, aquilo que se pode esperar de um episódio exibido depois de desgraceira generalizada. No entanto, de alguma forma, as peças encaixam-se muito bem e o episódio é impressionantemente agradável de se ver, com arestas mais bem aparadas do que no anterior. Agora, com novas bases estabelecidas, é esperar que Gimple avance a narrativa a passos largos, sem enrolação e sem gigantescos arcos em que nada de verdade acontece.

The Walking Dead – 6X10: The Next World (EUA, 21 de fevereiro de 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Angela Kang, Corey Reed
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.